O Mujique Marei 1
Conto-memória de 1876: preso na Sibéria, Dostoiévski recorda como na infância o camponês Marei o consolou com ternura, e por essa lembrança reencontra a dignidade do povo que o cercava
A memória do camponês Marei
Era o segundo dia da semana da Páscoa. O ar estava morno, o céu azul, o sol alto, quente, claro, mas a minha alma estava muito sombria. Eu vagava atrás dos barracões da prisão. Fitava as estacas da forte cerca do presídio, contando as tábuas; não tinha vontade de contá-las, embora fosse o meu hábito fazê-lo. Era o segundo dia das "festas" na prisão; os condenados não eram levados ao trabalho, havia muitos homens bêbados, e a todo instante brotavam, em cada canto, xingamentos e brigas. Havia cantos horríveis, repugnantes, e rodas de baralho montadas ao lado das tarimbas. Vários dos detentos que os próprios companheiros tinham sentenciado, por violência especial, a apanhar até quase morrer, jaziam sobre as tarimbas, cobertos com peles de carneiro, à espera de se recuperar e voltar a si; facas já tinham sido sacadas várias vezes. Naqueles dois dias de festa, tudo isso me torturava a ponto de me adoecer. E, de fato, eu nunca conseguia suportar sem repulsa o barulho e a desordem dos bêbados, ainda mais ali.