A acusação: Tu deste liberdade demais
O monólogo do Inquisidor é o coração do poema, e a sua tese é uma só. Ele acusa Cristo de ter amado os homens demais. Ao dar liberdade aos homens, em vez de dar pão e regras, Cristo teria deixado uma carga pesada demais para criaturas fracas. O velho diz que a Igueja, ao longo de quinze séculos, corrigiu essa obra: tomou de volta a liberdade que Cristo deu e, em troca, prometeu aos homens pão e descanso.
19 'Sim, pagamos caro por isso', prossegue ele, olhando severamente para Ele, 'mas afinal completamos essa obra em Teu nome. Por quinze séculos lutamos com a Tua liberdade, mas agora está acabada, e acabada para sempre. Não acreditas que está acabada para sempre? Olhas para mim com mansidão e nem te dignas a irar-te comigo. Mas deixa que eu te diga: agora, hoje, as pessoas estão mais convencidas do que nunca de que têm liberdade perfeita, e no entanto trouxeram a sua liberdade até nós e a depuseram humildemente aos nossos pés. Mas isso foi obra nossa. Era isto o que Tu querias? Era esta a Tua liberdade?'"
Pão contra liberdade
O argumento do velho se apoia nas três tentações que Cristo sofreu no deserto. A primeira é a do pão: o tentador pediu que Cristo transformasse pedras em pão. Cristo recusou, dizendo que o homem não vive só de pão. Para o Inquisidor, essa recusa foi um erro. Ele diz que, com o pão garantido, os homens correriam atrás de Cristo como um rebanho, e que no fim eles mesmos depositam a liberdade aos pés de quem os alimenta.
8 Mas vês estas pedras neste deserto seco e estéril? Transforma-as em pão, e a humanidade correrá atrás de Ti como um rebanho de ovelhas, grata e obediente, ainda que sempre a tremer, com medo de que retires a Tua mão e lhe negues o Teu pão."
14 E só nós os alimentaremos em Teu nome, declarando falsamente que é em Teu nome. Ah, nunca, nunca poderão eles se alimentar sem nós! Nenhuma ciência lhes dará pão enquanto permanecerem livres. No fim, eles depositarão a sua liberdade aos nossos pés e nos dirão: "Façam de nós seus escravos, mas alimentem-nos."
Milagre, mistério e autoridade
O Inquisidor diz que existem três poderes capazes de prender para sempre a consciência fraca dos homens: o milagre, o mistério e a autoridade. Cristo recusou os três no deserto, e por isso, segundo o velho, falhou. A Igreja, ao contrário, fundou-se exatamente sobre eles. Onde Cristo quis fé livre, o Inquisidor oferece um mistério que os homens seguem cegamente, e um poder que os governa.
1 De modo que, na verdade, Tu mesmo lançaste o alicerce da destruição do Teu reino, e ninguém tem mais culpa disso do que Tu. E, no entanto, o que Te foi oferecido? Há três poderes, só três poderes, capazes de subjugar e manter cativa para sempre a consciência destes rebeldes impotentes, para a felicidade deles: essas forças são o milagre, o mistério e a autoridade. Tu rejeitaste as três e deste o exemplo de fazê-lo.
A espada de César
Então vem a confissão mais grave. O velho admite que a Igreja dele, há oito séculos, não trabalha com Cristo, mas com o outro, o tentador. Aquele último dom que Cristo rejeitou no deserto, todos os reinos do mundo, a Igreja aceitou: tomou Roma e a espada de César e se proclamou senhora da terra, prometendo, no fim, a felicidade universal dos homens.
19 Não trabalhamos Contigo, mas com ele: eis o nosso mistério. Faz tempo, oito séculos, que estamos do lado dele e não do Teu. Há exatamente oito séculos tomamos dele aquilo que Tu rejeitaste com desprezo, o último dom que ele Te ofereceu, mostrando-Te todos os reinos da terra. Tomamos dele Roma e a espada de César, e proclamamo-nos os únicos senhores da terra, embora até agora não tenhamos conseguido concluir a nossa obra.
O monólogo se fecha com uma ameaça fria. O Inquisidor diz que, no dia seguinte, a mesma multidão obediente correrá para juntar as brasas, e que ele queimará Cristo na fogueira como o pior dos hereges. A última palavra dele é em latim: dixi, eu disse.
15 Repito: amanhã verás aquele rebanho obediente que, a um sinal meu, correrá para amontoar as brasas quentes em torno da pira sobre a qual eu Te queimarei por teres vindo nos atrapalhar. Pois, se alguém alguma vez mereceu os nossos fogos, és Tu. Amanhã eu Te queimo. Dixi.'”