As Três Tentações de Cristo

O poema é uma releitura do deserto

Todo o discurso do Inquisidor é construído em cima de uma única passagem da Bíblia: as três tentações que Cristo sofreu no deserto, contadas em Mateus e em Lucas. O velho chama essas três perguntas do tentador de um milagre em si, e diz que nelas está resumida toda a história humana. A genialidade do poema é essa: ele pega o que Cristo recusou e argumenta que a recusa foi um erro cruel.

1 "'O espírito sábio e terrível, o espírito da autodestruição e do não-ser', prossegue o velho, 'o grande espírito falou Contigo no deserto, e nos livros nos dizem que ele Te "tentou". É isso mesmo? E poderia ter sido dito algo mais verdadeiro do que aquilo que ele Te revelou em três perguntas, e que Tu rejeitaste, e que nos livros se chama "a tentação"?

Primeira tentação: o pão

No deserto, o tentador disse a Cristo, faminto, que transformasse pedras em pão. Cristo respondeu citando o Antigo Testamento: nem só de pão viverá o homem. O Inquisidor pega essa cena e a inverte. Para ele, o pão é a bandeira invencível: dê pão e o homem te adora. A recusa de Cristo, em nome da liberdade, é o primeiro erro que o velho aponta.

3 E, chegando-se a ele o tentador, disse: Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães.

4 Ele, porém, respondendo, disse: Está escrito: Nem de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.

9 Mas Tu não quiseste privar o homem da liberdade e rejeitaste a oferta, pensando: que vale essa liberdade, se a obediência é comprada com pão? Tu respondeste que o homem não vive de pão.

3 E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá de pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor viverá o homem.

Segunda tentação: o milagre

A segunda tentação foi no pináculo do templo: o tentador mandou Cristo se atirar lá do alto, citando o Salmo, para que os anjos O segurassem e provassem quem Ele era. Cristo recusou o milagre espetacular. O Inquisidor liga essa cena ao momento da cruz, quando gritaram para Jesus descer dela e crer nele. Cristo, de novo, não desceu, porque queria fé livre, não fé arrancada por um prodígio.

5 Então o diabo o transportou à cidade santa, e colocou-o sobre o pináculo do templo,

6 E disse-lhe: Se tu és o Filho de Deus, lança-te de aqui abaixo; porque está escrito: Que aos seus anjos dará ordens a teu respeito, E tomar-te-ão nas mãos, Para que nunca tropeces com o teu em alguma pedra.

7 Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus.

7 Tu não desceste da cruz quando gritaram para Ti, escarnecendo-Te e ultrajando-Te: 'Desce da cruz e creremos que és Ele.' Tu não desceste, pois mais uma vez não quiseste escravizar o homem por um milagre, e ansiavas por uma dada livremente, não fundada em milagre. Ansiavas pelo amor livre e não pelos baixos arroubos do escravo diante do poder que o subjugou para sempre.

40 E dizendo: Tu, que destróis o templo, e em três dias o reedificas, salva-te a ti mesmo. Se és Filho de Deus, desce da cruz.

41 E da mesma maneira também os príncipes dos sacerdotes, com os escribas, e anciãos, e fariseus, escarnecendo, diziam:

42 Salvou os outros, e a si mesmo não pode salvar-se. Se é o Rei de Israel, desça agora da cruz, e creremos nele.

Terceira tentação: o poder

A terceira tentação foi a do poder: do alto de um monte, o tentador mostrou a Cristo todos os reinos do mundo e os ofereceu em troca de adoração. Cristo recusou. O Inquisidor confessa que a Igreja dele aceitou justamente esse dom rejeitado, a espada de César, o domínio sobre a terra, para reunir todos os homens sob um só poder.

8 Novamente o transportou o diabo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles.

9 E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares.

10 Então disse-lhe Jesus: Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e a ele servirás.

21 Mas Tu poderias ter tomado então a espada de César. Por que rejeitaste aquele último dom? Se tivesses aceitado aquele último conselho do espírito poderoso, terias realizado tudo o que o homem busca na terra: isto é, alguém a quem adorar, alguém que lhe guarde a consciência, e algum meio de unir a todos num formigueiro unânime e harmonioso, pois o anseio de unidade universal é a terceira e última angústia dos homens.

Em resumo: o poema reescreve as três tentações como três ofertas que teriam feito os homens felizes. Cristo disse não às três, em nome da liberdade. O Inquisidor diz que aceitou as três, em nome da felicidade. É nessa troca, liberdade contra felicidade, que está a tese do poema, e é dela que trata a próxima página.