Cristo Volta a Sevilha

Quinze séculos de espera

Ivan começa lembrando que se passaram quinze séculos desde que Cristo prometeu voltar. O profeta do Apocalipse escreveu que Ele viria sem demora, e Ele mesmo dissera que ninguém sabe o dia nem a hora. Os séculos correram, os sinais do céu sumiram, e a humanidade continuou esperando. É nesse pano de fundo que Ivan resolve fazer Cristo descer mais uma vez, por um instante, no meio dos homens.

6 Quinze séculos se passaram desde que Ele prometeu vir em Sua glória, quinze séculos desde que Seu profeta escreveu: 'Eis que venho sem demora'; 'Daquele dia e daquela hora ninguém sabe, nem mesmo o Filho, senão o Pai', como Ele mesmo predisse na terra. Mas a humanidade O aguarda com a mesma e o mesmo amor. Ah, com ainda maior, pois faz quinze séculos que o homem deixou de ver sinais do céu.

A aparição e as curas

A cena se passa em Sevilha, na Espanha, no tempo mais terrível da Inquisição, quando se queimavam hereges na fogueira todos os dias. Cristo aparece em silêncio, e mesmo assim todos O reconhecem. O povo se aglomera, e do contato com Ele vem uma força que cura. Um cego de nascença pede e enxerga. Diante da catedral, Ele para um caixão branco e diz a uma menina morta que se levante, e ela se senta, viva, segurando um ramo de rosas.

5 Um velho na multidão, cego desde a infância, grita: "Senhor, cura-me e eu Te verei!", e, como que escamas lhe caem dos olhos, e o cego O vê. A multidão chora e beija a terra sob os Seus pés. As crianças jogam flores diante Dele, cantam e clamam hosana. Ele, é Ele!", repetem todos. "Só pode ser Ele, não pode ser outro senão Ele!"

7 A procissão para, o caixão é posto nos degraus, aos Seus pés. Ele olha com compaixão, e Seus lábios, mais uma vez, pronunciam de mansinho: "Menina, levanta-te!", e a menina se levanta. A menininha se senta no caixão e olha em volta, sorrindo com os olhos bem abertos, maravilhados, segurando um ramo de rosas brancas que lhe haviam posto na mão.

O Inquisidor manda prender Cristo

No meio dessa alegria passa o cardeal, o Grande Inquisidor: um velho de quase noventa anos, de rosto seco e olhos fundos. Ele vê a menina se levantar, e o seu rosto se fecha. Em vez de se ajoelhar, ele estende o dedo e ordena aos guardas que prendam Cristo. E tal é o poder do velho que a mesma multidão que beijava os pés de Jesus abre caminho, em silêncio, para os guardas O levarem preso.

9 Ele para ao avistar a multidão e a observa de longe. tudo: que põem o caixão aos pés Dele, a criança se levantar, e seu rosto se ensombrece. Franze as grossas sobrancelhas grisalhas e seus olhos brilham com um fogo sinistro. Estende o dedo e ordena aos guardas que O prendam. E tal é o seu poder, tão completamente o povo está acuado em submissão e obediência trêmula a ele, que a multidão na mesma hora abre caminho para os guardas, e, em meio a um silêncio de morte, eles lançam as mãos sobre Ele e O levam embora.

À noite, o velho entra sozinho na cela escura, com uma luz na mão. Encara o prisioneiro em silêncio e começa a falar. A primeira coisa que diz já dá o tom de tudo: por que vieste atrapalhar-nos?

12 "És Tu? Tu?", mas, não recebendo resposta, acrescenta logo: "Não respondas, fica calado. O que poderias dizer, afinal? Sei bem demais o que dirias. E não tens o direito de acrescentar nada ao que disseste tanto tempo. Por que, então, vieste atrapalhar-nos? Pois vieste atrapalhar-nos, e sabes disso.