Jesus Contra Paulo

O único cristão morreu na cruz

Esta é a manobra mais surpreendente do livro. Nietzsche não despreza Jesus. Ele o trata quase com ternura, como um tipo psicológico raro: o homem da pura interioridade, incapaz de ódio e de resistência, cuja boa nova era um modo de viver, não uma doutrina a ser crida. O "reino de Deus", nessa leitura, era um estado do coração no presente, não uma promessa para depois da morte.

5 Volto atrás, conto a verdadeira história do Cristianismo. a palavra "Cristianismo" é um mal-entendido, no fundo houve um único cristão, e esse morreu na cruz. O "Evangelho" morreu na cruz. O que a partir desse instante se chama "Evangelho" era o oposto daquilo que ele viveu: uma "má notícia", um disangelho. É falso a ponto do absurdo ver o distintivo do cristão numa "fé", por exemplo na na redenção por Cristo: a prática cristã, uma vida como a daquele que morreu na cruz a viveu, é cristã… Ainda hoje uma vida assim é possível, para certos homens até necessária: o Cristianismo verdadeiro, o originário, será possível em todos os tempos… Não uma fé, mas um fazer, antes de tudo um muito-não-fazer, um outro ser… Estados de consciência, alguma fé, um ter-por-verdadeiro, por exemplo todo psicólogo sabe disso são perfeitamente indiferentes e de quinta categoria diante do valor dos instintos: falando com mais rigor, todo o conceito de causalidade espiritual é falso. Reduzir o ser-cristão, a cristandade, a um ter-por-verdadeiro, a uma mera fenomenalidade da consciência, significa negar a cristandade. De fato, não houve cristão algum. O "cristão", aquilo que dois milênios se chama cristão, é apenas um mal-entendido psicológico de si mesmo. Olhando mais de perto, nele reinavam, apesar de toda "fé", apenas os instintos e que instintos! A "fé" foi sempre, por exemplo em Lutero, apenas um manto, um pretexto, uma cortina, atrás da qual os instintos jogavam o seu jogo, uma cegueira astuta sobre o domínio de certos instintos… A "fé", a chamei a verdadeira esperteza cristã, falava-se sempre de "fé", agia-se sempre apenas por instinto… No mundo de representações do cristão não ocorre nada que toque sequer a realidade: ao contrário, reconhecemos no ódio instintivo contra toda realidade o elemento motor, o único elemento motor na raiz do Cristianismo. O que se segue disso? Que também in psychologicis o erro aqui é radical, isto é, determinante da essência, isto é, substância. Tire daqui um conceito, ponha uma única realidade em seu lugar, e todo o Cristianismo rola para o nada! Visto do alto, esse mais singular de todos os fatos, uma religião não condicionada por erros, mas inventiva e até genial unicamente em erros nocivos, em erros que envenenam a vida e o coração, permanece um espetáculo para deuses, para aquelas divindades que são ao mesmo tempo filósofos e que encontrei, por exemplo, naqueles famosos diálogos em Naxos. No instante em que a náusea os abandona (— e nos abandona!), eles se tornam gratos pelo espetáculo do cristão: o miserável pequeno astro que se chama Terra talvez mereça, por causa desse caso curioso, um olhar divino, uma divina participação… Não subestimemos, pois, o cristão: o cristão, falso a ponto da inocência, está muito acima do macaco, no que toca aos cristãos, uma conhecida teoria da origem torna-se mera cortesia…

O culpado, na conta de Nietzsche, é Paulo. Foi ele quem teria transformado a prática de Jesus em seu oposto: inventou o pecado, o juízo, a ressurreição e a imortalidade pessoal, deslocou o peso da vida para o além e construiu uma Igreja de poder sobre o túmulo do mestre. A fórmula latina com que ele resume isso ficou famosa: o Deus que Paulo criou é a negação de Deus.

2 Não é isso que nos separa, o fato de não reencontrarmos um Deus, nem na história, nem na natureza, nem por trás da natureza, mas o fato de sentirmos aquilo que foi venerado como Deus não como "divino", e sim como digno de compaixão, como absurdo, como nocivo, não apenas como um erro, mas como um crime contra a vida… Negamos Deus como Deus… Se nos provassem esse Deus dos cristãos, saberíamos crer nele ainda menos. Em fórmula: deus, qualem Paulus creavit, dei negatio. Uma religião como o cristianismo, que não toca a realidade em ponto algum, que desmorona no instante em que a realidade ganha razão ainda que num único ponto, tem por força de ser inimiga mortal da "sabedoria do mundo", quero dizer, da ciência, ela aprovará todos os meios pelos quais a disciplina do espírito, a integridade e o rigor em questões de consciência do espírito, a frieza nobre e a liberdade do espírito possam ser envenenadas, caluniadas, postas em descrédito. A "fé" como imperativo é o veto contra a ciência, na prática a mentira a qualquer preço… Paulo compreendeu que a mentira, que "a fé", era necessária; mais tarde a Igreja compreendeu de novo Paulo. Aquele "Deus" que Paulo inventou para si, um Deus que "envergonha a sabedoria do mundo" (em sentido mais estrito, as duas grandes adversárias de toda superstição, a filologia e a medicina), é na verdade apenas a decisão resoluta do próprio Paulo de fazê-lo: chamar de "Deus" a própria vontade, thora, isso é arquijudaico. Paulo quer envergonhar "a sabedoria do mundo": seus inimigos são os bons filólogos e médicos de formação alexandrina, é a eles que ele faz a guerra. De fato, ninguém é filólogo e médico sem ser ao mesmo tempo anticristo. Pois como filólogo se enxerga por trás dos "livros sagrados", como médico, por trás da degeneração fisiológica do cristão típico. O médico diz "incurável", o filólogo diz "fraude"…

O que os documentos dizem

Aqui o debate é histórico, e tem terreno firme dos dois lados. As cartas de Paulo são os textos cristãos mais antigos que temos, anteriores aos Evangelhos. O próprio Paulo afirma ter recebido o essencial da mensagem, a morte e ressurreição de Cristo, como tradição que já existia antes dele, e cita uma lista de testemunhas. A pergunta é se ele transmitiu ou se inventou.

3 Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras,

4 E que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras.

5 E que foi visto por Cefas, e depois pelos doze.

6 Depois foi visto, uma vez, por mais de quinhentos irmãos, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns dormem também.

7 Depois foi visto por Tiago, depois por todos os apóstolos.

8 E por derradeiro de todos me apareceu também a mim, como a um abortivo.

11 Mas faço-vos saber, irmãos, que o evangelho que por mim foi anunciado não é segundo os homens.

12 Porque não o recebi, nem aprendi de homem algum, mas pela revelação de Jesus Cristo.

Perspectivas sobre este tema

Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.

Crítico Histórico

O cristianismo que nos chega é um processo de camadas; não há um Jesus puro a recuperar.

Nietzsche tem mais aliados acadêmicos do que o tom polêmico de O Anticristo sugere. A distinção entre o Jesus da história e o Cristo da fé não nasceu com ele: já estava em Reimarus no século XVIII e em David Friedrich Strauss, cuja Vida de Jesus de 1835 tratou os relatos sobrenaturais como mito no sentido técnico. Toda a chamada Primeira Busca pelo Jesus histórico opera sobre a intuição que Nietzsche radicaliza: o que o homem da Galileia pregou, a chegada iminente do reino de Deus, e o que se passou a pregar sobre ele, sua morte como expiação e sua ressurreição como salvação, são coisas reconhecíveis como distintas. Quando Nietzsche diz que Paulo deslocou o centro de gravidade da existência de Jesus para depois da morte de Jesus, ele formula com bisturi algo que a crítica histórico-literária registra com instrumentos próprios.

Há um dado cronológico que dá peso à provocação. As sete cartas indisputadas de Paulo são, por consenso, os documentos cristãos mais antigos que possuímos, datadas dos anos 50, uma a duas décadas antes do mais antigo dos evangelhos. A primeira voz cristã que chega até nós por escrito não é a de quem narra a pregação do reino, é a de quem já a interpreta como teologia da cruz. E os temas que Nietzsche atribui a Paulo (pecado, juízo, imortalidade pessoal, justificação) ocupam o centro do edifício paulino de um modo que não se encontra com a mesma arquitetura nos ditos do reino reconstruídos a partir da camada mais antiga dos sinóticos. A descontinuidade entre uma pregação que anuncia o reino e uma cristologia que faz do pregador o conteúdo da própria mensagem é um problema textual concreto.

Aqui, porém, a honestidade exige conceder o ponto contra Nietzsche, e ele é forte. O próprio Paulo, em 1Coríntios 15:3-8, abre dizendo que entregou aquilo que também recebeu: a fórmula de que Cristo morreu pelos nossos pecados segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou, seguida de uma lista de testemunhas. A linguagem técnica de recepção e transmissão, somada a traços de vocabulário atípicos de Paulo, leva a maioria dos especialistas a ver ali um credo pré-paulino, formulado provavelmente nos anos 30, possivelmente antes mesmo da conversão de Paulo. Isso significa que a interpretação da morte como expiatória e a afirmação da ressurreição não foram invenção de Tarso: ele as recebeu de uma comunidade anterior. O que se sustenta com rigor é mais sóbrio: Paulo sistematizou e universalizou uma tradição que já existia, não que a criou do nada.

O nó que sobra é metodológico, e nenhum lado deveria fingir que se desata fácil. Reconstruir o Jesus pré-pascal é difícil exatamente porque toda fonte que temos já é pós-pascal: até os ditos mais arcaicos nos chegam filtrados por comunidades que já creem na ressurreição. Não há um Jesus puro de interioridade preservado em estado bruto a que Nietzsche possa apelar como controle; esse Jesus do reino íntimo é, em boa medida, também uma reconstrução seletiva. O saldo para a afirmação de revelação direta é modesto mas inconveniente: o cristianismo que chega até nós é demonstravelmente um processo, camadas de interpretação acumuladas sobre um núcleo que já não isolamos com pureza. Isso não decide se Deus agiu nessa história. Decide que a história tem costuras humanas visíveis, e que tanto o veredito de Nietzsche quanto a defesa da unidade perfeita entre Jesus e Paulo simplificam o que as fontes mostram ser plural.

Apologista Evidencial

O credo que Nietzsche chama de invenção paulina é pré-paulino, dos anos 30: Paulo herdou, não criou.

Nietzsche tem razão num ponto factual que a apologética preguiçosa ignora: as cartas de Paulo são, sim, os escritos cristãos mais antigos que temos, anteriores aos Evangelhos em duas ou três décadas. Se a tese fosse só cronológica, ele venceria. Mas o próprio texto que ele teria de explicar trabalha contra ele. Em 1Coríntios 15:3-8 Paulo não diz eu revelo, diz eu vos transmiti o que também recebi: ele cita um credo formulado, com paralelismo semítico e vocabulário que não é o dele, que a crítica histórica (não a apologética) data dos anos 30. Gerd Lüdemann, ateu e dos mais céticos quanto à ressurreição, situa essa tradição nos dois a três anos após a crucificação. O núcleo morreu pelos nossos pecados, ressuscitou, apareceu já circulava antes da conversão de Paulo. Aquilo que Nietzsche chama de invenção paulina é o que Paulo declara ter herdado de outros.

Isso não apaga as diferenças reais entre Jesus e Paulo, e seria desonesto fingir que apaga. Jesus prega o reino em parábolas galileias; Paulo escreve cartas pastorais a igrejas urbanas gregas, com um aparato sobre justificação, lei e gentios que Jesus não desenvolve nesses termos. A ênfase muda porque o problema mudou: o Jesus dos sinóticos fala dentro do judaísmo da Galileia, Paulo negocia a entrada de pagãos numa comunidade messiânica. Diferença de ênfase e de situação pastoral, porém, não é o mesmo que troca de objeto. A própria distância de gênero entre um pregador itinerante e um missionário epistolar já prevê boa parte do contraste que Nietzsche lê como traição.

O ponto mais frágil da tese é o Jesus puro interior que Nietzsche precisa preservar. Esse Jesus não vem dos textos, vem do desejo dele de ter um Jesus simpático para opor a Paulo. O consenso da pesquisa sobre o Jesus histórico, de E.P. Sanders e Dale Allison a John Meier e ao próprio cético Bart Ehrman, é que Jesus foi um profeta apocalíptico, herdeiro de João Batista, que anunciava juízo iminente. Um Jesus sem escatologia, reduzido a interioridade moral, é menos histórico que o Cristo de Paulo, não mais. E os próprios sinóticos, fonte de onde Nietzsche tira seu Jesus admirável, põem na boca dele afirmações sobre a própria autoridade, perdoar pecados, julgar, ser senhor do sábado, que já são cristológicas antes de qualquer linha de Paulo.

O que de fato fica em aberto a historiografia não resolve, e a apologética honesta não deve fingir resolver: há genuína evolução teológica entre a pregação galileia e a reflexão paulina, e reconstruir o quanto Jesus afirmou explicitamente sobre si mesmo continua sendo terreno disputado. Mas isso é desenvolvimento de uma tradição, não invenção de um objeto novo. A oposição limpa Jesus contra Paulo depende de um Jesus depurado de escatologia e de pretensão sobre si, e de um credo paulino tratado como criação tardia: as duas peças que sustentam a tese de Nietzsche são justamente as que a evidência mais antiga, datada pelos próprios críticos, não concede.