A Transvaloração dos Valores

Trocar o sinal de tudo

Transvaloração é a palavra que dá nome ao projeto inteiro de que O Anticristo seria a primeira parte. A ideia é simples e radical: em algum momento da história, alguém trocou o sinal de todos os valores. O que a Antiguidade nobre chamava de bom, a saúde, a força, o orgulho, a beleza, passou a ser chamado de mau. O que ela desprezava, a doença, a humildade, a pobreza, a renúncia, passou a ser chamado de bom.

Para Nietzsche, o cristianismo é o nome dessa inversão. Não que ele tenha inventado o engano: a raiz estaria no sacerdócio de Israel, que já teria reescrito a própria história para colocar os derrotados como os escolhidos. Mas o cristianismo levou a inversão ao mundo todo. O resultado, na visão dele, é uma civilização que aprendeu a ter má consciência da sua própria vitalidade.

A obra fecha com um decreto paródico, a Lei contra o Cristianismo, em que Nietzsche propõe recontar o tempo a partir do dia em que escreve, abolindo o calendário cristão. É a transvaloração encenada: zerar a história e recomeçar dos valores da vida.

1 Com isto chego ao fim e profiro minha sentença. Eu condeno o cristianismo, eu levanto contra a Igreja cristã a mais terrível de todas as acusações que um acusador pôs na boca. Ela é para mim a mais alta de todas as corrupções imagináveis, ela teve a vontade da última corrupção sequer possível. A Igreja cristã não deixou nada intocado por sua perversão, ela fez de cada valor um desvalor, de cada verdade uma mentira, de cada retidão uma baixeza da alma. Que ainda ousem me falar de seus benefícios “humanitários”! Abolir qualquer estado de miséria contrariava sua utilidade mais profunda, ela vivia de estados de miséria, ela criava estados de miséria para se eternizar… O verme do pecado, por exemplo: foi com esse estado de miséria que a Igreja primeiro enriqueceu a humanidade! A “igualdade das almas diante de Deus”, essa falsidade, esse pretexto para as rancunes de todos os de índole baixa, esse conceito-explosivo, que por fim se tornou revolução, ideia moderna e princípio de decadência de toda a ordem social é dinamite cristã… Benefícios “humanitários” do cristianismo! Cultivar a partir da humanitas uma autocontradição, uma arte da autoprofanação, uma vontade de mentir a qualquer preço, uma aversão e um desprezo por todos os instintos bons e retos! Isso é que seriam para mim benefícios do cristianismo! O parasitismo como única prática da Igreja; com seu ideal de clorose, seu ideal de “santidade”, sugando até a última gota todo sangue, todo amor, toda esperança de vida; o além como vontade de negação de toda realidade; a cruz como sinal de reconhecimento da mais subterrânea conspiração que existiu contra a saúde, a beleza, a boa constituição, a coragem, o espírito, a bondade da alma, contra a própria vida…

2 Esta eterna acusação ao cristianismo quero escrever em todas as paredes, onde quer que haja paredes tenho letras capazes de fazer ver até os cegos… Eu chamo o cristianismo a única grande maldição, a única grande perversão mais íntima, o único grande instinto de vingança, para o qual nenhum meio é venenoso, dissimulado, subterrâneo, pequeno o bastante eu o chamo a única mancha imortal de vergonha da humanidade…

3 E contam o tempo a partir do dies nefastus em que esta fatalidade começou a partir do primeiro dia do cristianismo! Por que não, de preferência, a partir de seu último? A partir de hoje? Transvaloração de todos os valores!…

4 Dada no dia da salvação, no primeiro dia do ano Um (— em 30 de setembro de 1888 da falsa cronologia)

5 Guerra de morte ao vício: o vício é o cristianismo.

6 Primeira proposição. Vicioso é todo tipo de antinatureza. O tipo mais vicioso de homem é o sacerdote: ele ensina a antinatureza. Contra o sacerdote não se têm argumentos, tem-se a prisão.

7 Segunda proposição. Toda participação num culto religioso é um atentado à moralidade pública. Deve-se ser mais duro com os protestantes do que com os católicos, mais duro com os protestantes liberais do que com os ortodoxos. O que de criminoso em ser cristão aumenta na medida em que se aproxima da ciência. O criminoso dos criminosos é, por conseguinte, o filósofo.

8 Terceira proposição. O lugar maldito em que o cristianismo chocou seus ovos de basilisco deve ser arrasado ao chão e, como ponto infame da terra, ser o terror de toda a posteridade. Devem-se criar serpentes venenosas sobre ele.

9 Quarta proposição. A pregação da castidade é uma incitação pública à antinatureza. Todo desprezo pela vida sexual, toda profanação dela pelo conceito de “impuro” é o verdadeiro pecado contra o espírito santo da vida.

10 Quinta proposição. Comer à mesma mesa com um sacerdote exclui: com isso a pessoa se excomunga da sociedade honesta. O sacerdote é o nosso Chandala deve-se proscrevê-lo, fazê-lo passar fome, expulsá-lo para todo tipo de deserto.

11 Sexta proposição. Deve-se chamar a história “sagrada” pelo nome que ela merece, história maldita; devem-se usar as palavras “Deus”, “Salvador”, “Redentor”, “Santo” como insultos, como marcas de criminoso.

12 Sétima proposição. O resto decorre disso.

13 O Anticristo.

O eco de um aviso antigo

A acusação tem uma ironia: a própria Bíblia já conhecia o perigo de chamar o mal de bem e o bem de mal, e o tratava como corrupção, não como virtude. A pergunta que separa Nietzsche do cristão é quem inverteu o quê: se o cristianismo perverteu valores saudáveis, como ele diz, ou se ele restaurou um valor que o orgulho humano havia perdido.

20 Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo!

Perspectivas sobre este tema

Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.

Crítico Histórico

A camada que codificou a Lei é datável e nasceu numa derrota: o sagrado tem cronologia.

A força do argumento de Nietzsche não está num panfleto contra a fé, mas numa observação que a própria crítica histórica corrobora em parte: os valores morais têm data de fabricação. O que o mundo aristocrático greco-romano cultuava como virtude (a força, a saúde, o orgulho, a magnificência do bem-nascido) o cristianismo passou a chamar de pecado, e o que aquela cultura desprezava (a pobreza, a mansidão, a renúncia) tornou-se o sinal dos eleitos. Não é especulação: o imperador Juliano, observando de fora e com hostilidade, já notava no século IV que os cristãos venciam justamente pela caridade aos desprezados que o sacerdócio pagão ignorava. A reverência a um deus crucificado, suplício reservado a escravos e sediciosos, era para a sensibilidade romana algo próximo do escândalo.

Onde o argumento ganha lastro inesperado é na tese de que a Escritura de Israel foi reescrita pelos derrotados. A hipótese documental de Graf e Wellhausen, ainda hoje a moldura de referência da maioria dos estudiosos, data a chamada fonte sacerdotal, a camada que dá ao Pentateuco sua arquitetura litúrgica e seu calendário de festas, ao período do exílio babilônico ou logo depois, por volta de 500 a.C. Ou seja: a sistematização da Lei como a conhecemos foi obra de uma casta sacerdotal num momento de derrota nacional absoluta, com o templo destruído e a elite deportada. Foi quando Israel perdeu tudo no plano político que produziu a versão mais forte da sua eleição teológica.

Convém conceder o que a evidência não autoriza. Nietzsche caricatura quando reduz o judaísmo inteiro a ressentimento de sacerdotes, e a própria genealogia de Wellhausen carrega vieses oitocentistas que a crítica recente revisa: a fonte sacerdotal contém material antigo reorganizado, não inventado do nada no exílio. Que os valores mudaram de sinal entre Atenas, Roma e Jerusalém é fato histórico; que essa mudança seja decadência, e não progresso moral, é juízo de Nietzsche, não dado. O texto de Isaías que adverte contra chamar o mal de bem pressupõe um bem fixo anterior ao julgamento humano. Nietzsche responde que esse bem fixo é ele mesmo produto de uma revolução vencedora.

O que isso significa para a afirmação de uma revelação intemporal é o ponto que a página deveria encarar. Se a moral da Escritura tem genealogia, se é possível datar a camada que codificou a Lei e situá-la numa derrota concreta, então os valores que o texto apresenta como decretos divinos eternos aparecem também, ao mesmo tempo, como respostas humanas a uma crise humana. Isso não os torna falsos: torna-os históricos. A Lei contra o Cristianismo, com seu gesto teatral de zerar o calendário, é o reconhecimento de que datas, valores e calendários são instituídos por alguém, em algum momento, com algum interesse. O incômodo que Nietzsche provoca não é o ateísmo, é a sugestão de que o sagrado tem cronologia.

Apologista Evidencial

A Bíblia declara a inversão em vez de a esconder: é tese teológica, não falsificação.

Comecemos concedendo o que Nietzsche acerta, porque ele acerta muito. Houve uma revolução de valores, e a Bíblia não a esconde: ela a proclama. O Magnificat anuncia que Deus derruba os poderosos do trono e exalta os humildes; as bem-aventuranças invertem abertamente a tabela de honra do mundo antigo. Nietzsche descreve isso como a transvaloração e a localiza no sacerdócio judaico, que ele acusa de um milagre de falsificação ao reescrever a derrota nacional como eleição divina. O dado é real e o diagnóstico é agudo. O ponto em disputa não é se a inversão ocorreu, mas se ela é falsificação encoberta ou tese teológica declarada.

E aqui a evidência trabalha contra a palavra falsificação. Falsificar é esconder a operação; o texto bíblico faz o contrário, ele a anuncia como sua chave de leitura. Deuteronômio 7:7 diz a Israel, sem rodeios, que não foi escolhido por ser numeroso ou forte, e sim porque era o menor dos povos. Paulo radicaliza em 1Coríntios 1:27, Deus escolheu o que é fraco para envergonhar o forte. Isso não é história adulterada para parecer vitória; é uma teologia que faz da fraqueza o eixo explícito da eleição. John Walton observa que a própria ideia de um deus que firma aliança com um povo inteiro, e não apenas com o rei vitorioso, é singular no Antigo Oriente, onde a teologia normal era a do vencedor. Israel inverte essa lógica às claras. Não é o crime perfeito de Nietzsche; é uma confissão estampada no centro do cânon.

Vale notar que a Bíblia já contém, por dentro, a denúncia que Nietzsche pensa fazer de fora. Isaías 5:20 lança maldição sobre os que chamam o mal de bem e o bem de mal. O texto não é ingênuo quanto à possibilidade de uma moral pervertida; ele a teme e a condena. A diferença é que profeta e filósofo discordam sobre qual inversão é a doente. E a transvaloração cristã não nega força nem beleza, como a caricatura sugere; ela redefine grandeza. O Cristo que expulsa cambistas e enfrenta o poder não é um fraco ressentido; a categoria proposta é a da força que serve em vez da força que domina. Pode-se rejeitar essa redefinição, mas é preciso enfrentá-la como redefinição deliberada, não confundi-la com impotência disfarçada de virtude.

O que fica honestamente em aberto é o juízo de valor, e nenhum dado de arqueologia o resolve. Nietzsche e o cristão olham para o mesmo evento, a entronização dos humildes contra a moral aristocrática, e o nomeiam de modo oposto: ele vê uma doença civilizacional; o cristão vê a quebra da tirania da força bruta. A premissa de Nietzsche, de que a vida saudável é vontade de potência e a compaixão pelo derrotado é decadência, é tão indemonstrável historicamente quanto a tese contrária. Sua acusação de falsificação se dissolve diante dos textos, que declaram a inversão em vez de a ocultar; mas seu desafio mais fundo permanece: ele força o cristão a admitir que sua fé é, sim, uma revolução de valores, e a defendê-la como verdadeira em vez de fingir que sempre foi o senso comum do mundo.