O rancor que vira virtude
Este é o golpe central do livro, e o que mais incomoda. Para Nietzsche, a moral cristã não nasceu do amor, mas do ressentimento: o rancor acumulado dos fracos, dos doentes e dos fracassados contra os fortes e bem constituídos. Incapazes de vencer na vida, eles teriam feito uma vingança imaginária, declarando que a fraqueza é mérito e a força é pecado.
Nietzsche chama isso de "moral de escravos", em oposição à "moral de senhores". O senhor chama de bom aquilo que ele é: forte, nobre, pleno de vida. O escravo, sem poder para isso, inverte tudo: chama de bom o que ele tem, a mansidão, a obediência, a humildade, e de mau aquilo que o oprime. A moral cristã, na conta dele, é a vitória histórica dessa inversão. Ele identifica a raiz disso em Paulo, que chama de o maior dos apóstolos da vingança.
15 "Acaso não tornou Deus em loucura a sabedoria deste mundo? Pois, já que o mundo, com a sua sabedoria, não conheceu a Deus em sua sabedoria, aprouve a Deus salvar pela pregação tida por louca os que nela creem. Não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres os que são chamados. Pelo contrário, Deus escolheu o que é loucura aos olhos do mundo para envergonhar os sábios; e Deus escolheu o que é fraco aos olhos do mundo para envergonhar o que é forte. E Deus escolheu o que é vil aos olhos do mundo e o desprezado, e o que não é nada, para reduzir a nada o que é algo, a fim de que nenhuma carne se glorie diante dele" (1Co 1:20ss) — Para entender esta passagem, testemunho de primeiríssima ordem para a psicologia de toda moral de Chandala, leia-se o primeiro tratado da minha Genealogia da Moral: ali foi posto pela primeira vez em evidência o contraste entre uma moral nobre e uma moral de Chandala nascida do ressentimento e da vingança impotente. Paulo foi o maior de todos os apóstolos da vingança…
A prova que ele tira da própria Bíblia
O argumento não é só psicológico. Nietzsche aponta para um texto que, segundo ele, expõe o mecanismo a céu aberto: a passagem em que Paulo diz que Deus escolheu o que é fraco e desprezível no mundo para envergonhar o que é forte. Para Nietzsche, isso é a moral do ressentimento confessada por escrito.
26 Porque, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados.
27 Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes;
28 E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são;
29 Para que nenhuma carne se glorie perante ele.
A resposta cristã precisa decidir se concorda com a leitura. As bem-aventuranças realmente exaltam os pobres, os mansos e os que choram, e pronunciam ais contra os ricos e os saciados. A questão é se isso é rancor disfarçado, como diz Nietzsche, ou outra coisa.
20 E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus.
21 Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir.
22 Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem e quando vos separarem, e vos injuriarem, e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem.
23 Folgai nesse dia, exultai; porque eis que é grande o vosso galardão no céu, pois assim faziam os seus pais aos profetas.
24 Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa consolação.
25 Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis.
26 Ai de vós quando todos os homens de vós disserem bem, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas.