O inventário
Reunindo todas as intervenções de Lutero sobre o valor dos livros bíblicos, o quadro fica assim. No Novo Testamento, quatro livros rebaixados e movidos ao fim. No Antigo Testamento, os deuterocanônicos retirados do corpo da Escritura e agrupados num apêndice. E um caso isolado e duro: Ester. A tabela abaixo resume o que Lutero de fato fez e disse.
| Livro | O que Lutero fez | Citação ou nota |
|---|---|---|
| Tiago | Movido ao fim do NT, sem número (1522) | "Epístola de palha"; "não tem nada da natureza do evangelho" |
| Hebreus | Movido ao fim do NT, sem número (1522) | Negava autoria apostólica; reservas sobre o segundo arrependimento |
| Judas | Movido ao fim do NT, sem número (1522) | Visto como dependente de 2 Pedro; cita Enoque, livro não canônico |
| Apocalipse | Movido ao fim do NT, sem número (1522) | "Nem apostólico nem profético" (1522); prefácio favorável em 1530 |
| Deuterocanônicos | Reunidos em apêndice "Apócrifos" (1534) | "Úteis e bons de ler, não iguais à Sagrada Escritura" |
| Ester | Mantido, mas criticado com aspereza | Disse desejar que "não existisse, pois judaíza demais" |
Os deuterocanônicos
Na sua Bíblia completa de 1534, Lutero separou sete livros do Antigo Testamento (mais acréscimos a outros dois) que estavam na tradição da Vulgata mas faltavam no cânon hebraico. São eles: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico (Sirácida), Baruque, 1 Macabeus e 2 Macabeus, além dos acréscimos gregos a Ester e a Daniel. Lutero não os queimou nem os apagou: agrupou-os entre o Antigo e o Novo Testamento, sob o cabeçalho "Apócrifos", com a nota de que são úteis e bons de ler, mas não no mesmo nível da Escritura.
A história desses sete livros, por que estão na Bíblia católica e fora da protestante, e o que cada um contém, é o assunto do tema sobre os livros deuterocanônicos (em /temas/livros-deuterocanonicos/). Aqui basta registrar o ato de Lutero: ele moveu, não destruiu, e a divisão que ele formalizou já tinha raízes na dúvida antiga sobre o cânon do Antigo Testamento.
O caso de Ester
Ester merece menção à parte porque a hostilidade de Lutero foi mais pessoal. Ester é um dos poucos livros do Antigo Testamento que não menciona o nome de Deus, e seu enredo gira em torno da identidade e da sobrevivência judaicas, com a festa de Purim no centro. Lutero, em comentários de mesa registrados pelos seus alunos, disse ser tão inimigo do livro de Ester e do segundo livro dos Macabeus que desejava que "não existissem, pois judaízam demais e têm muita impiedade pagã". Apesar disso, Ester nunca foi removido: permaneceu no cânon protestante, onde está até hoje.