A lista de Eusébio
Antes de Lutero, a igreja antiga já não tratava todos os 27 livros do Novo Testamento com a mesma certeza. O testemunho clássico disso está em Eusébio de Cesareia, que por volta de 325 d.C., na sua História Eclesiástica (livro 3, capítulo 25), organizou os escritos cristãos em categorias conforme o grau de aceitação que tinham nas igrejas.
Eusébio usou três rótulos gregos. Homologoumena ("reconhecidos por consenso"): os livros aceitos sem disputa, como os quatro Evangelhos, Atos e as cartas de Paulo. Antilegomena ("falados contra", isto é, contestados): livros que eram lidos como Escritura por muitos, mas cuja autoridade alguns questionavam. E notha ("espúrios" ou falsos): escritos que ele considerava fora do cânon.
| Categoria de Eusébio | Significado | Exemplos |
|---|---|---|
| Homologoumena | Reconhecidos por consenso | Evangelhos, Atos, cartas de Paulo, 1 João, 1 Pedro |
| Antilegomena | Disputados, mas amplamente lidos | Tiago, Judas, 2 Pedro, 2 João, 3 João |
| Notha | Espúrios, fora do cânon | Atos de Paulo, Pastor de Hermas, Apocalipse de Pedro |
Eusébio classificou entre os antilegomena, os disputados, justamente as epístolas conhecidas como católicas que tinham aceitação irregular: Tiago, Judas, 2 Pedro, 2 João e 3 João. Sobre o Apocalipse ele hesitou, listando-o ora entre os reconhecidos, ora entre os espúrios, conforme a opinião das igrejas.
A dúvida que Lutero herdou
O ponto factual é direto: a reserva de Lutero sobre Tiago, Judas, Hebreus e Apocalipse não foi uma invenção do século 16. Esses livros estavam entre os que a igreja antiga, por testemunho do próprio Eusébio, já tinha discutido. Quando Lutero pôs Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse num bloco à parte no fim do Novo Testamento, ele estava, em parte, repetindo uma hierarquia que a tradição lhe entregou pronta.
Isso não apaga as diferenças. A dúvida antiga era sobre autoria e autoridade (quem escreveu? a igreja toda aceita?); a de Lutero somava a isso um filtro teológico próprio (o livro prega o evangelho da justificação pela fé?). Mas a categoria de "livros contestados" é mais velha que a Reforma em mil e duzentos anos. Lutero herdou uma dúvida real, documentada, e não a fabricou.