Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.
O "allein" de Lutero nao foi falsificacao de manuscrito, foi interpretacao teologica embutida na traducao; e a propria tensao entre Romanos e Tiago, que ele tentou resolver, e prova de que o cânone e uma costura de vozes humanas que nem sempre concordam.
Vale a pena comecar separando duas acusacoes que costumam ser confundidas. Lutero nao mexeu no grego de Romanos. Ele nao corrompeu um manuscrito, nao apagou uma palavra do texto fonte, nem alterou aquilo que copistas e editores transmitiam. O que ele fez foi inserir, na traducao alema, uma palavra (allein, somente) que o texto grego de Paulo nao traz. Do ponto de vista da critica textual, isso e um problema de traducao, nao de transmissao do texto. A pagina acerta ao registrar como incontestavel que monon nao esta em Rm 3:28. Mas o ato de Lutero pertence ao mesmo genero de toda traducao confessional: ele leu Paulo a luz de uma doutrina e deixou essa leitura visivel no proprio verbo. O interessante e que ele admitiu fazer isso abertamente, na Carta sobre a Traducao de 1530, enquanto a maioria dos tradutores embute suas decisoes teologicas em silencio.
O detalhe que para mim e o mais revelador nao e o que Lutero fez, mas por que ele precisou fazer. O atrito que o allein expoe ja existia dentro do canone, antes de qualquer reformador. Paulo, em Rm 3:28, diz que o homem e justificado pela fe a parte das obras da lei. Tiago, em Tg 2:24, diz com todas as letras que o homem e justificado pelas obras, e nao somente pela fe. Sao dois autores, com vocabularios e situacoes pastorais distintas, usando as mesmas palavras-chave (fe, obras, justificacao) em direcoes que nao se encaixam sem esforco. A historia da exegese gastou seculos costurando essa juntura. O proprio Lutero, incomodado, chamou Tiago de epistola de palha e a relegou ao fim do seu Novo Testamento. Ou seja: o allein nao foi um capricho isolado, foi a tentativa de um leitor de impor coerencia a uma colecao que nao nasceu coerente.
Para a tese da inerrancia, e aqui que o caso aperta, e nao na palavrinha de Lutero. Se Romanos e Tiago fossem ditados pela mesma voz divina sem fissuras, nenhum tradutor jamais teria sentido a necessidade de acrescentar somente para fazer Paulo soar mais paulino, nem de remover Tiago para o rodape do canone. A tensao que justifica o allein e a mesma tensao que a doutrina da unica autoria divina precisa negar. Concedo de bom grado o que e honesto conceder: Lutero tinha um argumento idiomatico real, o alemao de fato pede a particula em construcoes de negacao e contraste, e leitores antes dele ja haviam puxado Paulo nessa direcao. A traducao dele e defensavel como traducao interpretativa. O que ela nao consegue esconder e que precisou escolher um lado num debate que o proprio Novo Testamento deixou em aberto. Um texto sem erros nao obriga seus tradutores a tomar partido entre dois de seus autores.
O "somente" não está no grego de Romanos 3:28, mas a leitura que ele torna explícita é mais antiga que Lutero e é defensável como tradução do sentido, não como adulteração do texto.
O dado central da página é correto e não há como contorná-lo: o advérbio grego para "somente" (monon) não aparece em Romanos 3:28. Paulo escreve que o homem é justificado pela fé "à parte das obras da lei" (choris ergon nomou), e Lutero, no alemão, transformou esse "à parte das obras" num "somente pela fé". Quem trata isso como prova de que Lutero reescreveu a Bíblia precisa reconhecer que ele não tocou no texto grego nem o suprimiu de circulação; ele tomou uma decisão de tradução para o vernáculo e a assumiu publicamente na Carta sobre a Tradução de 1530, o que é o oposto de uma falsificação clandestina. A pergunta honesta não é "a palavra está lá?" (não está), mas "a frase de Paulo, negando as obras como base e afirmando a fé, comunica exclusividade?". Toda tradução decide entre o palavra-por-palavra e o sentido, e "somente" é uma leitura do sentido, não uma interpolação no original.
O ponto que a própria página concede, e que muda o jogo, é que Lutero não inventou essa leitura. Não se trata de retórica protestante: foi Roberto Belarmino, cardeal jesuíta e o maior apologista católico da Contrarreforma, quem listou cerca de oito autores anteriores a Lutero que leram Romanos 3 com "sola fide". Entre eles está Ambrosiastro, comentador latino do século IV, que escreve "sola fide justificati" ao comentar Rm 3:24, e a expressão "in sola fide" ligada a Rm 3:28 reaparece em Tomás de Aquino. Ou seja, a equação "somente pela fé = leitura de Romanos" circulava na tradição latina católica mil anos antes da Reforma, sem que ninguém acusasse esses Padres e doutores de adulterar Paulo. Isso desarma a versão forte da acusação, a de que o "allein" seria uma doutrina nova enfiada no texto. O que Lutero fez de novo foi de ênfase e de polêmica, não de invenção lexical.
Onde a crítica acerta, e onde a defesa de Lutero fica de fato em aberto, é no atrito com Tiago 2:24. A página observa com razão que esse é o único lugar da Escritura onde "fé" e "somente" aparecem juntos, e é para negar a combinação: "não somente pela fé". Inserir "somente" em Romanos cria no alemão uma colisão verbal direta com Tiago que o grego não monta com a mesma nitidez, e Lutero sabia disso (daí a tensão dele com a própria epístola de Tiago). A saída clássica, que considero correta, é que Paulo e Tiago usam "justificar" e "obras" em sentidos diferentes: Paulo combate as obras da lei como meio de mérito antes de Deus, Tiago combate uma fé morta, sem frutos, diante dos homens (Tg 2:24 vem logo após o exemplo do demônio que crê e treme). Os dois não respondem à mesma pergunta. O que permanece genuinamente em disputa não é se Lutero falsificou o grego, ele não falsificou, mas se transformar uma negação ("sem as obras da lei") numa exclusividade ("somente pela fé") na ausência da palavra monon, e bem no ponto onde Tiago a contradiz, é tradução fiel do sentido ou uma escolha teológica que a letra de Paulo não obrigava. Essa é uma questão exegética legítima, e ela não se resolve gritando "adulteração".