Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.
O recuo de Lutero sobre o Apocalipse e a prova de que o canon foi montado por juizo humano revisavel, nao por inerrancia: se um homem pode rebaixar e depois reabilitar um livro, foi o homem, e nao um carimbo divino, que definiu a lista.
A pagina e honesta no que importa, e por isso vale comecar concedendo: Lutero nao adulterou texto nenhum. Ele moveu quatro livros para o fim do volume e os deixou sem numero no indice de 1522. Isso e arranjo editorial, nao falsificacao. Mas o detalhe que o leitor crente precisa encarar e justamente esse gesto graficamente frio: numerar de 1 a 23 e empurrar Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse para um bloco mudo abaixo de um espaco em branco. Um homem do seculo 16, sozinho com sua tradução, sentiu-se autorizado a ranquear o que a tradicao lhe entregara como Escritura indistinta. Se a fronteira do canon fosse autoevidente e selada por Deus, esse ranqueamento seria impossivel de cogitar. Ele foi possivel porque a fronteira sempre foi um juizo, e Lutero apenas tornou visivel um juizo que a igreja antiga ja vinha exercendo em surdina.
O recuo de 1530, que a polemica omite e que a pagina corretamente recupera, e o achado mais interessante, e ele corta para os dois lados. Para o apologeta, prova boa-fe: Lutero revisou uma opiniao apressada, logo nao havia conspiracao. Aceito. Mas reparem no que a revisao implica sobre a natureza do julgamento. O mesmo Apocalipse que em 1522 lhe parecia 'nem apostolico nem profetico', onde Cristo 'nao e ensinado nem reconhecido', virou em 1530 profecia util, retrato historico dos perigos da Igreja, consolo digno de comentario. O texto nao mudou uma silaba entre as duas datas. O que mudou foi Lutero. Quando o valor canonico de um livro oscila conforme o estado de espirito e a hermeneutica de quem o le, o que se mede ali e a recepcao humana, nao uma propriedade intrinseca e divina do escrito. A ironia e que o proprio Apocalipse adverte em Ap 22:18-19 contra acrescentar ou tirar, e foi exatamente a propria posicao no canon, o seu peso, que ficou em disputa, algo que o versiculo nao consegue blindar porque a advertencia so vale depois que ja se decidiu, por fora, que aquele livro conta.
O ponto de fundo e que os criterios de Lutero eram dois, e ambos sao humanos ate o osso. Um era teologico: Tiago ensina justificacao pelas obras em Tg 2:24 e colide com o sola fide, entao virou 'epistola de palha'. Isso e medir a Escritura por uma doutrina escolhida de antemao, o oposto de extrair a doutrina de uma Escritura recebida pronta. O outro criterio era de autoria e dependencia literaria, e aqui Lutero estava sendo, sem o nome, um critico textual antes da hora: notou que Judas cita Enoque, um livro fora do canon (o 'Enoque profetizou' de Jd 1:14 vem direto de 1 Enoque), e que Judas e 2 Pedro se sobrepoem a ponto de um parecer copia do outro. Sao observacoes literarias corretas, nao birra. Entao a pergunta de atrito se responde sem espantalho: nao houve adulteracao, houve juizo honesto e depois revisado. Mas e precisamente um juizo honesto e revisavel que desmonta a tese da inerrancia da lista. Um homem que pode rebaixar Tiago por discordar dele, e reabilitar o Apocalipse por mudar de ideia, esta demonstrando que foi sempre o discernimento humano, falivel e datavel, que desenhou as bordas do canon. O milagre alegado nao e o conteudo dos livros; e a fronteira em volta deles, e essa fronteira tem digitais humanas por todo lado.
O recuo de Lutero sobre o Apocalipse e a moldura herdada de Eusebio mostram juizo critico revisado, nao adulteracao: ele rebaixou pela diagramacao, nunca tocou no texto, e voltou atras.
Comeco concedendo o que a pagina deixa claro e e honesto reconhecer: Lutero foi duro de verdade. Chamar Tiago de "epistola de palha", dizer que no Apocalipse Cristo "nem e ensinado nem reconhecido", movel quatro livros para um bloco sem numero no fim da fila, nada disso e invencao de polemista catolico do seculo 16. Esta documentado nos prefacios de 1522, e quem defende a inspiracao da Escritura nao ganha nada fingindo que Lutero foi delicado. O ponto que muda tudo, e que a propria pagina registra com precisao, e a natureza da intervencao: foi de arranjo e de avaliacao escrita, nao de texto. Lutero manteve os 27 livros. Ele nao apagou uma palavra de Hebreus, nao reescreveu Tiago para favorecer o sola fide, nao cortou os versiculos de Ap 22:18-19 que advertem contra acrescentar ou tirar. Adulteracao e mexer no que o texto diz; o que Lutero fez foi declarar, em voz alta e por escrito, o quanto ele desconfiava de cada livro. Sao dois atos categoricamente diferentes, e confundi-los e o erro que a tese da "adulteracao" comete.
O dado que decide a pergunta de atrito e o recuo de 1530, e ele aponta contra a hipotese da ma-fe. Quem adultera a Escritura para servir a propria teologia nao escreve, oito anos depois, um prefacio inteiramente novo desfazendo o anterior e tratando o Apocalipse como profecia util e consolo para a Igreja. Esse movimento e o oposto do dogmatismo: e um homem que emitiu um juizo critico severo, releu, e o corrigiu publicamente. E aqui vale ser justo com o criterio do proprio Lutero, porque ele nao era arbitrario do jeito que a caricatura sugere. As reservas sobre Hebreus, Judas e Apocalipse nao saiam da cabeca dele; eram, em parte, a duvida antiga sobre autoria e canonicidade que Eusebio ja catalogara por volta de 325 na Historia Eclesiastica 3.25, classificando Tiago, Judas e companhia como antilegomena, os "falados contra". Lutero herdou uma hierarquia real, nao a fabricou. Quando Judas cita Enoque (Jd 1:14), a desconfiana de Lutero ecoa uma discussao patristica genuina, nao um capricho.
Onde eu discordo da leitura cetica que quer transformar isso em prova de que "a Biblia foi mudada": confundir o juizo privado de um tradutor com a recepcao da Igreja e um erro de escala. O criterio teologico proprio de Lutero, perguntar se o livro "prega Cristo", de fato vai alem da duvida antiga de Eusebio, que era sobre autoria, e nisso ha um filtro subjetivo que se pode criticar com razao. So que esse filtro nao venceu. As Biblias luteranas seguem com Tiago, Hebreus, Judas e Apocalipse no Novo Testamento ate hoje, exatamente porque a canonicidade nunca dependeu da preferencia de um homem, e sim de um reconhecimento eclesial que precede e sobrevive a ele. Fica em aberto, e seria desonesto esconder, que Lutero submeteu o cânon a um teste de conteudo doutrinario, e essa e uma tensao teologica legitima sobre o que fundamenta a autoridade de um livro. Mas a evidencia que a pagina reune leva a uma conclusao sobria: o que se ve aqui e juizo honesto, severo e depois revisado, nao um texto sagrado adulterado para caber numa tese.