Os Livros Que Lutero Quase Tirou (e Por Que Recuou)

Quatro livros no fim da fila

A intervenção mais concreta de Lutero no Novo Testamento foi de arranjo, não de exclusão. Na sua tradução de 1522, ele manteve os 27 livros, mas reorganizou a ordem de quatro deles. Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse foram deslocados para o fim do volume, depois de todos os outros, e separados do restante.

O detalhe revelador está no índice (a tabela de conteúdos) daquela edição. Lutero numerou os livros do Novo Testamento de 1 a 23. Os quatro últimos, Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse, ficaram listados abaixo, sem número, num bloco à parte, depois de um espaço em branco. Era um modo gráfico de dizer: estes pertencem ao Novo Testamento, mas não no mesmo patamar dos demais. Uma classificação de segunda categoria expressa pela diagramação.

LivroPosição em 1522Razão da reserva de Lutero
HebreusMovido ao fim, sem númeroAutoria não apostólica; trecho lido como negando 2º arrependimento
TiagoMovido ao fim, sem númeroEnsina justificação pelas obras (Tg 2:24), contra o sola fide
JudasMovido ao fim, sem númeroCópia de 2 Pedro; cita escritos não canônicos (Enoque)
ApocalipseMovido ao fim, sem número"Nem apostólico nem profético"; Cristo "nem ensinado nem reconhecido"

Os motivos eram de dois tipos. Para Tiago, era teológico (o choque com a justificação pela fé). Para Hebreus, Judas e Apocalipse, somava-se uma dúvida sobre autoria e autoridade que Lutero herdou da própria igreja antiga: eram livros cuja entrada no cânon tinha sido disputada por séculos.

O caso do Apocalipse e o recuo

O Apocalipse foi o caso mais cru. No prefácio de 1522, Lutero foi duro: disse que sentia o livro como "nem apostólico nem profético", reclamou que ele se ocupa de visões e imagens sem ensinar com clareza, e chegou a escrever que nele Cristo "não é ensinado nem reconhecido". Confessou, com franqueza, que seu espírito não se acomodava àquele livro.

18 Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro;

19 E, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro.

Aqui está o arco que a polêmica costuma omitir. Em 1530, Lutero escreveu um prefácio inteiramente novo para o Apocalipse, substituindo o de 1522. Nesse novo texto ele recuou: passou a tratar o livro como profecia útil, propôs uma leitura histórica das suas visões como retrato dos perigos enfrentados pela Igreja ao longo dos séculos, e o valorizou como consolo para os cristãos. O Apocalipse que ele quase desprezara virou, oito anos depois, profecia digna de comentário.

O padrão geral é esse: Lutero rebaixou (1522) e depois moderou (1530 em diante). Nenhum dos quatro livros foi removido. Eles continuam no Novo Testamento das Bíblias luteranas. O que mudou foi a moldura de valor com que Lutero os apresentou, e mesmo essa moldura ele suavizou com o tempo.

Perspectivas sobre este tema

Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.

Crítico Histórico

O recuo de Lutero sobre o Apocalipse e a prova de que o canon foi montado por juizo humano revisavel, nao por inerrancia: se um homem pode rebaixar e depois reabilitar um livro, foi o homem, e nao um carimbo divino, que definiu a lista.

A pagina e honesta no que importa, e por isso vale comecar concedendo: Lutero nao adulterou texto nenhum. Ele moveu quatro livros para o fim do volume e os deixou sem numero no indice de 1522. Isso e arranjo editorial, nao falsificacao. Mas o detalhe que o leitor crente precisa encarar e justamente esse gesto graficamente frio: numerar de 1 a 23 e empurrar Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse para um bloco mudo abaixo de um espaco em branco. Um homem do seculo 16, sozinho com sua tradução, sentiu-se autorizado a ranquear o que a tradicao lhe entregara como Escritura indistinta. Se a fronteira do canon fosse autoevidente e selada por Deus, esse ranqueamento seria impossivel de cogitar. Ele foi possivel porque a fronteira sempre foi um juizo, e Lutero apenas tornou visivel um juizo que a igreja antiga ja vinha exercendo em surdina.

O recuo de 1530, que a polemica omite e que a pagina corretamente recupera, e o achado mais interessante, e ele corta para os dois lados. Para o apologeta, prova boa-fe: Lutero revisou uma opiniao apressada, logo nao havia conspiracao. Aceito. Mas reparem no que a revisao implica sobre a natureza do julgamento. O mesmo Apocalipse que em 1522 lhe parecia 'nem apostolico nem profetico', onde Cristo 'nao e ensinado nem reconhecido', virou em 1530 profecia util, retrato historico dos perigos da Igreja, consolo digno de comentario. O texto nao mudou uma silaba entre as duas datas. O que mudou foi Lutero. Quando o valor canonico de um livro oscila conforme o estado de espirito e a hermeneutica de quem o le, o que se mede ali e a recepcao humana, nao uma propriedade intrinseca e divina do escrito. A ironia e que o proprio Apocalipse adverte em Ap 22:18-19 contra acrescentar ou tirar, e foi exatamente a propria posicao no canon, o seu peso, que ficou em disputa, algo que o versiculo nao consegue blindar porque a advertencia so vale depois que ja se decidiu, por fora, que aquele livro conta.

O ponto de fundo e que os criterios de Lutero eram dois, e ambos sao humanos ate o osso. Um era teologico: Tiago ensina justificacao pelas obras em Tg 2:24 e colide com o sola fide, entao virou 'epistola de palha'. Isso e medir a Escritura por uma doutrina escolhida de antemao, o oposto de extrair a doutrina de uma Escritura recebida pronta. O outro criterio era de autoria e dependencia literaria, e aqui Lutero estava sendo, sem o nome, um critico textual antes da hora: notou que Judas cita Enoque, um livro fora do canon (o 'Enoque profetizou' de Jd 1:14 vem direto de 1 Enoque), e que Judas e 2 Pedro se sobrepoem a ponto de um parecer copia do outro. Sao observacoes literarias corretas, nao birra. Entao a pergunta de atrito se responde sem espantalho: nao houve adulteracao, houve juizo honesto e depois revisado. Mas e precisamente um juizo honesto e revisavel que desmonta a tese da inerrancia da lista. Um homem que pode rebaixar Tiago por discordar dele, e reabilitar o Apocalipse por mudar de ideia, esta demonstrando que foi sempre o discernimento humano, falivel e datavel, que desenhou as bordas do canon. O milagre alegado nao e o conteudo dos livros; e a fronteira em volta deles, e essa fronteira tem digitais humanas por todo lado.

Apologista Evidencial

O recuo de Lutero sobre o Apocalipse e a moldura herdada de Eusebio mostram juizo critico revisado, nao adulteracao: ele rebaixou pela diagramacao, nunca tocou no texto, e voltou atras.

Comeco concedendo o que a pagina deixa claro e e honesto reconhecer: Lutero foi duro de verdade. Chamar Tiago de "epistola de palha", dizer que no Apocalipse Cristo "nem e ensinado nem reconhecido", movel quatro livros para um bloco sem numero no fim da fila, nada disso e invencao de polemista catolico do seculo 16. Esta documentado nos prefacios de 1522, e quem defende a inspiracao da Escritura nao ganha nada fingindo que Lutero foi delicado. O ponto que muda tudo, e que a propria pagina registra com precisao, e a natureza da intervencao: foi de arranjo e de avaliacao escrita, nao de texto. Lutero manteve os 27 livros. Ele nao apagou uma palavra de Hebreus, nao reescreveu Tiago para favorecer o sola fide, nao cortou os versiculos de Ap 22:18-19 que advertem contra acrescentar ou tirar. Adulteracao e mexer no que o texto diz; o que Lutero fez foi declarar, em voz alta e por escrito, o quanto ele desconfiava de cada livro. Sao dois atos categoricamente diferentes, e confundi-los e o erro que a tese da "adulteracao" comete.

O dado que decide a pergunta de atrito e o recuo de 1530, e ele aponta contra a hipotese da ma-fe. Quem adultera a Escritura para servir a propria teologia nao escreve, oito anos depois, um prefacio inteiramente novo desfazendo o anterior e tratando o Apocalipse como profecia util e consolo para a Igreja. Esse movimento e o oposto do dogmatismo: e um homem que emitiu um juizo critico severo, releu, e o corrigiu publicamente. E aqui vale ser justo com o criterio do proprio Lutero, porque ele nao era arbitrario do jeito que a caricatura sugere. As reservas sobre Hebreus, Judas e Apocalipse nao saiam da cabeca dele; eram, em parte, a duvida antiga sobre autoria e canonicidade que Eusebio ja catalogara por volta de 325 na Historia Eclesiastica 3.25, classificando Tiago, Judas e companhia como antilegomena, os "falados contra". Lutero herdou uma hierarquia real, nao a fabricou. Quando Judas cita Enoque (Jd 1:14), a desconfiana de Lutero ecoa uma discussao patristica genuina, nao um capricho.

Onde eu discordo da leitura cetica que quer transformar isso em prova de que "a Biblia foi mudada": confundir o juizo privado de um tradutor com a recepcao da Igreja e um erro de escala. O criterio teologico proprio de Lutero, perguntar se o livro "prega Cristo", de fato vai alem da duvida antiga de Eusebio, que era sobre autoria, e nisso ha um filtro subjetivo que se pode criticar com razao. So que esse filtro nao venceu. As Biblias luteranas seguem com Tiago, Hebreus, Judas e Apocalipse no Novo Testamento ate hoje, exatamente porque a canonicidade nunca dependeu da preferencia de um homem, e sim de um reconhecimento eclesial que precede e sobrevive a ele. Fica em aberto, e seria desonesto esconder, que Lutero submeteu o cânon a um teste de conteudo doutrinario, e essa e uma tensao teologica legitima sobre o que fundamenta a autoridade de um livro. Mas a evidencia que a pagina reune leva a uma conclusao sobria: o que se ve aqui e juizo honesto, severo e depois revisado, nao um texto sagrado adulterado para caber numa tese.