No Prefácio ao Novo Testamento da sua tradução alemã de 1522, Martinho Lutero classificou os livros do Novo Testamento por valor. No fim do prefácio, ele escreveu que a Epístola de Tiago é, comparada com os livros que considerava centrais, uma "epístola de palha" (em alemão, eine stroherne Epistel), "pois não tem nada da natureza do evangelho".
A imagem de "palha" não é insulto gratuito: ela vem direto de Paulo. Em 1 Coríntios 3:12, Paulo lista materiais com que se pode construir sobre o fundamento que é Cristo, do mais nobre ao mais frágil: ouro, prata, pedras preciosas, e depois madeira, feno, palha. No verso seguinte, o fogo do juízo prova a obra de cada um, e o que é palha queima sem deixar nada que dure. Lutero usa essa escala: havia para ele "epístolas de ouro" (o Evangelho de João, Romanos, Gálatas) e, contrastando com elas, uma epístola de palha.
O critério de Lutero era teológico. Para ele, o que faz um livro ter "a natureza do evangelho" é pregar Cristo e a justificação somente pela fé (sola fide). E é aqui que Tiago o incomodava. Tiago 2:24 afirma, com todas as letras, que o homem é justificado pelas obras, e "não somente pela fé", o oposto literal da bandeira de Lutero. Romanos 3:28, no centro da teologia luterana, diz que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei. Lutero leu as duas frases como uma colisão.
Lutero também observava que Tiago quase não fala da morte e ressurreição de Cristo, que para ele eram o coração da pregação apostólica. Por isso o rebaixou: não como herege a ser queimado, mas como livro de segunda categoria que ensina o bem sem anunciar o evangelho do jeito que Paulo anuncia.
O recuo
Duas coisas costumam ser esquecidas por quem repete a polêmica. Primeiro: Lutero nunca removeu Tiago da Bíblia. A epístola permaneceu impressa em todas as edições da sua tradução, e está nas Bíblias luteranas até hoje. Segundo: a expressão "de palha" aparece no prefácio de 1522, mas Lutero a retirou das edições posteriores do prefácio. O texto de Tiago ficou; o adjetivo polêmico saiu. Sobrou uma opinião sobre o valor relativo do livro, não um ato de mutilação do cânon.
O debate
Perspectivas sobre este tema
Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.
Crítico HistóricoLutero não inventou a dúvida sobre Tiago, ele herdou uma disputa antiga e a julgou por um critério teológico assumido, o que expõe que o cânon do Novo Testamento foi resultado de debate humano, não de uma lista entregue pronta do céu.
O que a página descreve com honestidade é um evento que constrange a ideia de um cânon fechado por revelação. Lutero olhou para Tiago, comparou Tg 2:24 ('o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé') com Rm 3:28 ('justificado pela fé sem as obras da lei') e leu ali uma colisão real. E é uma colisão real, ao menos na superfície do texto grego: Tiago usa as mesmas palavras de Paulo (pistis, erga, dikaioo) e chega à conclusão oposta. A harmonização posterior, dizer que Paulo fala da entrada na justificação e Tiago da prova dela, é exegese legítima, mas é exegese, ou seja, é trabalho humano para resolver uma tensão que está no texto. Lutero não fabricou o atrito, ele apenas se recusou a costurá-lo.
O ponto que a polêmica popular esconde, e que a própria página corrige, é que a reserva contra Tiago não nasceu com Lutero. Eusébio de Cesareia, no início do século IV, já classificava Tiago entre os antilegomena, os livros 'falados contra', e observava que 'poucos dos antigos o mencionaram'. Tertuliano e Cipriano não o citam, o Cânon Muratoriano não o lista. Em outras palavras, por mais de duzentos anos Tiago circulou com selo de qualidade discutido. Quando Lutero o move para o fim da fila em 1522 e o chama de 'epístola de palha', ele não está rasgando uma lista lacrada por Deus, está reabrindo um processo editorial que a igreja antiga conduziu por votos, costumes regionais e juízos de autoridade. A imagem de 1 Coríntios 3:12, ouro contra feno e palha, é o vocabulário que ele escolhe para dizer o que homens já vinham dizendo.
Aqui eu concedo o que é justo conceder, e discordo onde há base. A acusação de que Lutero 'mudou a Bíblia' ou 'tirou Tiago' é falsa, e a página acerta ao desmontá-la: a epístola permaneceu impressa em todas as edições, o adjetivo polêmico é que saiu dos prefácios seguintes. O que sobra não é mutilação, é uma opinião sobre valor relativo. Mas é exatamente esse 'sobra' que pesa contra a tese da inerrância e da autoria divina única. Se um livro pode ser ouro ou palha conforme bate com a doutrina de quem lê, então o critério que define o cânon é teológico, e portanto humano e contestável, e não uma propriedade carimbada no texto pelo céu. Lutero julgou Tiago pela régua do sola fide, os antigos julgaram pela autoria apostólica duvidosa, Trento respondeu fixando o cânon por decreto conciliar em 1546. Três réguas diferentes, três comitês de homens. A pergunta 'crítica legítima ou manipulação ao gosto teológico?' tem uma resposta desconfortável para os dois lados: foi crítica legítima e foi gosto teológico, porque o cânon sempre foi as duas coisas ao mesmo tempo.
Apologista EvidencialTiago e Paulo nao se contradizem: usam "justificar" e "obras" em sentidos diferentes, e Lutero, sob pressao de Roma, leu como colisao o que a exegese reconciliou, mas o cânon corrigiu o juizo dele, nao confirmou.
Convem reconhecer o que a pagina ja estabelece e e honesto: Lutero leu Tiago 2:24 ("o homem e justificado pelas obras, e nao somente pela fe") como colisao frontal com Romanos 3:28 ("justificado pela fe sem as obras da lei"), e o criterio dele para rebaixar um livro era teologico, nao de manuscrito. Isso e desconfortavel e nao adianta esconder. Mas o ponto que dissolve a polemica nao e a fe de Lutero, e a exegese: Paulo e Tiago nao usam "justificar" e "obras" no mesmo sentido. Paulo combate "obras da lei" (circuncisao, ritual, marcas de pertencimento judaico) como base do veredito inicial diante de Deus; Tiago fala de "obras" como evidencia viva de uma fe que ja existe, e seu alvo e a fe morta que "tambem os demonios creem, e estremecem" (Tg 2:19). Os dois citam Abraao (Gn 15:6) e ambos terminam onde Paulo termina: a fe que justifica nao permanece sozinha.
A imagem da "palha" tem mesmo origem paulina em 1 Coríntios 3:12, como a pagina mostra, e isso joga a favor de uma leitura mais sobria de Lutero: ele estava ranqueando por densidade cristologica, nao decretando heresia. Aqui ele tem um pedaco de razao que vale conceder. E verdade que Tiago quase nao desenvolve a morte e a ressurreicao de Cristo, e a igreja antiga ja hesitava sobre a carta (Eusebio a coloca entre os antilegomena, os "falados contra", em Historia Eclesiastica 3.25). Lutero nao inventou a duvida sobre Tiago, ele a herdou. O problema nao e que ele tinha uma hierarquia de valor entre livros, quase todo leitor tem, e sim que ele a ancorou no grau em que cada livro confirmava o sola fide, que era justamente a tese em disputa. Isso e raciocinio circular: usar a propria conclusao teologica como regua para medir a testemunha que poderia contradize-la.
Mas a acusacao de "manipulacao do cânon ao gosto teologico" prova menos do que parece, e a propria pagina entrega o motivo: Lutero nunca removeu Tiago, a carta ficou em todas as edicoes da traducao alema e esta nas Biblias luteranas ate hoje, e o adjetivo "de palha" saiu dos prefacios posteriores. Quem manipula o cânon edita o texto; Lutero editou a propria opiniao. O que sobrou foi um juizo de valor expresso em diagramacao (Tiago, Hebreus, Judas e Apocalipse jogados para o fim, sem numero), nao uma mutilacao. Fica honestamente em aberto que o impulso inicial de Lutero foi guiado pela teologia antes da evidencia, e isso e uma falha de metodo que nao se deve maquiar. O que nao fica em aberto e o desfecho: a carta sobreviveu intacta, o adjetivo recuou, e a tradicao tratou Tg 2:24 nao como erro a ser cortado mas como complemento de Paulo a ser entendido. O cânon, no fim, corrigiu Lutero em vez de obedece-lo.
Fontes: Does Paul and James Disagree on Justification by Faith Alone? (The Gospel Coalition), Does James Contradict Paul? (Desiring God)