Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.
Trento nem inventou nem apenas confirmou: fechou dogmaticamente, sob anatema, uma questao que a propria Igreja deixara em aberto por quinze seculos, e o fez sob pressao da Reforma.
A pagina acerta ao recusar a dicotomia limpa, e e justo comecar concedendo o que a evidencia concede. Hipona (393) e Cartago (397) de fato listaram esses livros, e a Septuaginta os fazia circular sem fronteira nitida com os demais. Nada disso e invencao de Trento. Mas concilios regionais do norte da Africa, na esteira de Agostinho, nao sao a tradicao monolitica e ininterrupta que a leitura apologetica sugere. No mesmo periodo, Jeronimo, o homem encarregado de traduzir a Biblia que o Ocidente leria por mil anos, a Vulgata, separava explicitamente esses livros como bons para edificacao mas nao para firmar doutrina, e usava para eles o rotulo que depois viraria 'apocrifos'. Quando o proprio tradutor oficial e o teologo de Hipona discordam sobre o status dos livros, o que existe na Antiguidade nao e um cânon fechado: e um debate em aberto que durou seculos.
Esse e o ponto que o termo tecnico esconde. 'Deuterocanonico', como a propria pagina nota, foi popularizado por Sisto de Sena depois de Trento, ou seja, e uma categoria criada para nomear, retroativamente, livros cujo status sempre foi de segunda ordem, lido e venerado mas tratado de modo distinto. Que a Igreja precise cunhar uma palavra no seculo XVI para descrever uma realidade que ja existia entrega o jogo: a indistincao plena nunca foi pacifica. Carlos teve duvidas, Gregorio Magno citou Macabeus dizendo que o livro nao era canonico embora edificante, e ate um cardeal contemporaneo de Lutero, Caetano, o adversario que interrogou o proprio reformador, defendia o cânon hebraico curto para o Antigo Testamento. A novidade de Trento nao foi a lista. Foi o anatema. Foi transformar em heresia formal uma posicao que tinha sido sustentada, dentro da Igreja, por figuras de peso ate vespera do concilio.
E aqui a cronologia e o conteudo do decreto pesam mais que qualquer apelo a antiguidade. Trento se reune em 1546, vinte e nove anos depois de Lutero e em plena guerra doutrinaria, e nao por acaso o livro mais sensivel e 2 Macabeus, que em 2Mc 12:43-46 oferece oracao e sacrificio pelos mortos, a base textual do purgatorio que a Reforma atacava de frente. Definir o cânon era, naquele momento, blindar uma doutrina contestada. Isso nao prova que os livros sejam falsos, e seria desonesto sugerir que prova. Mas tem consequencia direta para a tese da inerrancia e da entrega divina do cânon. Se a lista dos livros inspirados precisou ser fixada sob anatema, em meio a uma disputa de poder, quinze seculos apos o ultimo deles ter sido escrito, entao o cânon nao desceu pronto do ceu: foi decidido por homens, em concilio, dentro da historia, com adversarios concretos do outro lado da mesa. A propria necessidade de Trento e a confissao de que a questao estava, ate 1546, genuinamente aberta.
Trento nao inventou o canon deuterocanonico, ele fechou dogmaticamente uma lista que Hipona, Cartago e os manuscritos da Septuaginta ja sustentavam por mais de mil anos.
O artigo acerta no que e factual e o cetico tem razao em parte do timing: a definicao mais solene veio em 1546, sob pressao da Reforma, e o anatema anexado ao decreto e historicamente real. Tambem e honesto reconhecer que 2 Macabeus estava no centro da disputa, porque o texto sobre oracao e sacrificio pelos mortos (2Mc 12:43-46) servia de apoio a doutrina do purgatorio que Lutero atacava. Negar que houve um componente reativo e polemico em Trento seria reescrever a historia. Mas reconhecer o contexto reativo nao decide a pergunta de fundo, porque uma definicao pode ser ao mesmo tempo reativa no momento e fiel a uma tradicao anterior. Um concilio fecha uma questao justamente quando ela passa a ser contestada, e isso vale para a Trindade em Niceia tanto quanto para o canon em Trento.
O ponto que o proprio artigo levanta e o que sustenta a leitura de confirmacao, nao de criacao. Hipona (393) e Cartago (397), na esteira de Agostinho, ja listavam esses mesmos sete livros como canonicos, mais de onze seculos antes de 1546. E a evidencia material reforca isso para alem das listas conciliares: os grandes codices da Septuaginta usados pela Igreja antiga, Sinaiticus e Alexandrinus do seculo IV e V, trazem Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiastico e Macabeus entremeados com os demais livros, sem etiqueta de segunda classe. Se os cristaos copiavam, liam e citavam esses textos no mesmo volume das Escrituras por seculos, a posicao de Trento nao surge do nada em 1546, ela cristaliza uma pratica litturgica e manuscrita ja estabelecida.
Onde eu nao acompanho a apologetica triunfalista e na pretensao de que nunca houve duvida. Houve, e ela tinha peso. Jeronimo, o tradutor da Vulgata que a propria Igreja latina adotou, distinguia expressamente os libri canonici dos libri ecclesiastici, dizendo que a Igreja le Judite, Tobias e Macabeus mas nao os recebe entre os livros canonicos. Essa tensao interna e a razao de o termo deuterocanonico, de segundo canon, existir: havia uma camada de livros cuja autoridade era reconhecida na pratica mas debatida na teoria. Trento resolveu essa ambiguidade num sentido, e os reformadores no outro, cada lado ancorado num canon de referencia diferente (a Septuaginta grega contra o canon hebraico que Jeronimo privilegiava). O que fica genuinamente em aberto nao e se Trento inventou a lista, isso a evidencia dos concilios antigos e dos codices ja refuta, mas qual dos dois canons antigos, o grego da Igreja primitiva ou o hebraico mais curto, tem a melhor reivindicacao de originalidade. Essa e uma questao historica real, e ela nao se resolve pelo anatema de 1546 nem pela ruptura de 1517.