Os Protestantes Removeram 7 Livros?

Removeram ou adicionaram?

A pergunta "quem mexeu na Bíblia" não tem resposta neutra, porque depende de qual cânon você toma como ponto de partida. Quem parte da Bíblia católica medieval vê os protestantes removendo sete livros. Quem parte do cânon hebraico vê os católicos mantendo livros que os judeus nunca incluíram. As duas descrições falam do mesmo fato a partir de réguas diferentes.

Os dois cânones de referência

A raiz da divergência é que existiam, na Antiguidade, duas coleções. O cânon hebraico, fixado pelo judaísmo rabínico, tem 24 livros (os 39 do Antigo Testamento protestante, contados de outro modo) e não inclui os deuterocanônicos. A Septuaginta, a tradução grega usada pelos judeus de língua grega e depois pelos cristãos, circulava com os deuterocanônicos junto dos demais, sem uma fronteira nítida entre eles.

Por séculos se atribuiu a fixação do cânon hebraico a um suposto "concílio de Jâmnia", por volta do ano 90. Hoje os historiadores são cautelosos: não há prova de um sínodo formal que tenha votado o cânon ali. O mais provável é que o cânon hebraico já estivesse, na prática, definido antes, e que os deuterocanônicos nunca tenham feito parte dele para o judaísmo da Palestina.

O gesto de Lutero

Os reformadores adotaram o cânon hebraico como critério para o Antigo Testamento. Lutero, em sua tradução alemã de 1534, não jogou fora os deuterocanônicos: agrupou-os entre os Testamentos numa seção própria, com o título Apocrypha, e a nota de que são "livros úteis e bons de ler, mas não iguais às Sagradas Escrituras". Por séculos as Bíblias protestantes, inclusive a King James de 1611, ainda imprimiram essa seção; foi só depois que ela desapareceu da maioria das edições.

Vale notar que esse não foi um movimento isolado de Lutero. A relação dele com o cânon (e seu desconforto com livros como Tiago e Apocalipse) é assunto de um tema próprio. Por ora basta o essencial: ele moveu os sete livros para um apêndice, não os destruiu, e o critério que usou foi o cânon hebraico, não um capricho pessoal.

ColeçãoInclui os 7 livros?Quem usava
Cânon hebraicoNãoJudaísmo rabínico
Septuaginta (grega)Sim, sem fronteira nítidaJudeus helenistas, primeiros cristãos
Bíblia católica (Trento)Sim, como Escritura plenaCatolicismo
Bíblia protestanteNão, ou em apêndice ApocryphaProtestantismo

Perspectivas sobre este tema

Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.

Crítico Histórico

A pergunta "removeram ou acrescentaram" e mal formulada: nao houve um canon original unico para violar, havia duas colecoes concorrentes, e cada lado escolheu a sua.

A pagina acerta no ponto que mais incomoda os dois lados: nao existe uma regua neutra. A imagem de uma Biblia pristina que alguem depois mutilou pressupoe um canon fechado e universal no primeiro seculo, e isso simplesmente nao e o que a evidencia mostra. O que temos sao duas tradicoes paralelas, o canon hebraico mais enxuto e a Septuaginta grega com fronteiras borradas, convivendo por seculos sem que ninguem tivesse autoridade para decretar qual era a oficial. Quando o artigo diz que Lutero moveu sete livros para um apendice chamado Apocrypha em 1534, e que a propria King James de 1611 ainda os imprimia ate sumirem na maioria das edicoes por volta de 1885, ele esta descrevendo um fato historico bem documentado, e nao um roubo. Reformadores e o Concilio de Trento estavam, cada um, oficializando uma escolha que ja existia na pratica, nao inventando uma do nada.

Onde eu puxaria o freio e na suposicao implicita de que adotar o canon hebraico foi a leitura mais antiga ou mais fiel. Aqui a evidencia textual complica a vida de quem defende o lado protestante por antiguidade. Os autores do Novo Testamento citam o Antigo quase sempre pela Septuaginta, nao pelo hebraico, em centenas de passagens, inclusive quando o grego diverge do texto hebraico que conhecemos. E ha ecos diretos dos deuterocanonicos no proprio Novo Testamento: a esperanca na ressurreicao de quem morre fiel, articulada em 2Mc 7:9, ressoa em Hebreus 11:35 ao falar de uma ressurreicao melhor, e a galeria de zombarias de Mt 27 segue de perto Sabedoria 2. Ou seja, os primeiros cristaos liam e usavam a colecao grega, com os sete livros dentro. Isso nao prova que os deuterocanonicos sejam inspirados, mas torna desonesto pintar a coletanea mais curta como o estado original que os catolicos teriam inflado depois.

A consequencia para a tese de inerrancia e desconfortavel para todos. Note que o famoso concilio de Jamnia, por volta do ano 90, e tratado pelo artigo com a cautela correta: nao ha prova de um sinodo que tenha votado o canon ali, e os historiadores hoje abandonaram essa narrativa. Mas isso mesmo destroi a fantasia de uma entrega divina limpa e datavel das fronteiras da Escritura. A lista dos livros sagrados foi se assentando aos poucos, por comunidades diferentes, em linguas diferentes, com criterios que mudaram conforme o seculo e o idioma de quem rezava. Quem afirma que Deus ditou nao so o conteudo mas tambem o indice precisa explicar por que esse indice depende de qual comunidade voce consulta. A resposta honesta a pergunta do titulo nao e nem removeram nem acrescentaram: e que dois grupos herdaram colecoes distintas e cada um canonizou a que ja usava, sem que houvesse uma terceira instancia divina e datavel para arbitrar.

Apologista Evidencial

A pergunta "quem removeu?" e mal formulada: nao houve um canon original unico do qual alguem subtraiu. Houve duas colecoes concorrentes desde a Antiguidade, e cada lado seguiu a sua.

A pagina acerta no diagnostico que mais importa, e e honesto reconhece-lo: a acusacao de que "os protestantes removeram 7 livros" pressupoe que a Biblia catolica medieval era o ponto de partida neutro, e isso e exatamente o que esta em disputa. Quem parte do canon hebraico ve os deuterocanonicos como uma camada que nunca pertenceu ao nucleo. Os dados que a propria pagina apresenta empurram nessa direcao: o suposto concilio de Jamnia, por seculos invocado como o momento em que o judaismo "fechou" o canon contra os cristaos, hoje e tratado com ceticismo pela historiografia. Roger Beckwith, em seu estudo de referencia sobre o canon do Antigo Testamento na igreja apostolica, argumenta justamente que a colecao hebraica ja estava praticamente delimitada bem antes do primeiro seculo, e que a ausencia dos deuterocanonicos nela nao foi reacao tardia ao cristianismo. Se isso procede, Lutero nao inventou um criterio: ele recuperou um que era anterior ao proprio Novo Testamento.

Onde a apologia precisa ser honesta sobre o que nao prova: o gesto de Lutero, descrito corretamente pela pagina, mostra um reformador que move os sete livros para um apendice rotulado Apocrypha, com a nota de que sao "uteis e bons de ler", e nao alguem que os queima. As Biblias protestantes, incluindo a King James de 1611, imprimiram essa secao por seculos. Isso e uma vantagem para o lado catolico em um ponto e uma desvantagem em outro. E vantagem porque revela que os reformadores reconheciam valor nesses textos, nao os tratavam como veneno; o desaparecimento posterior do apendice foi decisao editorial de impressores e sociedades biblicas, nao um dogma da Reforma. Mas e desvantagem para quem tenta pintar a remocao como vandalismo: o homem que supostamente "arrancou" os livros os traduziu e os manteve encadernados. A categoria que ele usou, livros bons para edificacao mas nao para fundar doutrina, e a mesma de Jeronimo, que chamava esses textos de libri ecclesiastici no seu Prologus Galeatus mil anos antes. Nesse ponto a Reforma nao e ruptura, e continuidade com uma corrente patristica que sempre existiu.

Onde fica o atrito genuino, que a fe nao dissolve: o argumento catolico mais forte nao esta no canon hebraico, esta no uso. A Septuaginta era a Biblia de fato dos apostolos, e o Novo Testamento cita o Antigo majoritariamente em grego. Os grandes codices cristaos do seculo 4, o Vaticano e o Sinaitico, trazem Tobias, Judite, Sabedoria e os Macabeus misturados aos demais, sem fronteira nitida. Aqui o defensor do canon hebraico precisa conceder algo real, e nao fugir para "mas a Biblia diz". O que ele pode legitimamente responder e que encadernacao nao e canonizacao: os proprios manuscritos da Septuaginta discordam entre si sobre quais livros incluem e em que ordem, sinal de uma biblioteca fluida, nao de um indice oficial fechado. E o padrao de citacao do proprio Novo Testamento reforca a distincao que a pagina ja faz sobre Hebreus 11:35: o eco do martirio de 2Mc 7:9 e real e impressionante, mas e eco, nao a formula "esta escrito" reservada a Isaias e aos Salmos. Os mesmos autores que ecoam Sabedoria 13 tambem citam nominalmente Enoque em Jd 1:14 e poetas pagaos, sem que isso torne Enoque Escritura. A conclusao honesta nao entrega vitoria a nenhum dos dois: ninguem "removeu" um canon que estivesse fechado, porque ele nao estava. Existiam duas reguas antigas, e cada tradicao seguiu a sua. O que fica em aberto, e fica de verdade, e se a igreja apostolica tratava a fronteira grega como autoridade plena ou apenas como leitura venerada, e a evidencia textual sozinha nao decide isso.