Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.
A pergunta "removeram ou acrescentaram" e mal formulada: nao houve um canon original unico para violar, havia duas colecoes concorrentes, e cada lado escolheu a sua.
A pagina acerta no ponto que mais incomoda os dois lados: nao existe uma regua neutra. A imagem de uma Biblia pristina que alguem depois mutilou pressupoe um canon fechado e universal no primeiro seculo, e isso simplesmente nao e o que a evidencia mostra. O que temos sao duas tradicoes paralelas, o canon hebraico mais enxuto e a Septuaginta grega com fronteiras borradas, convivendo por seculos sem que ninguem tivesse autoridade para decretar qual era a oficial. Quando o artigo diz que Lutero moveu sete livros para um apendice chamado Apocrypha em 1534, e que a propria King James de 1611 ainda os imprimia ate sumirem na maioria das edicoes por volta de 1885, ele esta descrevendo um fato historico bem documentado, e nao um roubo. Reformadores e o Concilio de Trento estavam, cada um, oficializando uma escolha que ja existia na pratica, nao inventando uma do nada.
Onde eu puxaria o freio e na suposicao implicita de que adotar o canon hebraico foi a leitura mais antiga ou mais fiel. Aqui a evidencia textual complica a vida de quem defende o lado protestante por antiguidade. Os autores do Novo Testamento citam o Antigo quase sempre pela Septuaginta, nao pelo hebraico, em centenas de passagens, inclusive quando o grego diverge do texto hebraico que conhecemos. E ha ecos diretos dos deuterocanonicos no proprio Novo Testamento: a esperanca na ressurreicao de quem morre fiel, articulada em 2Mc 7:9, ressoa em Hebreus 11:35 ao falar de uma ressurreicao melhor, e a galeria de zombarias de Mt 27 segue de perto Sabedoria 2. Ou seja, os primeiros cristaos liam e usavam a colecao grega, com os sete livros dentro. Isso nao prova que os deuterocanonicos sejam inspirados, mas torna desonesto pintar a coletanea mais curta como o estado original que os catolicos teriam inflado depois.
A consequencia para a tese de inerrancia e desconfortavel para todos. Note que o famoso concilio de Jamnia, por volta do ano 90, e tratado pelo artigo com a cautela correta: nao ha prova de um sinodo que tenha votado o canon ali, e os historiadores hoje abandonaram essa narrativa. Mas isso mesmo destroi a fantasia de uma entrega divina limpa e datavel das fronteiras da Escritura. A lista dos livros sagrados foi se assentando aos poucos, por comunidades diferentes, em linguas diferentes, com criterios que mudaram conforme o seculo e o idioma de quem rezava. Quem afirma que Deus ditou nao so o conteudo mas tambem o indice precisa explicar por que esse indice depende de qual comunidade voce consulta. A resposta honesta a pergunta do titulo nao e nem removeram nem acrescentaram: e que dois grupos herdaram colecoes distintas e cada um canonizou a que ja usava, sem que houvesse uma terceira instancia divina e datavel para arbitrar.
A pergunta "quem removeu?" e mal formulada: nao houve um canon original unico do qual alguem subtraiu. Houve duas colecoes concorrentes desde a Antiguidade, e cada lado seguiu a sua.
A pagina acerta no diagnostico que mais importa, e e honesto reconhece-lo: a acusacao de que "os protestantes removeram 7 livros" pressupoe que a Biblia catolica medieval era o ponto de partida neutro, e isso e exatamente o que esta em disputa. Quem parte do canon hebraico ve os deuterocanonicos como uma camada que nunca pertenceu ao nucleo. Os dados que a propria pagina apresenta empurram nessa direcao: o suposto concilio de Jamnia, por seculos invocado como o momento em que o judaismo "fechou" o canon contra os cristaos, hoje e tratado com ceticismo pela historiografia. Roger Beckwith, em seu estudo de referencia sobre o canon do Antigo Testamento na igreja apostolica, argumenta justamente que a colecao hebraica ja estava praticamente delimitada bem antes do primeiro seculo, e que a ausencia dos deuterocanonicos nela nao foi reacao tardia ao cristianismo. Se isso procede, Lutero nao inventou um criterio: ele recuperou um que era anterior ao proprio Novo Testamento.
Onde a apologia precisa ser honesta sobre o que nao prova: o gesto de Lutero, descrito corretamente pela pagina, mostra um reformador que move os sete livros para um apendice rotulado Apocrypha, com a nota de que sao "uteis e bons de ler", e nao alguem que os queima. As Biblias protestantes, incluindo a King James de 1611, imprimiram essa secao por seculos. Isso e uma vantagem para o lado catolico em um ponto e uma desvantagem em outro. E vantagem porque revela que os reformadores reconheciam valor nesses textos, nao os tratavam como veneno; o desaparecimento posterior do apendice foi decisao editorial de impressores e sociedades biblicas, nao um dogma da Reforma. Mas e desvantagem para quem tenta pintar a remocao como vandalismo: o homem que supostamente "arrancou" os livros os traduziu e os manteve encadernados. A categoria que ele usou, livros bons para edificacao mas nao para fundar doutrina, e a mesma de Jeronimo, que chamava esses textos de libri ecclesiastici no seu Prologus Galeatus mil anos antes. Nesse ponto a Reforma nao e ruptura, e continuidade com uma corrente patristica que sempre existiu.
Onde fica o atrito genuino, que a fe nao dissolve: o argumento catolico mais forte nao esta no canon hebraico, esta no uso. A Septuaginta era a Biblia de fato dos apostolos, e o Novo Testamento cita o Antigo majoritariamente em grego. Os grandes codices cristaos do seculo 4, o Vaticano e o Sinaitico, trazem Tobias, Judite, Sabedoria e os Macabeus misturados aos demais, sem fronteira nitida. Aqui o defensor do canon hebraico precisa conceder algo real, e nao fugir para "mas a Biblia diz". O que ele pode legitimamente responder e que encadernacao nao e canonizacao: os proprios manuscritos da Septuaginta discordam entre si sobre quais livros incluem e em que ordem, sinal de uma biblioteca fluida, nao de um indice oficial fechado. E o padrao de citacao do proprio Novo Testamento reforca a distincao que a pagina ja faz sobre Hebreus 11:35: o eco do martirio de 2Mc 7:9 e real e impressionante, mas e eco, nao a formula "esta escrito" reservada a Isaias e aos Salmos. Os mesmos autores que ecoam Sabedoria 13 tambem citam nominalmente Enoque em Jd 1:14 e poetas pagaos, sem que isso torne Enoque Escritura. A conclusao honesta nao entrega vitoria a nenhum dos dois: ninguem "removeu" um canon que estivesse fechado, porque ele nao estava. Existiam duas reguas antigas, e cada tradicao seguiu a sua. O que fica em aberto, e fica de verdade, e se a igreja apostolica tratava a fronteira grega como autoridade plena ou apenas como leitura venerada, e a evidencia textual sozinha nao decide isso.