A inversão do traidor
Nos quatro evangelhos canônicos, Judas Iscariotes é o discípulo que entrega Jesus por dinheiro, movido por Satanás ou pela ganância, e termina em desgraça. O Evangelho de Judas inverte o retrato: nele, Judas é o único discípulo que compreende quem Jesus realmente é, o confidente a quem Jesus revela os mistérios secretos, e a entrega deixa de ser crime para virar serviço pedido por Jesus.
1 Esta é a mensagem secreta de julgamento que Jesus falou com Judas Iscariotes ao longo de oito dias, três dias antes de ele celebrar a Páscoa.
14 Então um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes,
15 E disse: Que me quereis dar, e eu vo-lo entregarei? E eles lhe pesaram trinta moedas de prata,
16 E desde então buscava oportunidade para o entregar.
A traição como libertação
A chave do texto é gnóstica: o corpo é uma prisão, e o verdadeiro Jesus é o espírito interior, não a carne. Por isso a entrega de Jesus às autoridades não é um mal, é o gesto que libera o espírito da casca corporal. Numa fala dirigida a Judas, Jesus diz que ele superará todos os outros, pois "sacrificará o homem que me reveste", ou seja, ajudará a soltar o Cristo espiritual do corpo.
61 Jesus disse: "Em verdade eu digo [a você], este batismo [que eles receberam em] meu nome […] destruirá toda a geração do Adão terreno. Amanhã eles torturarão aquele que me carrega. Em verdade eu [digo] a você: nenhuma mão de humano mortal [cairá] sobre mim. Em verdade [eu digo] a você, Judas: aqueles que oferecem sacrifícios a Saklas […] tudo o que é mau. Mas você fará mais do que todos eles, porque você sacrificará o humano que me carrega. O seu chifre já foi levantado, a sua raiva foi acesa, a sua estrela ascendeu, e o seu coração se [desviou]. Em verdade [eu digo a você], o seu último [… e] os [… os tronos] do reino [foram derrotados], os reis enfraqueceram, as gerações angelicais entristeceram, e o mal [que eles semearam …] é destruído, [e] o [governante] é apagado. [E] então o [fruto] da grande geração de Adão será exaltado, porque, antes do céu, da terra e dos anjos, aquela geração dos reinos existe. Veja, tudo foi contado a você. Erga os seus olhos e veja a nuvem com a luz dentro dela e as estrelas ao seu redor. E a estrela que abre o caminho é a sua estrela."
43 E logo, falando ele ainda, veio Judas, que era um dos doze, da parte dos principais dos sacerdotes, e dos escribas e dos anciãos, e com ele uma grande multidão com espadas e varapaus.
44 Ora, o que o traía, tinha-lhes dado um sinal, dizendo: Aquele que eu beijar, esse é; prendei-o, e levai-o com segurança.
45 E, logo que chegou, aproximou-se dele, e disse-lhe: Rabi, Rabi. E beijou-o.
46 E lançaram-lhe as mãos, e o prenderam.
21 Tendo Jesus dito isto, turbou-se em espírito, e afirmou, dizendo: Na verdade, na verdade vos digo que um de vós me há de trair.
22 Então os discípulos olhavam uns para os outros, duvidando de quem ele falava.
23 Ora, um de seus discípulos, aquele a quem Jesus amava, estava reclinado no seio de Jesus.
24 Então Simão Pedro fez sinal a este, para que perguntasse quem era aquele de quem ele falava.
25 E, inclinando-se ele sobre o peito de Jesus, disse-lhe: Senhor, quem é?
26 Jesus respondeu: É aquele a quem eu der o bocado molhado. E, molhando o bocado, o deu a Judas Iscariotes, filho de Simão.
27 E, após o bocado, entrou nele Satanás. Disse, pois, Jesus: O que fazes, faze-o depressa.
A leitura ambígua de Judas
A primeira edição, em 2006, apresentou Judas como herói redimido, e a notícia correu o mundo. Estudos posteriores complicaram a leitura: o texto chama Judas de "décimo terceiro demônio", e há quem o veja não como salvo, mas como uma figura trágica, presa às estrelas e ao destino, ainda dentro do cosmos corrompido. A interpretação segue disputada, mas em nenhuma leitura ele é o vilão simples dos Sinópticos.
43 Jesus respondeu e disse: "Você se tornará o décimo terceiro, e será amaldiçoado pelas outras gerações, e governará sobre elas. Nos últimos dias, eles […] a você e você não subirá à geração santa."
65 Então ele lhes respondeu como eles queriam. Então Judas recebeu algum dinheiro e o entregou a eles.
Manuscrito e datação
O texto é conhecido por uma única cópia copta, o Códice Tchacos, que sofreu décadas de manuseio danoso no mercado de antiguidades antes de ser estudado. Irineu de Lyon já mencionava um Evangelho de Judas por volta de 180 d.C. e o atribuía a um grupo gnóstico (os cainitas), o que ancora a obra no século 2, gerações depois dos fatos. Trata-se de literatura setiana, uma corrente do gnosticismo, e não de um relato de testemunha.