Postura parecida, fundamento diferente
A página anterior mostrou os encontros. Esta marca as fronteiras. Reconhecer onde Marco Aurélio coincide com a Escritura não pode apagar onde ele a contradiz, e os pontos de ruptura são profundos: não estão na superfície dos conselhos, estão na raiz da visão de mundo.
Um deus que é o mundo, não o Criador do mundo
O "deus" do estoicismo não é pessoal. É a razão impessoal que permeia o universo e se confunde com ele, algo mais perto do panteísmo do que do Deus da Bíblia. Marco Aurélio fala em deuses no plural, em Zeus, na natureza e na providência quase como sinônimos, e vê o universo como um único ser vivo, com uma só alma.
40 Considere sempre o universo como um único ser vivo, com uma só substância e uma só alma. Observe como tudo se reúne em uma única percepção, a percepção desse único ser vivo; como tudo age com um único movimento; como todas as coisas são as causas que cooperam para tudo o que existe; e observe também o fiar contínuo do fio e o entrelaçar da teia.
A Escritura corta isso: Deus não é o cosmos, é quem o criou de fora, distinto da sua obra. As coisas invisíveis dele se entendem pelas coisas criadas, mas não são as coisas criadas.
Salvar a si mesmo, sem graça
O ponto mais distante da fé é este. Para o estoico, o homem se basta. A virtude é conquista da própria razão, sem ajuda de fora, sem perdão, sem redentor. Marco Aurélio diz que é preciso se manter de pé por si mesmo, não ser mantido de pé pelos outros.
6 Não trabalhe contra a vontade, nem sem pensar no bem comum, nem sem reflexão, nem dividido entre várias coisas. Não deixe que floreios enfeitem o seu pensamento, e não seja homem de muitas palavras nem ocupado com coisas demais. Que a divindade dentro de você seja a guardiã de um ser viril e maduro, dedicado à vida pública, romano e governante, que assumiu seu posto como quem espera o sinal que o chama da vida, pronto para ir, sem precisar de juramento nem de testemunha alguma. Seja também sereno e não busque ajuda externa nem a tranquilidade que os outros dão. É preciso manter-se de pé por si mesmo, não ser mantido de pé pelos outros.
O evangelho diz o oposto: o homem não se salva por esforço próprio, mas pela graça, e a força para viver bem vem de fora dele, de Cristo (Fp 4:13). Onde o estoico se basta, o cristão se reconhece dependente. Essa é a diferença que nenhuma semelhança de conselho dissolve.
Indiferença à emoção, não santificação dela
O estoico mira na ausência de paixão: não se abalar, não chorar junto, não se mover por emoção violenta. Marco Aurélio elogia o pai adotivo por nunca demonstrar raiva nem qualquer paixão. A fé cristã não suprime a emoção: Jesus chora diante do túmulo de Lázaro, se indigna, se compadece. O alvo não é a frieza serena, é o amor ordenado.
9 De Sexto aprendi a benevolência e o exemplo de uma casa governada como um pai governa, e a ideia de viver de acordo com a Natureza. Aprendi a ter dignidade sem afetação, a cuidar com atenção dos interesses dos amigos, a suportar os ignorantes e os que opinam sem pensar. Ele sabia se adaptar a todos, e a conversa com ele era mais agradável que qualquer bajulação, ao mesmo tempo em que era profundamente respeitado por quem convivia com ele. Sabia descobrir e organizar, de modo inteligente e ordenado, os princípios necessários para a vida. Nunca demonstrava raiva ou qualquer outra paixão, mas era totalmente livre delas e, ao mesmo tempo, muito afetuoso. Sabia elogiar sem alarde e tinha muito conhecimento sem ostentação.
A morte sem ressurreição
Por fim, a esperança. O estoico encara a morte como dissolução nos elementos, talvez a passagem para outro estado, mas sem certeza e sem promessa. Marco Aurélio chega a especular se as almas duram um tempo no ar antes de se dispersarem. Não há ressurreição do corpo, não há vida eterna garantida, não há reencontro. É coragem diante do nada, não esperança diante de uma promessa.
21 Se as almas continuam a existir, como o ar as contém desde a eternidade? Mas como a terra contém os corpos dos que foram sepultados desde um tempo tão remoto? Pois assim como aqui a transformação e a dissolução desses corpos, depois de durarem algum tempo, abrem espaço para outros corpos mortos, também as almas que passam para o ar, depois de subsistirem por algum tempo, se transformam, se dispersam e assumem natureza ígnea ao serem recebidas no princípio gerador do universo, e assim abrem espaço para as novas almas que vêm habitar ali. Essa seria a resposta para quem supõe que as almas continuam a existir. Mas é preciso pensar não só na quantidade de corpos assim sepultados, mas também na quantidade de animais que nós e os outros animais comemos a cada dia. Que número enorme é consumido e, de certo modo, sepultado nos corpos dos que se alimentam deles. E mesmo assim a terra os recebe, por meio das transformações em sangue e das mudanças em ar ou fogo. Qual é a investigação da verdade nesse assunto? A divisão entre aquilo que é matéria e aquilo que é a causa da forma.
É aqui que a serenidade estoica mostra seu teto: ela ensina a não temer a morte, mas não tem o que pôr no lugar do medo além da resignação. A fé responde a morte com uma pessoa que a venceu.