Um pagão que ecoa coisas que você já conhece
Marco Aurélio nunca leu o Novo Testamento e provavelmente desconfiava dos cristãos do seu império. Ainda assim, várias das atitudes que ele cultiva soam familiares para quem foi formado pela Bíblia. Isso não é coincidência mística nem prova de que ele era "cristão sem saber". É algo que o próprio Paulo afirma: o que se pode conhecer de Deus está manifesto na consciência de todos os homens, pela criação, deixando-os inescusáveis.
20 Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis;
Por isso um pagão honesto, usando só a razão, podia chegar perto de verdades que a Escritura ensina com clareza. Onde ele acerta, vale reconhecer e aprender. Esta página junta esses encontros. Importante: o que segue não é mapear a Bíblia no texto estoico, e sim usar a Escritura para enquadrar a postura do leitor cristão diante dele.
Não se inquietar com o amanhã
Marco Aurélio insiste que o futuro não está nas suas mãos e que carregá-lo de antemão só rouba o presente. Confie o futuro à providência e cuide só do hoje, diz ele.
1 Tudo aquilo que você espera alcançar dando voltas por um longo caminho, você já pode ter agora, se não negar isso a si mesmo. Basta deixar de lado todo o passado, confiar o futuro à providência e dirigir apenas o presente para a piedade e a justiça. Para a piedade, de modo que você fique contente com o que lhe foi reservado, pois a Natureza preparou isso para você e você para isso. Para a justiça, de modo que você sempre fale a verdade com liberdade e sem rodeios, e faça o que está de acordo com a lei e com o valor de cada coisa.
Jesus diz o mesmo, com outra base: não a impessoal providência estoica, mas um Pai que cuida. A semelhança da postura é evidente, e a diferença do fundamento também.
34 Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.
Contentar-se com o que se tem
O estoico treina a satisfação com pouco e a indiferença diante da fartura ou da falta. Marco Aurélio louva no pai adotivo a marca de quem sabia "se privar quanto desfrutar". Paulo descreve essa mesma serenidade, mas a ancora numa pessoa, não numa técnica: a força lhe vem de Cristo.
11 Não digo isto como por necessidade, porque já aprendi a contentar-me com o que tenho.
12 Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade.
13 Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece.
A vaidade de tudo o que passa
A consciência de que fama, riqueza e poder logo viram fumaça percorre todo o livro. Esse desprezo pelo efêmero tem um parente direto no Antigo Testamento, em Eclesiastes, que chama tudo isso de vaidade, e na imagem de Tiago para a vida humana: um vapor que aparece um instante e some.
| O ponto | Marco Aurélio | A Bíblia |
|---|---|---|
| Não se preocupar com o amanhã | Confiar o futuro à providência (12:1) | Não vos inquieteis pelo amanhã (Mt 6:34) |
| Contentar-se com pouco | Saber privar-se e desfrutar (1:16) | Aprendi a contentar-me (Fp 4:11) |
| Tudo o que passa é vão | Fama e poder viram fumaça (4:33; 12:27) | Tudo é vaidade (Ec 1:2); a vida é um vapor (Tg 4:14) |
| Servir aos outros | Os homens existem uns para os outros (8:59) | Levai as cargas uns dos outros |
14 Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece.
Em todos esses pontos, a atitude se parece e o alicerce difere. A próxima página marca exatamente onde Marco Aurélio para de coincidir com a fé.