Meditações 4

O caderno pessoal do imperador-filósofo Marco Aurélio (séc. II): anotações estoicas sobre o dever, a razão, a aceitação do destino e a brevidade da vida

Se as almas continuam a existir, como o ar as contém desde a eternidade? Mas como a terra contém os corpos dos que foram sepultados desde um tempo tão remoto? Pois assim como aqui a transformação e a dissolução desses corpos, depois de durarem algum tempo, abrem espaço para outros corpos mortos, também as almas que passam para o ar, depois de subsistirem por algum tempo, se transformam, se dispersam e assumem natureza ígnea ao serem recebidas no princípio gerador do universo, e assim abrem espaço para as novas almas que vêm habitar ali. Essa seria a resposta para quem supõe que as almas continuam a existir. Mas é preciso pensar não na quantidade de corpos assim sepultados, mas também na quantidade de animais que nós e os outros animais comemos a cada dia. Que número enorme é consumido e, de certo modo, sepultado nos corpos dos que se alimentam deles. E mesmo assim a terra os recebe, por meio das transformações em sangue e das mudanças em ar ou fogo. Qual é a investigação da verdade nesse assunto? A divisão entre aquilo que é matéria e aquilo que é a causa da forma.