Ornias, o primeiro demônio que Salomão prendeu

Vulto de estatura humana feito inteiramente de chama viva, com asas de fogo e um pequeno anel de ouro pousado no peito

Ornias é o primeiro demônio nomeado no Testamento de Salomão e o motor de toda a narrativa: ele atacava o filho do mestre de obras do Templo, sugando o polegar da mão direita do garoto e levando metade do salário e metade da comida dele. Um anel selado, entregue por Deus, põe fim ao ataque, e o interrogatório que se segue obriga o demônio a dizer nome, signo e formas; depois disso ele vira caçador, mandado buscar o próprio Belzebul. O livro é grego, e a compilação que chegou até nós costuma ser datada por volta do início do século III, seguindo o argumento de C. C. McCown, editor da edição crítica de 1922. A datação continua disputada: parte do material parece mais antiga, e outros pesquisadores puxam a redação final para o século IV ou depois. Ornias aparece em seis capítulos (2, 4, 5, 9, 20 e 21), e é ele quem, no fim, explica como os demônios parecem conhecer o futuro.

A cena que abre o livro: metade do salário e o polegar direito

A abertura não é uma batalha cósmica, é um caso de folha de pagamento. O demônio aparece no canteiro de obras ao pôr do sol, depois que os operários são liberados, e cobra do menino um pedágio diário: metade do pagamento, metade da comida e o polegar da mão direita. O detalhe em que o texto insiste é fisiológico. A criança não fica possuída nem enlouquecida, fica magra, e o rei percebe pelo corpo do garoto que alguma coisa está drenando o seu favorito.

2 Ornias, o demônio, veio entre eles ao pôr do sol; e ele tirou metade do salário do filhinho do mestre de obras, bem como metade de sua comida.

3 Ele também continuou a chupar o polegar da mão direita do menino todos os dias. E a criança ficou magra, embora fosse muito amada pelo rei.

A solução vem de fora da técnica humana. Segundo o texto, Salomão entra no Templo e ora noite e dia, e a resposta chega pelo arcanjo Miguel: um pequeno anel com um selo feito de pedra gravada, apresentado como presente de Deus, com poder de prender todos os demônios da Terra, masculinos e femininos, e com a gravura descrita como uma hexalfa.

1 Quando eu, Salomão, ouvi isso, entrei no Templo de Deus e orei com toda a minha alma, noite e dia, para que o demônio fosse entregue em minhas mãos e eu pudesse ganhar autoridade sobre ele.

2 E aconteceu por meio da minha oração que a graça me foi dada pelo Senhor dos Exércitos por meio de seu arcanjo Miguel.

3 Ele me trouxe um pequeno anel, tendo um selo consistindo de uma pedra gravada, e disse-me: “Toma, ó Salomão, rei, filho de Davi, o presente que o Senhor Deus te enviou, o exército supremo.

4 Com ela você deve prender todos os demônios da Terra, masculinos e femininos; e com a ajuda deles você edificará Jerusalém. Mas você deve usar este selo de Deus. E esta gravura do selo do anel enviada a você é uma Hexalfa."

O rei não usa o anel pessoalmente: entrega ao menino e manda jogá-lo no peito do demônio. Ornias chega como um fogo ardente para cobrar o pagamento de sempre, leva o anel no peito e tenta comprar a saída oferecendo ao garoto a prata e o ouro da Terra. O menino recusa, e o demônio é levado ao pátio do palácio estremecendo e tremendo. Só então vem o interrogatório, que fixa o formato de todo o resto do livro: nome, signo zodiacal, modo de agir, formas que assume e qual anjo o neutraliza. Ornias diz estar sujeito a Aquário, estrangular quem vive sob esse signo por causa da paixão por mulheres de Virgem, transformar-se em mulher bonita para pegar homens durante o sono, aparecer como leão e voar com asas próprias às regiões celestiais. Diz-se também descendente do arcanjo de Deus e admite ser frustrado pelo arcanjo Uriel.

6 Então a criança pegou o anel e saiu; e na hora habitual, Ornias, o demônio feroz, veio como um fogo ardente para receber o pagamento da criança.

7 Mas a criança, de acordo com as instruções recebidas do rei, jogou o anel no peito do demônio e disse: “O rei Salomão o chama aqui”.

8 E então ele saiu correndo para o rei. Mas o demônio gritou em voz alta, dizendo:

9 “Criança, por que você fez isso comigo? Remova o anel e devolva-o a Salomão, e eu darei a você o ouro da Terra. Apenas tire isso de mim e pare de me levar para Salomão."

10 Mas a criança disse ao demônio: “Tão certo como vive o Senhor Deus de Israel, não vou tolerar você. Então venha aqui."

11 E a criança veio correndo, regozijando-se, para o rei, e disse:

12 “Eu trouxe o demônio, ó rei, como você me ordenou, ó meu mestre. E ele está diante dos portões do pátio do seu palácio, clamando e suplicando em voz alta; oferecendo-me a prata e o ouro da Terra se eu apenas deixar de entregá-lo a você."

13 E quando Salomão ouviu isso, levantou-se de seu trono e saiu para a porta de entrada do pátio de seu palácio; e ele viu o demônio, estremecendo e tremendo. E ele disse a ele:

14 “Quem é você?” E o demônio respondeu: “Eu me chamo Ornias.”

15 E Salomão disse a ele: “Diga-me, ó demônio, a que signo zodiacal você está sujeito.”

16 E ele respondeu: “Para o aguadeiro, Aquário. E aqueles que são consumidos pelo desejo pelas nobres virgens da Terra.

17 Eu estrangulo aqueles que residem em Aquário por causa de sua paixão por mulheres cujo signo zodiacal é Virgem. Mas caso não haja disposição durante o transe, eu me transformo em três formas.

18 Sempre que os homens ficam cativados pelas mulheres, eu me transformo em uma bela mulher; e eu pego os homens durante o sono e brinco com eles.

19 E depois de um tempo eu novamente pego minhas asas e voo para as regiões celestiais. Eu também apareço como um leão e sou comandado por todos os demônios. Além disso, eu sou descendente do arcanjo de Deus e sou frustrado pelo arcanjo Uriel, o Poder de Deus."

A submissão não é imediata. O texto diz que Ornias não estava disposto a se sujeitar, que Salomão precisou orar de novo e que Uriel desceu dos céus para forçá-lo. Só aí Ornias vira ferramenta: recebe a ordem de completar a construção do Templo e, junto com o selo, uma missão específica, trazer o príncipe de todos os demônios. É Ornias quem arremessa o anel no peito de Belzebul e o conduz ao rei, e é a partir daí que o livro se transforma no catálogo de interrogatórios que o tornou famoso. O texto não esquece o papel dele: capítulos depois, um demônio sem cabeça, ao ser selado, grita chamando Ornias de traidor. Uriel, o arcanjo que o frustra, não é nomeado na Bíblia hebraica; aparece na tradição enóquica, ao lado de Miguel, Gabriel e Rafael, e também em 4 Esdras.

O capítulo 21: como os demônios fingem prever o futuro

O capítulo 20 monta a armadilha narrativa. Um velho acusa o próprio filho de agredi-lo e pede vingança ao rei, e no meio do julgamento Salomão vê Ornias rindo. Interrogado, o demônio responde que não ri do rei, mas do caso: o rapaz morrerá em três dias de qualquer modo. Salomão suspende a sentença, reconcilia pai e filho e marca o retorno dos dois para testar a previsão. No capítulo seguinte pergunta como ele sabia, e a resposta é o trecho mais citado do livro. Os demônios sobem ao firmamento, voam entre as estrelas, ouvem as sentenças que atingem as almas dos homens e chegam imediatamente. Se a morte já foi decretada, eles a executam por fogo, espada ou algum acidente e escondem o próprio ato de destruição. Se não foi, mostram-se aos homens e são adorados como se o poder fosse deles. É uma teoria fechada sobre a origem da adivinhação pagã: o oráculo acerta não porque conhece o futuro, mas porque alguém ouviu a decisão na fonte e correu para imitá-la. O mesmo trecho ainda explica as estrelas cadentes, que seriam demônios sem apoio no ar caindo como folhas de árvore. A previsão se cumpre, e o velho volta enlutado.

3 “Nós, demônios, ascendemos ao firmamento do céu e voamos entre as estrelas.

4 E ouvimos as sentenças que atingem as almas dos homens e imediatamente chegamos, e seja por força de influência,

5 ou por fogo, ou por espada, ou por algum acidente, escondemos nosso ato de destruição;

6 e se um homem não morre por algum desastre prematuro ou por violência, então nós, demônios,

7 nos transformamos de maneira a aparecer aos homens e ser adorados em nossa natureza humana."

8 Eu, portanto, tendo ouvido isso, glorifiquei o Senhor Deus e novamente questionei o demônio, dizendo:

9 “Diga-me como você pode subir ao céu, sendo demônios, e entre as estrelas e os santos anjos se misturam”.

10 E ele respondeu: “Assim como as coisas são cumpridas no céu, também na Terra se cumprem os tipos de todas elas.

11 Pois existem principados, autoridades, governantes mundiais, e nós, demônios, voamos no ar;

12 e ouvimos as vozes dos seres celestiais e examinamos todos os poderes.

13 E como não temos base para pousar e descansar, perdemos a força e caímos como as folhas das árvores.

14 E os homens, vendo-nos, imaginam que as estrelas estão caindo do céu.

15 Mas não é realmente assim, ó rei; mas caímos por causa de nossa fraqueza e porque não temos nada em que nos agarrar;

16 e assim caímos como um raio no meio da noite e de repente. E incendiamos as cidades e incendiamos os campos.

O esquema não é invenção isolada. A Bíblia canônica tem peças espalhadas que a literatura posterior costurou: Paulo situa o poder demoníaco no ar, Jó e 1 Reis mostram um conselho celeste em que espíritos se apresentam e recebem missões. E a literatura cristã do século II já usava o argumento de que os demônios ouviram os profetas e parodiaram o que ouviram, produzindo os mitos pagãos. Justino Mártir escreve isso décadas antes da datação usual do Testamento, o que sugere que o autor trabalha com um raciocínio já corrente, e não com uma invenção própria. A diferença é de gênero: Justino argumenta, o Testamento põe a explicação na boca do próprio demônio.

O que o texto diz e o que virou folclore depois

TraçoO que o Testamento de Salomão dizCapítulo
AtaqueChupa o polegar da mão direita do menino e toma metade do salário e metade da comida dele2
SignoSujeito a Aquário; estrangula quem vive sob Aquário por causa da paixão por mulheres de Virgem4
FormasMulher bonita que pega os homens durante o sono, leão, e ser alado que voa às regiões celestiais4
Origem e limiteDiz-se descendente do arcanjo de Deus e admite ser frustrado pelo arcanjo Uriel4
Função forçadaRecebe o selo, entrega Belzebul e é posto para completar a construção do Templo4 e 5
Saber do futuroPrevê a morte do jovem e explica que os demônios ouvem as sentenças no firmamento20 e 21

Quase tudo que circula sobre Ornias fora dessas linhas é acréscimo. O nome não aparece na Bíblia, nem nas listas de vigilantes de 1 Enoque, nem em Jubileus, e não há etimologia estabelecida: as glosas populares (algo como "importuno", ou uma ligação com o grego órnis, ave, por causa das asas) circulam em enciclopédias de demonologia sem apoio manuscrito. O rótulo de vampiro também é categoria moderna. O texto nunca usa a palavra, mas descreve uma sucção que emagrece a vítima, e foi isso que levou compêndios modernos de folclore vampírico a incluí-lo; a porta de entrada foi a tradução inglesa de F. C. Conybeare, publicada na Jewish Quarterly Review em 1898, base da maioria das versões que circulam online, inclusive em português. Vale lembrar ainda que os manuscritos gregos divergem entre si em ordem, nomes e extensão, de modo que "o que o Testamento diz" é sempre o que diz determinada recensão. Muitos estudiosos veem no livro um antecedente da literatura mágica salomônica medieval, embora a linha de transmissão até os grimórios seja indireta e discutida. A Bíblia canônica, por sua vez, nunca nomeia um demônio desse tipo nem descreve o mecanismo da adivinhação: é exatamente esse vazio que o capítulo 21 se propõe a preencher.