
Onoskelis é um espírito feminino do Testamento de Salomão, apócrifo grego em que o rei interroga um a um os demônios que constrangeu a trabalhar na construção do Templo. Ela se apresenta com forma muito bonita e pele clara, mas com pernas de mula; diz morar em precipícios, cavernas e ravinas, estrangular homens com um laço e pervertê-los da sua natureza verdadeira. O nome não é hebraico nem semítico: é grego e puramente descritivo, de onos (burro, jumento) mais skelos (perna).
O que o texto de fato diz
Onoskelis entra no capítulo 5, logo depois que Belzebul é trazido diante de Salomão pelo anel. O rei pergunta se existem demônios femininos e pede para ver um. A descrição é curta, e o contraste é o ponto: o corpo é atraente, o defeito é visível e não pode ser escondido.
8 Então perguntei ao demônio se havia demônios femininos entre eles. E quando ele me disse que havia, eu disse que desejava vê-los. Então Belzebul saiu em alta velocidade e trouxe para mim Onoskelis, que tinha uma forma muito bonita e pele clara, mas suas pernas eram as de uma mula; e ela balançou a cabeça.
O interrogatório vem em seguida. Ela mesma descreve o que faz, onde vive e a quem procura: estrangula com laço, perverte os homens da sua natureza, mora em precipícios, cavernas e ravinas, e se relaciona com homens em forma de mulher, sobretudo com os de pele cor de mel. Note que o texto não a chama de sedutora em nenhum momento; quem diz que ela se aproxima de homens "em forma de mulher" é ela própria, e a violência vem antes da sedução na ordem em que ela lista suas atividades.
10 Mas ela me disse: “Meu nome é Onoskelis. Eu sou um espírito que se transformou em um corpo para espreitar na Terra. Há uma caverna dourada onde eu me deito. Mas eu tenho um personagem de muitos lados.
11 Certa vez, estrangulei homens com um laço; em outro, eu os perverto de suas verdadeiras naturezas. Mas minhas moradas mais frequentes são os precipícios, cavernas e ravinas.
12 Muitas vezes, porém, me relaciono com homens em forma de mulher e, sobretudo, com aqueles de pele cor de mel.
13 Pois eles compartilham minha estrela comigo; já que são eles que, em particular ou abertamente, adoram minha estrela, sem saber que se prejudicam, e apenas estimule meu apetite por mais travessuras.
O relato acrescenta dois traços astrológicos que costumam sumir nos resumos modernos: ela diz passar "sob a estrela da lua cheia" e afirma que os homens que a cultuam compartilham a sua estrela. Traços assim aproximam o Testamento da magia astrológica greco-egípcia dos papiros mágicos gregos, embora o esquema fixo de astro regente somado a um anjo que anula cada demônio seja característico do próprio Testamento.
O texto também dá uma origem para ela, e não é a que circula na internet. Perguntada sobre o próprio nascimento, Onoskelis responde com uma fórmula obscura sobre voz e eco, não com uma genealogia animal.
15 E eu, Salomão, a questionei sobre seu nascimento, e ela respondeu:
16 “Eu nasci de uma voz prematura, o chamado eco da excreção de um homem. Fui gerado por uma voz inesperada que se chama voz do eco de um céu negro , emitida na matéria.”
Onos mais skelos: um nome que vem da Grécia, não de Israel
Onoskelis (Ὀνοσκελίς) significa literalmente "a de pernas de burro". A figura circulava na cultura grega antes e à margem do Testamento. Na comédia As Rãs, de Aristófanes (405 a.C.), o escravo Xântias diz ver uma empousa que muda de forma diante dele e de Dioniso, passando por touro, mula, mulher bonita e cachorro; no texto de Aristófanes ela tem uma perna de bronze e outra de esterco. A perna de jumento e os epítetos onokole e onoskelis vêm de fontes lexicográficas e escoliásticas posteriores, não do texto da comédia. Há ainda uma etiologia grega: um texto transmitido sob o nome de Plutarco, as Histórias Paralelas, capítulo 29, conta que Aristônimo de Éfeso, filho de Demóstrato, odiava mulheres, unia-se a uma jumenta e dela nasceu uma menina belíssima chamada Onoskelis, história que o próprio texto atribui a um "Aristócles". Cabe hedge aqui: as Histórias Paralelas são hoje tidas como pseudo-plutarquianas e citam autoridades em boa parte inventadas, de modo que a passagem atesta o nome correndo no folclore grego, não uma genealogia confiável.
A datação do Testamento de Salomão é disputada. A edição crítica de Chester McCown (1922), feita sobre manuscritos do Monte Atos, Bolonha, Holkham Hall, Jerusalém, Londres, Milão, Paris e Viena, defendeu uma compilação por volta do início do século III d.C., incorporando material judaico mais antigo; outros estudiosos puxam a redação para o século V ou VI, e os manuscritos conservados são tardios, dos séculos XV a XVII. Em qualquer dessas datas, o texto foi escrito em grego, num ambiente onde a empusa era referência corrente. A coincidência de nome é a evidência mais forte de que o autor tomou emprestada uma criatura popular e a encaixou no elenco salomônico.
O que é texto e o que é acréscimo posterior
| Afirmação | Onde ela realmente aparece |
|---|---|
| Corpo de mulher bonita e pele clara, pernas de mula | Testamento de Salomão 5:8 |
| Vive em precipícios, cavernas e ravinas | Testamento de Salomão 5:11 |
| Estrangula homens com um laço e os perverte | Testamento de Salomão 5:11 |
| Passa sob a estrela da lua cheia; declara ser sujeitada pelo anjo Joel | Testamento de Salomão 5:18 e 5:21 |
| Nasceu de uma voz prematura, de um eco | Testamento de Salomão 5:16. É a origem que o próprio texto dá |
| Nasceu da união de Aristônimo de Éfeso com uma jumenta | Pseudo-Plutarco, Histórias Paralelas 29. Não está no Testamento e contradiz 5:16 |
| É a mesma criatura que a empusa | Identificação de estudiosos modernos, baseada nos epítetos gregos. Plausível, não afirmada pelo texto |
| É súcubo, rainha da luxúria, esposa de outro demônio | Demonologia e ocultismo modernos. Sem base no Testamento nem em fonte antiga |
Como ela é neutralizada
A submissão de Onoskelis não vem de exorcismo nem de fórmula secreta. Perguntada sobre qual anjo a frustra, ela responde de modo evasivo; Salomão entende que está sendo zombado e manda um soldado golpeá-la, e só então ela declara estar sujeita pela sabedoria dada por Deus ao rei e pelo anjo Joel. A sentença é trabalho: fiar o cânhamo das cordas usadas na obra do Templo. O padrão vale para todo o livro. Cada demônio nomeia o anjo que o frustra, é selado pelo anel e vira mão de obra. No enredo do Testamento, o poder demoníaco é convertido em serviço, não destruído.
19 Então eu disse a ela: “E que anjo é esse que te frustra?”
20 E ela me disse: “Aquele que está reinando por intermédio de você.”
21 E pensei que ela zombou de mim e ordenou a um soldado que a golpeasse. Mas ela clamou em voz alta e disse: “Estou sujeita a ti, ó rei, pela sabedoria que Deus te deu, e pelo anjo Joel.”
22 Então eu ordenei a ela que fiasse o cânhamo para as cordas usadas na construção da casa de Deus;
23 e consequentemente, quando eu a selei e amarrei, ela ficou tão abatida e reduzida a nada que passou noite e dia fiando o cânhamo.
Onde a Bíblia canônica toca no assunto
A Bíblia não menciona Onoskelis, nem qualquer criatura de pernas animais que seduza homens. O que existe são ruínas desabitadas povoadas por seres do deserto: os seʿirim (literalmente "peludos", traduzidos por "sátiros" em várias versões portuguesas) e, em Isaías 34:14, a lilît, palavra que ocorre uma única vez no hebraico bíblico e cuja tradução é disputada entre "ave noturna" e "demônio da noite". A Lilith desenvolvida, primeira mulher de Adão e assassina de recém-nascidos, aparece de forma articulada só no Alfabeto de Ben Sira, obra judaica medieval, séculos depois do Testamento.
O motivo da sedutora com um traço animal escondido reaparece em culturas sem contato entre si: a lamia e a empousa gregas, a Lilith do folclore judaico tardio, a mula sem cabeça do folclore brasileiro (registrada por folcloristas a partir do século XIX e em geral derivada de lendas ibéricas trazidas na colonização). A semelhança é de motivo, não de linhagem. Fora do caso grego, onde o nome compartilhado é evidência concreta, não há documentação que ligue uma tradição à outra, e afirmar dependência histórica entre elas é ir além do que as fontes permitem.