Abyzou: o demônio que estrangula recém-nascidos no Testamento de Salomão

Cabeça de mulher flutuando sozinha, de olhos verdes luminosos e cabelo revolto com crista de dragão, o corpo dissolvido em sombra

Abyzou não aparece em nenhum livro da Bíblia canônica. Ela é um demônio feminino do Testamento de Salomão, um apócrifo grego que ficou de fora tanto do cânon judaico quanto do cristão. No capítulo 13 dessa obra, ela se apresenta a Salomão como um espírito em forma de mulher, com uma cabeça sem membros e o cabelo desgrenhado, que não dorme à noite, faz rondas por todo o mundo, visita mulheres no parto e, quando tem sorte, estrangula a criança. A datação do Testamento é disputada, e o texto é claramente compósito: C. C. McCown, que editou os manuscritos gregos em 1922, defendeu uma compilação do início do século III d.C. incorporando material judaico do século I, enquanto outros estudiosos situam a redação final bem mais tarde, entre os séculos IV e VI. O que chegou até nós vem de manuscritos gregos medievais, mais recentes que boa parte do material que eles recolhem.

O que o Testamento de Salomão diz sobre Abyzou

O capítulo segue o roteiro fixo da obra: Salomão convoca o demônio, pergunta o que ele é e, depois, por qual anjo ele é frustrado. Abyzou responde as duas perguntas e ainda acrescenta, por conta própria, a rotina e o ofício. O nome que ela diz usar entre os homens é Abyzou (nos manuscritos gregos a forma é Ὀβυζούθ, transliterada como Obizuth). A rotina é noturna e sem pausa: ela afirma não poder recolher-se sem sucesso por uma única noite. O ofício é exclusivo, ela declara não ter nenhuma outra obra, e o próprio texto já registra que se trata de um espírito com milhares de nomes e muitas formas. No meio do interrogatório ela ainda provoca Salomão, dizendo que o anel de Deus não fez nada contra ela, o que não muda o desfecho do capítulo.

2 E veio diante de mim um espírito em forma de mulher, que tinha uma cabeça sem membros e seu cabelo estava desgrenhado.

3 E eu, Salomão, fiz como ela me ordenou e me contive por causa da sabedoria que habitava em mim;

4 para que eu pudesse ouvir sobre suas ações, repreendê-las e mostrá-las aos homens.

5 E eu me sentei e disse ao demônio: “O que é você?” E ela disse: “Eu sou chamada entre os homens de Abyzou;

6 e à noite não durmo, mas faço minhas rondas por todo o mundo e visito mulheres no parto.

7 E adivinhando a hora eu tomo minha posição; e se tiver sorte, estrangulo a criança.

8 Mas se não, retiro-me para outro lugar. Pois não posso por uma única noite me aposentar sem sucesso.

9 Pois sou um espírito feroz, com milhares de nomes e muitas formas. E agora aqui, agora eu vago.

12 Porque não tenho outra obra senão destruir crianças, e fazer-lhes surdos os ouvidos, e fazer o mal aos seus olhos,

13 e amarrar-lhes a boca com grilhões, e arruinar-lhes o entendimento, e afligi-los. corpos”.

14 Quando eu, Salomão, ouvi isso, fiquei maravilhado com sua aparência, pois vi todo o seu corpo nas trevas.

15 Mas seu olhar era totalmente brilhante e esverdeado, e seu cabelo estava jogado descontroladamente como o de um dragão;

16 e todos os seus membros eram invisíveis. E sua voz era muito clara quando veio a mim. E eu, astuciosamente disse:

17 “Diga-me por qual anjo você está frustrado, ó espírito maligno?” Ela me respondeu:

18 “Pelo anjo de Deus chamado Afarôt, que é interpretado por Rafael, por quem estou frustrada agora e para sempre.

19 Seu nome, se algum homem souber e escrever o mesmo em uma mulher no parto, não poderei entrar nela.

20 Deste nome, o número é seiscentos e quarenta.”

21 E eu, Salomão, tendo ouvido isso, e tendo glorificado o Senhor, ordenei que seus cabelos fossem presos e que ela fosse pendurada em frente ao Templo de Deus;

Três detalhes valem atenção. Primeiro, o dano que ela lista vai além do estrangulamento: Abyzou reivindica também deixar surdos os ouvidos das crianças, fazer o mal aos seus olhos, amarrar-lhes a boca, arruinar-lhes o entendimento e afligir-lhes os corpos, ou seja, o repertório de deficiências que o mundo antigo não sabia explicar. Segundo, o antídoto é um nome escrito: o anjo Afarôt, que o texto identifica com Rafael, deve ser escrito sobre a mulher em trabalho de parto, e o Testamento ainda informa que o número desse nome é seiscentos e quarenta. A leitura usual é a isopsefia, o procedimento grego de somar os valores numéricos das letras, e de fato as letras de Ῥαφαήλ somam 640. Terceiro, o castigo é físico e específico: Salomão manda prender os cabelos dela e pendurá-la em frente ao Templo, para que os que passassem glorificassem a Deus. O cabelo solto é o traço que a define no verso 2, e prendê-lo é a forma que o relato escolhe para exibi-la dominada.

Abyzou, Obizuth, Gyllou: uma família de nomes

O nome parece uma corruptela do grego ábyssos, o abismo. A. A. Barb, em estudo de 1966 (Antaura. The Mermaid and the Devil's Grandmother, no Journal of the Warburg and Courtauld Institutes), propôs que o próprio ábyssos grego derivaria do acádio apsû ou do sumério abzu, o oceano primordial de água doce da cosmogonia mesopotâmica. A hipótese é influente, mas continua sendo reconstrução: nem todos aceitam o elo semítico, e a explicação corrente deriva ábyssos de composição interna do grego, o prefixo privativo a mais byssós, fundo. O que não está em disputa é que um mesmo tipo de demônio circula sob nomes diferentes, de tradição em tradição, e o próprio Testamento já diz isso ao pôr na boca dela os milhares de nomes.

NomeOnde apareceTraço
Obizuth (Ὀβυζούθ)Manuscritos gregos do Testamento de SalomãoForma do nome na única versão literária antiga que temos dela
Abyzou, ByzouAmuletos e encantamentos gregos, coptas e bizantinosForma difundida na magia protetiva
Gyllou, Gylou, GelloFolclore grego, atestado desde a poesia arcaica, e bizantino; orações de São SisínioMata recém-nascidos e é obrigada a revelar seus nomes secretos
AlabasandriaEgito coptaIdentificação local do mesmo tipo de demônio
LilithTradição judaica pós-bíblicaDemônia noturna associada a partos e recém-nascidos
LamashtuMesopotâmia, 2º e 1º milênios a.C.Filha de Anu; ataca grávidas e lactentes

Lamashtu e um medo bem mais antigo

O tipo não nasceu em Israel nem na Grécia. Ele é mesopotâmico e bem mais velho. Lamashtu, chamada nos encantamentos de filha do deus do céu Anu, toca sete vezes o ventre da grávida, arranca o lactente do peito e o alimenta com leite envenenado. Aparece em encantamentos desde o início do segundo milênio a.C. e em placas de bronze protetivas do primeiro milênio, muitas delas neoassírias, em que o demônio Pazuzu a empurra de volta para o mundo inferior. O site hospeda um texto ainda mais direto: o Épico de Atrahasis, na sua tabuinha final, transforma a mortalidade infantil em decisão administrativa dos deuses depois do dilúvio e institui um demônio para executá-la.

187 Além disso, que haja uma terceira categoria entre os povos:

188 que entre os povos haja mulheres férteis e mulheres que não geram.

189 Que haja entre os povos o demônio Pashittu,

190 para arrebatar o bebê do colo da mãe que o deu à luz.

191 Estabeleça mulheres Ugbabtu, mulheres Entu e mulheres Igisitu,

192 que lhes sejam vedados, e assim cessem o parto.

O que é texto e o que é folclore posterior

Convém separar as camadas, porque a internet costuma misturá-las. Está no Testamento de Salomão: o nome Abyzou, a aparência, a insônia, o estrangulamento, os males sensoriais, o anjo Afarôt identificado com Rafael, o nome escrito sobre a parturiente e o cabelo preso. Não está no Testamento: os amuletos de bronze, São Sisínio, a irmã Melitene e a lista dos "doze nomes e meio". Esse segundo bloco é material bizantino e medieval posterior, atestado em amuletos que trazem a demônia ajoelhada e de mãos atadas, açoitada por uma figura em pé identificada ora com Salomão, ora com o anjo Arlaph (o Afarôt do Testamento), e em orações de São Sisínio conservadas sobretudo em manuscritos gregos tardios, bizantinos e pós-bizantinos. O folclore posterior desenvolveu a receita que o Testamento já tinha dado: obrigar o demônio a dizer seus nomes e escrevê-los para barrar a entrada.

Onde a Bíblia canônica toca no assunto

A Bíblia hebraica e o Novo Testamento não nomeiam nenhum demônio de parto. O texto mais próximo é Isaías 34:14, onde o hebraico traz lilît entre as criaturas que habitam a ruína de Edom; as traduções variam bastante ("animais noturnos", "criatura noturna", "coruja"), e a Lilith que ataca recém-nascidos, tal como a tradição judaica posterior a descreve, é desenvolvimento dessa tradição, não afirmação do profeta. Duas outras passagens compartilham a mesma gramática religiosa, sem que haja dependência literária demonstrável: em Êxodo 12:23, o sangue na porta impede o destruidor de entrar na casa, que é a lógica do amuleto; e em Apocalipse 12:4, um dragão se posta diante da mulher em trabalho de parto para devorar o filho no instante do nascimento.

Fica a pergunta de por que uma figura assim existe em tantas culturas ao mesmo tempo. Parte da resposta é demográfica antes de ser teológica. Estimativas para populações pré-modernas costumam situar a mortalidade no primeiro ano de vida entre 20% e 30%, e a morte da mãe no parto era risco corrente, não exceção. Sem teoria dos germes, sem obstetrícia e sem estatística, a morte súbita de um recém-nascido aparentemente saudável ficava sem causa visível. Abyzou é um nome dado a essa causa ausente, e o amuleto com o nome do anjo não era ornamento vazio para quem o usava: era uma das poucas ações disponíveis a quem estava em trabalho de parto e sabia o que podia acontecer naquela noite.