O anel de Salomão e como ele dominava os demônios

Mão saindo de uma manga clara oferecendo um pequeno anel de ouro, com a pedra de perfil e a gravura gasta e indistinta

No Testamento de Salomão, o anel é um objeto pequeno, com um selo feito de uma pedra gravada, entregue ao rei pelo arcanjo Miguel depois de uma oração feita noite e dia dentro do Templo. Ele funciona por contato: quem arremessa o anel contra o peito de um demônio o prende, e a partir daí o demônio é obrigado a comparecer diante de Salomão, declarar o próprio nome e trabalhar na construção do Templo. Esse anel é a moldura narrativa do livro inteiro. Nada disso aparece em 1 Reis.

A cena que abre o livro: o menino que Ornias sugava

O livro começa com o Templo em obras. Um demônio chamado Ornias aparece ao pôr do sol, no fim da jornada, e passa a tomar metade do salário e metade da comida do filho do mestre de obras. O detalhe que dá o tom do apócrifo inteiro é físico e doméstico: o demônio chupa o polegar da mão direita do menino todos os dias, e o menino definha.

2 Ornias, o demônio, veio entre eles ao pôr do sol; e ele tirou metade do salário do filhinho do mestre de obras, bem como metade de sua comida.

3 Ele também continuou a chupar o polegar da mão direita do menino todos os dias. E a criança ficou magra, embora fosse muito amada pelo rei.

Salomão nota o emagrecimento, interroga o menino e recebe a explicação. A reação dele não é mágica: é oração. O texto diz que ele entrou no Templo e orou com toda a alma, noite e dia, para que o demônio fosse entregue em suas mãos. O anel chega como resposta a essa oração, trazido pelo arcanjo Miguel, e vem com instrução de uso embutida.

3 Ele me trouxe um pequeno anel, tendo um selo consistindo de uma pedra gravada, e disse-me: “Toma, ó Salomão, rei, filho de Davi, o presente que o Senhor Deus te enviou, o exército supremo.

4 Com ela você deve prender todos os demônios da Terra, masculinos e femininos; e com a ajuda deles você edificará Jerusalém. Mas você deve usar este selo de Deus. E esta gravura do selo do anel enviada a você é uma Hexalfa."

Salomão não usa o anel pessoalmente na primeira vez. Ele o entrega ao menino com uma instrução: jogar o anel no peito do demônio e dizer que, em nome de Deus, o rei Salomão o convoca. É o que a criança faz, e o demônio, já preso, oferece o ouro da Terra para ser solto. O menino recusa. A partir daí o texto assume o formato que vai repetir por dezenas de capítulos: o demônio comparece diante do rei e, sob a coação do selo, precisa dizer quem é. No caso de Ornias, o interrogatório passa pelo nome, pelo signo do zodíaco a que ele está sujeito e pelo anjo que o frustra, os mesmos elementos que o prólogo do livro anuncia.

15 E Salomão disse a ele: “Diga-me, ó demônio, a que signo zodiacal você está sujeito.”

16 E ele respondeu: “Para o aguadeiro, Aquário. E aqueles que são consumidos pelo desejo pelas nobres virgens da Terra.

17 Eu estrangulo aqueles que residem em Aquário por causa de sua paixão por mulheres cujo signo zodiacal é Virgem. Mas caso não haja disposição durante o transe, eu me transformo em três formas.

18 Sempre que os homens ficam cativados pelas mulheres, eu me transformo em uma bela mulher; e eu pego os homens durante o sono e brinco com eles.

19 E depois de um tempo eu novamente pego minhas asas e voo para as regiões celestiais. Eu também apareço como um leão e sou comandado por todos os demônios. Além disso, eu sou descendente do arcanjo de Deus e sou frustrado pelo arcanjo Uriel, o Poder de Deus."

O anel, no livro, é menos uma arma e mais um instrumento de extração de informação. É sob a coação dele que os demônios entregam a cosmologia do apócrifo: no capítulo 21, Ornias explica que os demônios sobem ao firmamento, ouvem as sentenças que atingem as almas dos homens e depois caem, porque não têm onde se firmar. O que os homens veem como estrela cadente, diz o demônio, é um demônio despencando.

9 “Diga-me como você pode subir ao céu, sendo demônios, e entre as estrelas e os santos anjos se misturam”.

10 E ele respondeu: “Assim como as coisas são cumpridas no céu, também na Terra se cumprem os tipos de todas elas.

11 Pois existem principados, autoridades, governantes mundiais, e nós, demônios, voamos no ar;

12 e ouvimos as vozes dos seres celestiais e examinamos todos os poderes.

13 E como não temos base para pousar e descansar, perdemos a força e caímos como as folhas das árvores.

14 E os homens, vendo-nos, imaginam que as estrelas estão caindo do céu.

15 Mas não é realmente assim, ó rei; mas caímos por causa de nossa fraqueza e porque não temos nada em que nos agarrar;

16 e assim caímos como um raio no meio da noite e de repente. E incendiamos as cidades e incendiamos os campos.

17 Pois as estrelas têm fundamentos firmes nos céus como o sol e a lua.”

Hexagrama, selo de Salomão e estrela de Davi são três coisas diferentes

O texto descreve a gravura do selo com um termo técnico, e é justamente aí que as traduções divergem. A versão em português que hospedamos traz Hexalfa, "seis alfas", a figura que se obtém sobrepondo seis letras A, ou seja, o hexagrama. Já a tradução inglesa mais citada, feita por F. C. Conybeare em 1898 a partir dos manuscritos gregos, e também a de D. C. Duling na coletânea de Charlesworth, leem nesse ponto pentalpha, "cinco alfas", o pentagrama. A leitura antiga que as edições críticas registram é, portanto, a do pentagrama, e o hexagrama do nosso texto em português é o resultado de uma tradição posterior que já identificava o selo com a estrela de seis pontas. A forma do selo nunca foi estável. O nome "selo de Salomão" como símbolo gráfico com poder sobre espíritos se desenvolve depois, sobretudo na literatura árabe medieval, onde o khatam Sulayman é o anel gravado com o nome de Deus que comanda os jinn; o hexagrama aparece em talismãs islâmicos pelo menos desde o século IX. Boa parte dos pesquisadores sustenta que foi por essa via árabe que o hexagrama entrou na cabala da Espanha medieval, enquanto a versão em pentagrama se firma na magia renascentista ocidental. A identificação popular entre selo de Salomão e estrela de Davi vem daí, e é tardia: o hexagrama só se torna emblema geral do judaísmo na era moderna, e vai para a bandeira de Israel em 1948. Não é um símbolo bíblico, e o Testamento não descreve nada parecido com um brasão nacional.

O que é texto antigo e o que é folclore posterior

FonteDatação aproximadaO que diz sobre o anel ou o selo
1 Reis 4 e 1 Reis 10Texto hebraico; a redação costuma ser situada entre os séculos VII e V a.C., com discussão em abertoNada. Nenhum anel, nenhum demônio, nenhum exorcismo. Salomão é sábio, julga bem e conhece plantas e animais.
Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas VIIIc. 93-94 d.C.Deus capacitou Salomão a aprender a arte que expulsa demônios, e ele compôs encantamentos. O anel citado é o do exorcista Eleazar, e o poder está na raiz que ele traz. Não é um anel de Salomão.
Testamento de SalomãoMaterial antigo provavelmente entre os séculos I e III d.C.; a datação da forma que chegou até nós é disputada, com propostas que vão dos séculos V e VI ao período medievalMiguel entrega o anel com selo de pedra gravada. É a ferramenta que prende, interroga e põe cada demônio a serviço da obra do Templo.
Talmude Babilônico, Gitin 68a-bRedação do Talmude Babilônico entre os séculos V e VII d.C.Salomão envia Benaías, que captura Asmodeu com corrente e anel gravados com o Nome divino, para obter o shamir e construir o Templo. Enredo aparentado, texto independente.
Chave de Salomão (Clavicula Salomonis)Provável origem italiana nos séculos XIV ou XV; maioria dos manuscritos entre os séculos XVI e XVIIIManual prático de conjuração atribuído a Salomão, cheio de pentáculos e selos a desenhar. Não é tradução nem cópia do Testamento.
Chave Menor de Salomão (Lemegeton)Compilado em meados do século XVII, a partir de material mais antigoLista 72 demônios, cada um com seu sigilo. Herdeira distante da ideia de um catálogo salomônico de espíritos, não do texto do Testamento.

Nada disso está em 1 Reis

O Salomão da Bíblia hebraica também exerce um tipo de domínio sobre a criação, mas o vocabulário é outro. A sabedoria dada por Deus se traduz em julgamento justo, em três mil provérbios, em mil e cinco cânticos e em conhecimento de árvores, animais, aves, répteis e peixes. O texto não fala de espíritos submetidos, e o Templo é construído por operários, madeira do Líbano e pedra cortada, não por demônios. Quando o Novo Testamento registra exorcistas judeus itinerantes, tampouco os liga ao anel: a fórmula que aparece ali é o nome de Jesus, e o episódio termina mal para quem a usou como técnica.

O elo mais antigo que sobrevive entre Salomão e o exorcismo não é o apócrifo, e sim Flávio Josefo, que escreve por volta de 93 a 94 d.C. Ele afirma que Deus capacitou Salomão a aprender a arte que expulsa demônios, que o rei compôs encantamentos e deixou registrado o método, e diz ter visto pessoalmente um judeu chamado Eleazar libertar possessos diante de Vespasiano usando um anel que trazia uma raiz das espécies indicadas por Salomão. Vale ler com atenção a diferença: em Josefo o poder está na raiz e nos encantamentos atribuídos a Salomão, o anel é do exorcista, e o rei não aparece prendendo demônio nenhum. O Testamento pega essa tradição já existente e a transforma em enredo, com o anel migrando das mãos de um exorcista do século I para as mãos do próprio rei.

5 A perspicácia e a sabedoria que Deus concedeu a Salomão eram tão grandes que ele superava os antigos, a tal ponto que em nada era inferior aos egípcios, dos quais se diz que estavam acima de todos os homens em entendimento. Aliás, é evidente que a perspicácia deles era muito inferior à do rei. Ele também se sobressaía e se distinguia em sabedoria acima dos hebreus mais eminentes em argúcia naquele tempo. Refiro-me a Etã, Hemã, Calcol e Darda, filhos de Maol. Salomão compôs livros de odes e cânticos, mil e cinco ao todo, e três mil parábolas e comparações. Pois ele criou uma parábola sobre cada tipo de árvore, do hissopo ao cedro, e do mesmo modo também sobre os animais, sobre todo tipo de criatura viva, fosse na terra, nos mares ou no ar. Ele não desconhecia nenhuma de suas naturezas, nem deixava de investigá-las, mas descrevia todas como um filósofo e demonstrava seu conhecimento apurado de suas diversas propriedades. Deus também o capacitou a aprender a arte que expulsa demônios, uma ciência útil e curativa para os homens. Salomão compôs encantamentos que aliviam enfermidades e deixou registrado o modo de empregar exorcismos com os quais se afugentam os demônios, de forma que nunca mais retornem. Esse método de cura tem grande eficácia até hoje. Eu mesmo vi um homem do meu povo, chamado Eleazar, libertar pessoas possuídas por demônios na presença de Vespasiano, de seus filhos, de seus comandantes e de toda a multidão de seus soldados. A cura se dava assim: ele aproximava das narinas do possuído um anel que continha a raiz de uma daquelas espécies mencionadas por Salomão. Em seguida, extraía o demônio pelas narinas, e o homem caía imediatamente. Então Eleazar o conjurava a nunca mais voltar para aquela pessoa, mencionando sempre Salomão e recitando os encantamentos que ele havia composto. Para convencer e demonstrar aos espectadores que possuía tal poder, Eleazar colocava a uma pequena distância um copo ou bacia cheia de água e ordenava ao demônio que, ao sair do homem, a derrubasse, dando assim a saber aos presentes que havia deixado a pessoa. Quando isso acontecia, a habilidade e a sabedoria de Salomão ficavam evidentes. Por essa razão, para que todos conheçam a grandeza das capacidades de Salomão, o quanto ele era amado por Deus, e para que as virtudes extraordinárias de todo tipo de que esse rei era dotado não sejam ignoradas por nenhum povo sob o sol, por essa razão, repito, é que nos estendemos tanto sobre esses assuntos.