Todos os encontros de Jesus com demônios

Espíritos imundos

Os Evangelhos chamam essas entidades de "demônios", "espíritos imundos" ou "espíritos malignos". Eles têm vontade, falam, reconhecem quem é Jesus antes dos próprios discípulos e reagem com medo à presença dele. Não são tratados como metáfora do mal genérico, mas como agentes com identidade.

23 E estava na sinagoga deles um homem com um espírito imundo, o qual exclamou,

24 Dizendo: Ah! que temos contigo, Jesus Nazareno? Vieste destruir-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus.

25 E repreendeu-o Jesus, dizendo: Cala-te, e sai dele.

26 Então o espírito imundo, convulsionando-o, e clamando com grande voz, saiu dele.

O encontro direto: a tentação no deserto

Antes de qualquer exorcismo, os Evangelhos narram o encontro de Jesus com o próprio chefe. Conduzido ao deserto pelo Espírito, ele é tentado por Satanás durante quarenta dias. Aqui não se trata de um espírito imundo qualquer, e sim do adversário em pessoa, que chega a oferecer a Jesus "todos os reinos do mundo" em troca de adoração. Jesus o despede: "Vai-te, Satanás".

Jesus exausto sentado numa pedra no deserto enquanto Satanás se inclina oferecendo uma cidadela
A tentação no deserto: Satanás oferece a Jesus os reinos do mundo.

8 Novamente o transportou o diabo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles.

9 E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares.

10 Então disse-lhe Jesus: Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e a ele servirás.

A cena enquadra todo o resto. Lucas anota que, terminada a tentação, o diabo "ausentou-se dele por algum tempo", deixando claro que o confronto não se encerrou ali. As expulsões de demônios que vêm a seguir são a continuação dessa mesma guerra: Jesus avançando sobre o território de quem lhe oferecera os reinos.

13 E, acabando o diabo toda a tentação, ausentou-se dele por algum tempo.

O catálogo completo

Os Evangelhos sinóticos registram um número considerável de encontros com demônios. A tabela abaixo reúne todos eles, incluindo os casos em que o espírito provoca uma enfermidade. A coluna "tipo" distingue possessão, doença causada por espírito, casos de libertação e as comissões em que Jesus delega a autoridade de expulsar.

EpisódioEvangelhosTipo
Espírito imundo na sinagoga de CafarnaumMc 1:23-28; Lc 4:33-37Possessão
Exorcismos em massa ao anoitecerMt 8:16-17; Mc 1:32-34; Lc 4:40-41Vários
Endemoninhado(s) geraseno(s) e os porcosMt 8:28-34; Mc 5:1-20; Lc 8:26-39Possessão
Filha da mulher siro-feníciaMt 15:21-28; Mc 7:24-30Possessão
Menino com espírito mudo e convulsõesMt 17:14-21; Mc 9:14-29; Lc 9:37-43Doença
Homem mudo endemoninhadoMt 9:32-34Doença
Homem cego e mudo endemoninhadoMt 12:22-24; Lc 11:14Doença
Mulher encurvada havia dezoito anosLc 13:10-17Doença
Maria Madalena, sete demôniosLc 8:2; Mc 16:9Libertação
Autoridade dada aos discípulos e aos setentaMc 6:7,13; Lc 9:1; Lc 10:17-20Comissão

Quando o demônio causa a doença

Os Evangelhos distinguem curar de expulsar, mas há casos em que as duas coisas se sobrepõem. O menino que cai em convulsões e fica mudo é descrito como dominado por um espírito. A mulher encurvada havia dezoito anos é apresentada como tendo um "espírito de enfermidade", e Jesus diz que Satanás a mantinha presa. A possessão aqui se manifesta como doença física.

10 E ensinava no sábado, numa das sinagogas.

11 E eis que estava ali uma mulher que tinha um espírito de enfermidade, havia dezoito anos; e andava curvada, e não podia de modo algum endireitar-se.

12 E, vendo-a Jesus, chamou-a a si, e disse-lhe: Mulher, estás livre da tua enfermidade.

13 E pôs as mãos sobre ela, e logo se endireitou, e glorificava a Deus.

14 E, tomando a palavra o príncipe da sinagoga, indignado porque Jesus curava no sábado, disse à multidão: Seis dias em que é mister trabalhar; nestes, pois, vinde para serdes curados, e não no dia de sábado.

15 Respondeu-lhe, porém, o Senhor, e disse: Hipócrita, no sábado não desprende da manjedoura cada um de vós o seu boi, ou jumento, e não o leva a beber?

16 E não convinha soltar desta prisão, no dia de sábado, esta filha de Abraão, a qual dezoito anos Satanás tinha presa?

17 E, dizendo ele isto, todos os seus adversários ficaram envergonhados, e todo o povo se alegrava por todas as coisas gloriosas que eram feitas por ele.

O silêncio de João

Um fato chama a atenção: o Evangelho de João não narra um único exorcismo. Nele, demônios só aparecem na boca dos adversários, que acusam Jesus de "ter demônio" para desqualificá-lo. É um lembrete de que cada Evangelho tem o seu próprio recorte teológico.