Satanás não expulsa Satanás
A acusação dos escribas era que Jesus expulsava os demônios por Belzebu, o príncipe dos demônios. A resposta de Jesus é, antes de tudo, uma questão de lógica: como poderia Satanás expulsar Satanás? Um reino dividido contra si mesmo não se sustenta, e uma casa dividida desaba. Se Satanás se levanta contra si próprio, está acabado. Expulsar demônios não pode, portanto, ser obra do diabo: é a derrota dele.
22 E os escribas, que tinham descido de Jerusalém, diziam: Tem Belzebu, e pelo príncipe dos demônios expulsa os demônios.
23 E, chamando-os a si, disse-lhes por parábolas: Como pode Satanás expulsar Satanás?
24 E, se um reino se dividir contra si mesmo, tal reino não pode subsistir;
25 E, se uma casa se dividir contra si mesma, tal casa não pode subsistir.
26 E, se Satanás se levantar contra si mesmo, e for dividido, não pode subsistir; antes tem fim.
O exorcismo como sinal do Reino
Para os Evangelhos, expulsar demônios não é um número à parte do ministério de Jesus. É a prova visível de que o Reino de Deus está chegando. A formulação é direta: se ele expulsa os demônios pelo Espírito de Deus, então é chegado o Reino de Deus. Lucas registra a mesma frase com "dedo de Deus", uma alusão ao Êxodo, em que os magos do Faraó reconhecem o poder de Deus nas pragas.
Amarrar o homem forte
À mesma acusação, Jesus acrescenta a imagem que explica o que está fazendo: ninguém saqueia a casa do homem forte sem primeiro amarrá-lo. Cada exorcismo é uma invasão ao território de Satanás, não uma aliança com ele.
27 Ninguém pode roubar os bens do valente, entrando-lhe em sua casa, se primeiro não maniatar o valente; e então roubará a sua casa.
Maior que Salomão
A tradição judaica fez de Salomão o grande mestre de demônios. O apócrifo Testamento de Salomão conta que o arcanjo Miguel lhe entregou um anel com um selo, capaz de prender e comandar os demônios, com os quais Salomão teria erguido o Templo.

2 E aconteceu por meio da minha oração que a graça me foi dada pelo Senhor dos Exércitos por meio de seu arcanjo Miguel.
3 Ele me trouxe um pequeno anel, tendo um selo consistindo de uma pedra gravada, e disse-me: “Toma, ó Salomão, rei, filho de Davi, o presente que o Senhor Deus te enviou, o exército supremo.
4 Com ela você deve prender todos os demônios da Terra, masculinos e femininos; e com a ajuda deles você edificará Jerusalém. Mas você deve usar este selo de Deus. E esta gravura do selo do anel enviada a você é uma Hexalfa."
Essa crença não estava só nos apócrifos. Flávio Josefo, no Livro VIII das Antiguidades Judaicas, escreve como contemporâneo que viu a prática funcionar. Ele afirma que Deus ensinou a Salomão "a arte que expulsa demônios", que o rei compôs encantamentos para aliviar doenças e deixou fórmulas de exorcismo capazes de afugentar os demônios de modo que nunca mais voltassem, e que esse método ainda era usado em seu tempo. Como prova, relata ter presenciado um judeu chamado Eleazar libertar possuídos diante do imperador Vespasiano, de seus filhos e de seus oficiais, aproximando das narinas do endemoninhado um anel que continha uma raiz prescrita por Salomão e recitando o nome do rei e os encantamentos que ele teria composto.
5 A perspicácia e a sabedoria que Deus concedeu a Salomão eram tão grandes que ele superava os antigos, a tal ponto que em nada era inferior aos egípcios, dos quais se diz que estavam acima de todos os homens em entendimento. Aliás, é evidente que a perspicácia deles era muito inferior à do rei. Ele também se sobressaía e se distinguia em sabedoria acima dos hebreus mais eminentes em argúcia naquele tempo. Refiro-me a Etã, Hemã, Calcol e Darda, filhos de Maol. Salomão compôs livros de odes e cânticos, mil e cinco ao todo, e três mil parábolas e comparações. Pois ele criou uma parábola sobre cada tipo de árvore, do hissopo ao cedro, e do mesmo modo também sobre os animais, sobre todo tipo de criatura viva, fosse na terra, nos mares ou no ar. Ele não desconhecia nenhuma de suas naturezas, nem deixava de investigá-las, mas descrevia todas como um filósofo e demonstrava seu conhecimento apurado de suas diversas propriedades. Deus também o capacitou a aprender a arte que expulsa demônios, uma ciência útil e curativa para os homens. Salomão compôs encantamentos que aliviam enfermidades e deixou registrado o modo de empregar exorcismos com os quais se afugentam os demônios, de forma que nunca mais retornem. Esse método de cura tem grande eficácia até hoje. Eu mesmo vi um homem do meu povo, chamado Eleazar, libertar pessoas possuídas por demônios na presença de Vespasiano, de seus filhos, de seus comandantes e de toda a multidão de seus soldados. A cura se dava assim: ele aproximava das narinas do possuído um anel que continha a raiz de uma daquelas espécies mencionadas por Salomão. Em seguida, extraía o demônio pelas narinas, e o homem caía imediatamente. Então Eleazar o conjurava a nunca mais voltar para aquela pessoa, mencionando sempre Salomão e recitando os encantamentos que ele havia composto. Para convencer e demonstrar aos espectadores que possuía tal poder, Eleazar colocava a uma pequena distância um copo ou bacia cheia de água e ordenava ao demônio que, ao sair do homem, a derrubasse, dando assim a saber aos presentes que havia deixado a pessoa. Quando isso acontecia, a habilidade e a sabedoria de Salomão ficavam evidentes. Por essa razão, para que todos conheçam a grandeza das capacidades de Salomão, o quanto ele era amado por Deus, e para que as virtudes extraordinárias de todo tipo de que esse rei era dotado não sejam ignoradas por nenhum povo sob o sol, por essa razão, repito, é que nos estendemos tanto sobre esses assuntos.
Para um leitor judeu do século I, então, dizer que Salomão dominava os demônios não era lenda distante: era saber estabelecido, com técnica, objetos e fórmulas transmitidas em seu nome. É contra esse pano de fundo que o contraste dos Evangelhos ganha força. No mesmo capítulo em que é acusado de operar por Belzebu, Jesus declara que ali está "quem é maior que Salomão". Onde a tradição via Salomão dominando demônios por meio de um anel e de fórmulas, Jesus os expulsa por uma palavra, pelo Espírito de Deus. Não há objeto mágico, não há encantamento.