Três Evangelhos têm. Um não tem.
O dado é bruto e limpo: Marcos abre o ministério de Jesus com um exorcismo na sinagoga de Cafarnaum, e ao longo do texto acumula mais de sete encontros com demônios. Mateus e Lucas têm vários. João, o quarto Evangelho, tem zero. A palavra "demônio" aparece no texto joanino exclusivamente na boca dos adversários de Jesus, como acusação: "tu tens demônio" (Jo 7:20, 8:48, 10:20). Nunca para narrar uma expulsão.
João tem Satanás, mas cósmico
Não é que João ignore o mundo espiritual adversarial. Satanás está presente, mas recebe outro tratamento: é o "príncipe deste mundo" que já foi julgado, que será expulso, que vem mas nada tem em Jesus. O conflito existe, mas se passa em escala cósmica, não no nível do indivíduo possuído. O verbo grego que os sinóticos usam para "expulsar" demônios, ekballo, aparece em João 12:31, mas aplicado ao "príncipe deste mundo" inteiro, não a um espírito imundo específico.
O Logos no versículo 1
O prólogo de João começa com um vocabulário que não é de pescador. "No princípio era o Logos" é uma frase que um leitor de língua grega no primeiro século ouviria ressoar Heráclito, os estoicos e, sobretudo, Fílon de Alexandria, o filósofo judeu helenístico que personificou o Logos como a Razão divina governando o cosmos. João pega esse conceito central da filosofia grega e o identifica com Jesus. Essa é uma escolha de público: quem vai entender isso de imediato não é o camponês galileu. É o leitor formado na paideia grega.
1 No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
14 E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.
Os gnósticos que amaram João
A história da recepção antiga confirma que esse registro era percebido como diferente. Os gnósticos amaram o Evangelho de João. Heracleão, discípulo de Valentino que floresceu por volta de 175 d.C., escreveu sobre João o primeiro comentário bíblico conhecido de toda a história cristã, preservado em fragmentos nas citações de Orígenes. Valentino e seus discípulos citavam o prólogo joanino para ilustrar seus mitos sobre os éons divinos.
A desconfiança foi simétrica. Um grupo do século 2 apelidado pelos heresiólogos de "Alogoi" (literalmente "os contra o Logos") rejeitava tanto o Evangelho de João quanto o Apocalipse e os atribuía ao gnóstico Cerinto. Irineu de Lyon teve que escrever em defesa de João contra cristãos que o achavam contaminado demais pela linguagem gnóstica. Quando os dois lados de uma controvérsia concordam que um texto ressoa próximo do gnosticismo, esse dado não é anacrônico: é a percepção do próprio século 2.
Um Evangelho que declara o que deixou de fora
O próprio João entrega a chave. No final do texto, o autor declara: "muitos outros sinais fez Jesus diante dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro". João não estava ignorante da tradição mais ampla: estava selecionando. Um Evangelho organizado em torno de sete sinais teológicos que culminam em Lázaro saindo do túmulo não precisa mostrar a expulsão de espíritos imundos um a um. Já mostrou o vencedor da própria Morte.
30 Jesus, pois, operou também em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro.
31 Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.