Asmodeu, o demônio que matou os sete maridos de Sara

Cana de junco com o fígado e o fel de um peixe fumegando sobre brasas, cercada de grilhões de ferro abertos e um jarro de barro tombado

Asmodeu é o demônio que, no livro de Tobias, mata os sete maridos de Sara na noite de núpcias, antes que qualquer um dos casamentos fosse consumado. Ele é vencido pela fumaça das vísceras de um peixe queimadas sobre brasas e termina acorrentado pelo anjo Rafael no alto Egito. O caso é raro por um motivo formal: é um demônio com nome próprio dentro de um livro que está na Bíblia católica e nas ortodoxas, mas não na protestante nem no cânon judaico.

8 Ela fora dada sete vezes em casamento, mas Asmodeu, o pior dos demônios, matara seus maridos um após outro, antes que se tivessem unido a ela como esposos. A serva lhe dizia: “És tu que matas teus maridos! foste dada a sete homens e não foste feliz sequer uma vez!

A narrativa é doméstica, não cósmica. Sara mora em Ecbátana, na Média, e é acusada por uma criada de ter matado os próprios maridos. Ela reza pedindo a morte. Tobit, cego em Nínive, reza a mesma coisa na mesma hora. As duas orações sobem juntas e Rafael é enviado com uma dupla missão: curar os olhos de um e libertar a outra. No caminho, um peixe tenta atacar Tobias no Tigre; o anjo manda guardar o fígado, o coração e o fel. O motivo declarado do demônio é ciúme, e o texto é explícito: ele não faz mal a Sara, mata quem se aproxima dela.

13 Tobias respondeu a Rafael: “Azarias, meu irmão, ouvi dizer que ela foi dada a sete maridos e que todos morreram no quarto nupcial, na própria noite em que deviam unir-se a ela. Também ouvi dizer que era um demônio que os matava.

14 Por isso tenho medo: o demônio tem ciúme dela, não lhe faz nenhum mal, porém mata quem queira aproximar-se dela. Sou filho único; se eu morrer, farei descer ao túmulo a vida de meu pai e de minha mãe em consequência de sua tristeza por minha causa. Eles não têm outro filho que lhes sepultura.

15 Respondeu-lhe o anjo: “Não te lembras das recomendações de teu pai, que te mandou tomar como esposa uma mulher da casa de teu pai? Ouve-me, irmão; não tenhas medo desse demônio, desposa-a; sei que esta noite ela te será dada por mulher.

16 Quando entrares no quarto nupcial, toma o fígado e o coração do peixe e coloca-os sobre as brasas do incenso. O cheiro se espalhará e, quando o demônio o respirar, fugirá e nunca mais aparecerá junto dela.

2 Tobias então recordou-se dos conselhos de Rafael e, tirando o coração e o fígado do peixe de dentro da sacola onde os guardara, colocou-os sobre as brasas do incenso.

3 O cheiro do peixe expulsou o demônio, que fugiu para as regiões do alto Egito. Rafael seguiu-o, prendeu-o e acorrentou-o imediatamente.

O nome vem do iraniano antigo. A função, não.

O grego de Tobias escreve Ἀσμοδαῖος (Asmodaios); as formas semíticas posteriores dão אשמדאי (Ashmedai). A derivação hoje majoritária remonta ao avéstico aēšma, "ira", somado a daēva, "demônio", de onde o reconstruído *aēšma-daēva. Vale registrar o que sustenta e o que não sustenta essa reconstrução: Aeshma existe e é bem atestado na literatura zoroástrica como a hipóstase da Fúria, adversário de Sraosha, a Obediência; o composto aēšma-daēva, porém, não aparece em nenhum texto avéstico preservado, e é por isso que os filólogos o escrevem com asterisco. O canal histórico plausível é o contato com o mundo iraniano a partir do período aquemênida, quando comunidades judaicas viveram sob administração persa e vocabulário iraniano entrou no aramaico judaico. A redação de Tobias, porém, já é helenística: boa parte da crítica data o livro no século III ou II a.C.

O limite da inferência importa aqui, porque a literatura popular costuma atravessá-lo. O que é atribuível ao iraniano é o nome, não a função. O Aeshma avéstico é a Ira como princípio abstrato, sem qualquer vínculo com casamento, virgindade ou leito nupcial. O Asmodeu de Tobias não é a ira: ele mata por ciúme de uma mulher específica, dentro de uma trama familiar. Descrever a relação como empréstimo onomástico é preciso; descrevê-la como decalque teológico não é. Há ainda dissidência sobre a própria etimologia. Uma linha minoritária aproxima o nome da raiz semítica š-m-d, "destruir", e a Jewish Encyclopedia (1906) chegou a rejeitar a leitura iraniana com uma objeção fonética: o final -dai de Ashmedai não corresponderia a daēva. O próprio verbete admitia, logo depois, que uma forma mais cheia (algo como Aeshmo-daeus) pode ter existido. A leitura iraniana seguiu majoritária, mas não é unânime.

Onde as traduções brasileiras divergem

Tobias chegou até nós em pelo menos duas formas gregas: uma recensão curta (GI, representada por Vaticano e Alexandrino) e uma longa (GII, do Sinaítico). Os fragmentos de Qumran da Caverna 4 (4Q196-199 em aramaico, 4Q200 em hebraico) em geral apoiam a forma longa, e mostram que o livro circulou em língua semítica antes de qualquer tradução grega. A Vulgata de Jerônimo é um texto latino à parte, mais curto e mais moralizante, e é ela que está por trás da Ave-Maria neste livro; a Aparecida e a Pastoral seguem o texto grego longo. O resultado é que duas Bíblias católicas brasileiras contam a mesma cena com detalhes diferentes, e o leitor que compara sem saber disso conclui que uma delas errou. Nenhuma errou: elas traduzem textos-base distintos. A numeração dos versículos também não bate entre elas, sobretudo no capítulo 6.

DetalheAve-Maria (segue a Vulgata)Aparecida e Pastoral (seguem o grego longo)
Como o demônio é chamado"um demônio chamado Asmodeu" (3:8)"Asmodeu, o pior dos demônios" (3:8, nas duas)
O que se queima no quartosó "uma parte do fígado" do peixe (8:2)o coração e o fígado, sobre o queimador de incenso (8:2)
Quem foge e quem prende"o anjo Rafael tomou o demônio e prendeu-o no deserto do Alto Egito" (8:3)o cheiro expulsa o demônio, que foge ao alto Egito, e Rafael o persegue e o acorrenta (8:3)
A noite de núpciastrês noites de oração e continência antes da união (6:18-22; 8:4)oram juntos e dormem na mesma noite (8:4-9)
Por que o demônio matatem poder sobre os que se casam "banindo Deus" e se entregam à paixão (6:16-17)ciúme declarado na Aparecida ("o demônio tem ciúme dela", 6:14); a Pastoral diz o mesmo sem a palavra ciúme ("mata qualquer um que se aproxime dela", 6:15)

Asmodeu fora de Tobias

O Asmodeu que a cultura popular conhece não vem de Tobias, vem do Testamento de Salomão, obra de datação disputada (as propostas vão do século I ao V d.C., com a maioria dos especialistas entre os séculos I e III e camadas cristãs posteriores). Ali ele é interrogado por Salomão e se apresenta com uma genealogia: nascido da semente de um anjo com uma filha de homem, o mesmo esquema dos Vigilantes de 1 Enoque. Diz que sua estrela brilha no céu e que os homens a chamam de Grande Urso, que sua ocupação é conspirar contra os recém-casados, e confessa dois pontos fracos herdados diretamente de Tobias: o arcanjo Rafael e a fumaça do fígado e do fel de um peixe. Pede para não ser condenado à água e é posto a pisar barro para a construção do Templo.

4 “Mas como devo responder a você, pois você é um filho do homem; desde que nasci da semente de um anjo por uma filha do homem, de modo que nenhuma palavra de nosso tipo celestial dirigida aos nascidos na terra pode ser arrogante.

5 Por esta razão, também minha estrela brilha no céu, e os homens a chamam, alguns de Grande Urso e outros de filho do dragão.

6 Eu me mantenho perto desta estrela. Portanto, não me pergunte muitas coisas; porque o teu reino também daqui a pouco será interrompido, e a tua glória é apenas por um tempo.

7 E sua tirania será curta sobre nós; e então teremos novamente livre arbítrio sobre a humanidade, de modo que eles nos considerarão como se fôssemos deuses, não sabendo, homens que são, os nomes dos anjos colocados sobre nós.”

8 E eu, Salomão, ao ouvir isso, amarrei-o com mais cuidado e ordenei que fosse açoitado com tiras de couro de boi, e que me dissesse humildemente qual era o seu nome e qual era o seu negócio.

9 E ele me respondeu desta forma: “Eu sou chamado Asmodeus entre os mortais, e meu negócio é conspirar contra os recém-casados, para que eles não se amem. E eu os separo completamente por muitas calamidades, e desperdiço a beleza das mulheres virgens, e afasto seus corações.”

10 E eu disse a ele: “Este é o seu único negócio?”

11 E ele me respondeu: “Eu transporto os homens a ataques de loucura e desejo, quando eles têm suas próprias esposas, para que eles as deixem e partam noite e dia para outras que pertencem a outros homens; com o resultado de que eles cometem pecado e caem em atos assassinos.”

12 Mas ele disse: “Por Rafael, o arcanjo que está diante do trono de Deus. Mas o fígado e o fel de um peixe me põem em fuga, ao fumar em brasas de carvão.”

1 ENTÃO eles tomaram esposas, cada um escolhendo por si mesmo; as quais eles começaram a abordar, e com as quais eles coabitaram, ensinando-lhes sortilégios, encantamentos, e a divisão de raízes e árvores.

2 E as mulheres conceberam e geraram gigantes,

17 Eu imploro ao rei Salomão, não me condene a entrar na água”.

18 Mas eu sorri e disse a ele: “Tão certo como vive o Senhor Deus de meus pais, colocarei ferro sobre você para vestir.

19 Mas você também deve fazer o barro para toda a construção do Templo, pisando-o com os pés”.

No Talmude Babilônico, tratado Gitin 68a-b (redação usualmente situada entre os séculos V e VI, com retoques posteriores), Ashmedai já é rei dos demônios e a história se inverte. Salomão precisa dele para obter o shamir, a criatura capaz de cortar pedra sem ferro, e o captura. Ashmedai então engana o rei, toma o trono e o anel, e Salomão passa a vagar de porta em porta repetindo "eu, Coélet, fui rei sobre Israel em Jerusalém". A tradição rabínica ali não está fazendo demonologia sistemática: está lendo a queda de Salomão. Nada disso está em Tobias. Tampouco está em Tobias o Asmodeu dos grimórios tardios: a associação fixa com a luxúria vem da classificação dos sete pecados capitais por Peter Binsfeld (1589), e a figura de três cabeças (touro, homem e carneiro), cauda de serpente e pés palmados de ganso, montada sobre um dragão infernal e com lança e estandarte, é do Ars Goetia, primeiro livro da Lemegeton, compilação do século XVII que circulou sobretudo na edição inglesa de 1904.

Por que Tobias está em umas Bíblias e não em outras

Tobias não consta das listas rabínicas do cânon hebraico. Jerônimo o traduziu, mas nos prólogos o classificou fora dos livros hebraicos; Agostinho e os concílios africanos de Hipona (393) e Cartago (397) o listaram como Escritura. Na Reforma, Lutero o colocou entre os "Apócrifos", úteis e bons de ler mas não equiparados à Escritura, e o Artigo VI dos Trinta e Nove Artigos anglicanos manteve a fórmula: lidos para exemplo de vida e instrução de costumes, não para estabelecer doutrina. Trento (1546) o declarou canônico, e o Sínodo de Jerusalém (1672) fixou a posição ortodoxa. As descobertas de Qumran acrescentaram um dado ao debate sem encerrá-lo: mostraram que o livro circulava em aramaico e em hebraico na Judeia, o que enfraquece o argumento de que os deuterocanônicos seriam composições gregas tardias, mas não decide a questão canônica, que sempre foi de recepção e autoridade, não de língua original. Para o leitor prático, a consequência é simples: se a sua Bíblia não traz Tobias, Asmodeu não aparece nela em lugar nenhum, e os demônios nomeados que restam ali são outros, como Satanás, Belzebu e Abadom, além dos casos disputados de Azazel e Lilith.