O Código de Hamurabi e a Lei de Moisés

Hamurabi recebe a lei de Shamash, o deus-sol da justiça

Uma lei mais antiga que Moisés

O Código de Hamurabi foi gravado numa estela de diorito por volta de 1754 a.C., séculos antes da data tradicional do Êxodo. Encontrado em Susa em 1901, ele traz quase trezentas leis casuísticas, no formato "se um homem fizer X, então Y", o mesmo formato de boa parte das leis de Êxodo, Levítico e Deuteronômio. Várias delas tratam dos mesmos casos.

Olho por olho

A lei de talião, a punição proporcional à ofensa, aparece quase com as mesmas palavras nas duas tradições. Hamurabi manda arrancar o olho de quem arrancou um olho, quebrar o osso de quem quebrou um osso. Êxodo formula "olho por olho, dente por dente".

196 Se um homem arrancar o olho de outro homem, seu olho deve ser arrancado.

197 Se ele quebrar o osso de outro homem, seu osso deve ser quebrado.

23 Mas se houver morte, então darás vida por vida,

24 Olho por olho, dente por dente, mão por mão, por pé,

25 Queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe.

19 Quando também alguém desfigurar o seu próximo, como ele fez, assim lhe será feito:

20 Quebradura por quebradura, olho por olho, dente por dente; como ele tiver desfigurado a algum homem, assim se lhe fará.

Há uma diferença social importante: em Hamurabi, a pena varia conforme a classe da vítima (homem livre, plebeu, escravo), com multas substituindo o talião quando a vítima é de classe inferior. A lei bíblica aplica o talião de forma mais uniforme entre os israelitas livres.

O boi que mata

Um dos paralelos mais exatos é o caso do boi que chifra alguém. As duas leis distinguem o boi que nunca tinha atacado do boi cujo dono já fora avisado do perigo e não o conteve, e agravam a pena no segundo caso.

O falso testemunho

Ambas as leis punem severamente a acusação que não se prova. Hamurabi manda matar quem acusa sem provar; Deuteronômio determina aplicar ao falso acusador a mesma pena que ele queria impor ao inocente.

A lei vem de um deus

As duas tradições legitimam a lei pela origem divina, mas de formas diferentes. No alto da estela, Hamurabi é mostrado recebendo os símbolos do poder de Shamash, o deus-sol da justiça, e o epílogo diz que a justiça lhe foi concedida por esse deus. Na Bíblia, é o próprio Deus que dá a Lei a Moisés no Sinai, escrita em tábuas. Em Hamurabi o rei é o legislador inspirado; em Êxodo a lei é apresentada como dada diretamente por Deus.

CasoCódigo de HamurabiLei de Moisés
TaliãoOlho por olho, osso por osso (varia por classe)Olho por olho, dente por dente
Boi que mataPena maior se o dono foi avisadoBoi apedrejado; dono punido se avisado
Falso testemunhoAcusação não provada: morteMesma pena que se queria impor
Origem da leiRei recebe de ShamashDeus dá a Moisés no Sinai
Distinção de classePenas diferentes por statusMais uniforme entre livres

Hamurabi não foi o primeiro

O Código de Hamurabi é o mais famoso, mas não o mais antigo. Séculos antes dele, códigos sumérios e acádios já traziam as mesmas matérias no mesmo formato casuístico. O Código de Ur-Nammu (c. 2100 a.C.) punia o homicídio com a morte e, curiosamente, resolvia lesões corporais com pagamento em prata, e não com o talião. O Código de Lipit-Ishtar (c. 1930 a.C.) regulava o aluguel de animais e o dano causado a eles. As Leis de Eshnunna (c. 1770 a.C.) traziam o caso do boi que mata, o mesmo que reaparece em Êxodo. A lei bíblica entra numa conversa jurídica que já corria havia mais de um milênio.

1 Se um homem comete assassinato, esse homem deve ser morto.

18 Se um homem arranca o olho de outro homem, pesará meia mina de prata.

34 Se um homem alugou um boi e feriu a carne junto à argola do nariz, ele pagará um terço do preço dele.

53 Se um boi escorneou e matou outro boi, os dois donos dividirão entre si o preço do boi vivo e a carcaça do boi morto.

Perspectivas sobre este tema

Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.

Crítico Histórico

A lei de Israel é elo de uma cadeia jurídica que começa fora e antes de Israel.

O ponto que esta página torna visível é cronológico, e ele é o mais incômodo para a tese da revelação única: o Código de Hamurabi não é o ponto de partida da lei do Antigo Oriente, é o meio dela. Antes de Hamurabi (c. 1754 a.C.) já existiam o Código de Ur-Nammu (c. 2100 a.C., o mais antigo conhecido), o de Lipit-Ishtar e as Leis de Eshnunna. Quando o Código da Aliança de Êxodo aparece, redigido séculos depois, ele entra numa conversa jurídica que já corria há mais de um milênio na Mesopotâmia. A forma casuística (se um homem... então...), a lei de talião, o boi que mata com a distinção entre dono avisado e não avisado, o falso testemunho punido com a pena que o acusador queria infligir: nada disso nasce no Sinai. São lugares-comuns de uma jurisprudência regional compartilhada. Israel herda um vocabulário legal, não o inventa.

A questão acadêmica em aberto não é se há dependência, e sim de que tipo. A posição mais cautelosa, e majoritária, fala em herança difusa: tradições jurídicas cuneiformes transmitidas por escribas ao longo de gerações, do segundo ao primeiro milênio, das quais Israel é um herdeiro tardio. David Wright, em Inventing God's Law (Oxford, 2009), vai bem além: defende dependência literária direta do Código da Aliança em relação às Leis de Hamurabi, com a redação ocorrendo no período neo-assírio, entre cerca de 740 e 640 a.C., justamente quando a Mesopotâmia exercia forte influência sobre Israel e Judá. A tese de Wright é minoritária e contestada, e seria desonesto apresentá-la como consenso. Mas note que ela é a leitura forte de um espectro cujo lado fraco já basta para o que importa aqui: mesmo na versão mais conservadora, a lei mosaica é elo de uma cadeia que começa fora de Israel e antes de Israel.

O paralelo do boi que mata ilustra bem como o texto bíblico trabalha o material recebido. Hamurabi (leis 250-252) responsabiliza o dono do boi reincidente, avisado e negligente, com multa em prata, graduada conforme a vítima fosse homem livre ou escravo. Êxodo 21:28-32 reproduz o cenário com precisão notável, mas troca a multa pela pena de morte do proprietário e, no resto do corpus, tende a aplicar penas mais uniformes entre homens livres, sem a estratificação social explícita do código babilônico. Isso é exatamente o que se espera de adaptação cultural, não de ditado divino: um redator pega um caso jurídico conhecido e o reescreve segundo os valores da própria comunidade. A semelhança prova a fonte comum; a diferença prova a mão humana que edita.

Para a alegação de inerrância e de autoria divina única, o efeito é específico e limitado. A iconografia é eloquente: no topo da estela, Hamurabi recebe os símbolos da justiça das mãos de Shamash, o deus-sol; no Sinai, Deus entrega a Lei a Moisés. O recurso retórico de legitimar um corpo de leis ancorando-o na autoridade de uma divindade é, ele mesmo, uma convenção compartilhada do Antigo Oriente, não uma marca de exclusividade israelita. Nada disso refuta o valor religioso da Torá nem prova que Israel apenas copiou; herdar uma tradição e reformulá-la em torno de uma teologia própria é um ato cultural legítimo. O que a evidência desmonta é uma afirmação mais estreita: a de que a lei israelita teria descido pronta e sem precedente de uma fonte sobrenatural. Um texto que partilha forma, casos e até frases com a literatura jurídica de seus vizinhos mais antigos dificilmente pode ser a revelação sem paralelo que a doutrina da inerrância exige dele.

Apologista Evidencial

Partilhar o gênero jurídico é esperado; igualdade e valor da vida marcam a ruptura.

Comecemos cedendo o terreno difícil, porque ele é real. Os paralelos entre o Código de Hamurabi e o chamado Código da Aliança (Êxodo 20:23 a 23:19) não são vagos nem forçados: o talião de Êxodo 21:23-25 ecoa quase palavra por palavra as cláusulas de Hamurabi sobre olho por olho; a lei do boi que mata, com a distinção entre o dono advertido e o não advertido (Ex 21:28-32), corresponde ao caso babilônico; e o tratamento do falso testemunho em Dt 19:16-19 reproduz a lógica de Hamurabi. A forma é idêntica, a casuística de proposição condicional que estrutura tanto o monumento de basalto achado em Susa em 1901 quanto largas porções de Êxodo, Levítico e Deuteronômio. Negar isso seria desonestidade. A questão honesta não é se há parentesco, mas qual é a sua natureza.

É aqui que a discussão fica interessante, porque os próprios críticos não concordam entre si. David Wright, em Inventing God's Law, defende a tese forte: o Código da Aliança seria uma revisão literária direta de Hamurabi, copiada na fase neo-assíria, trabalho de gabinete e não direito vivido. Mas essa hipótese maximalista é contestada de dentro do próprio campo. Bruce Wells, num debate técnico com Wright, argumenta que a relação se explica melhor por uma tradição jurídica comum do Antigo Oriente Próximo, um repertório regional de fórmulas e casos paradigmáticos compartilhado por Mesopotâmia, Ugarit, hititas e cananeus, sem necessidade de dependência textual de um documento sobre o outro. Se Wells está certo, então a partilha do gênero jurídico é exatamente o que se esperaria de qualquer corpo legal nascido naquele mundo cultural. Falar a gramática jurídica da própria época não compromete a autoria nem a origem de um texto, do mesmo modo que escrever um soneto em decassílabos não torna um poeta plágio de Petrarca.

O ponto decisivo, porém, não está na forma partilhada, mas nas divergências de fundo, e elas são substantivas. Hamurabi gradua a pena pela classe social da vítima: arrancar o olho de um nobre custa o próprio olho, mas o de um plebeu custa prata, e o de um escravo, metade do seu preço. A lei bíblica aplica o talião sem essa estratificação entre os livres e, no caso do escravo ferido pelo senhor, prevê sua libertação (Ex 21:26-27), uma proteção sem paralelo claro no monumento babilônico. Mais radical ainda: Números 35:31 proíbe expressamente aceitar resgate em dinheiro pela vida de um homicida doloso, ele deve morrer, ponto. No mundo de Hamurabi, o homicídio era em larga medida negociável por compensação. Joshua Berman, em Created Equal, lê esse conjunto como uma ruptura deliberada: a Torá articula um ideal igualitário, contra a ordem hierárquica centrada no rei que organizava as sociedades vizinhas. A vida humana vale acima da propriedade, e vale igualmente, porque o pressuposto teológico é a imagem de Deus em cada pessoa.

Some-se a isso a moldura: Hamurabi recebe os símbolos do poder de Shamash e legisla como rei divinizado, dono da lei que promulga para a própria glória. Na narrativa do Sinai, a lei é entregue a Moisés (Ex 24:12) como cláusula de uma aliança entre Deus e um povo inteiro, não decreto de um monarca, e o próprio Israel é parte contratante e responsável. Essa diferença de gênero, do código régio para o tratado de aliança, é teológica antes de ser jurídica. Nada disso prova inspiração divina, e seria petição de princípio fingir que prova: a originalidade ética de um texto é compatível com inspiração, mas também com genialidade humana reformista, e a evidência material não decide entre as duas. O que fica honestamente em aberto é a datação e o canal exato de transmissão das fórmulas partilhadas. O que a evidência não sustenta é a leitura preguiçosa de que a Lei de Moisés seria mera cópia provinciana de Hamurabi. Quem leu os dois textos lado a lado sabe que o devedor partilha a língua, mas diz outra coisa.