O Mito de Aristófanes: a busca da nossa outra metade

A história mais famosa do livro

Aristófanes era poeta cômico, e seu discurso é o mais inesquecível de todos. Em vez de definir o amor, ele conta um mito. No começo, diz, a natureza humana era diferente: havia três sexos, não dois, e cada ser humano era redondo, com quatro braços, quatro pernas, dois rostos. Eram fortes e arrogantes, a ponto de tentar escalar o céu e atacar os deuses.

9 Além disso, a forma inteira de cada ser humano era redonda, com as costas e os lados em círculo. Tinha quatro mãos, e pernas em número igual às mãos, e dois rostos sobre um pescoço redondo, iguais em tudo, com uma cabeça sobre os dois rostos, que ficavam voltados para lados opostos, e quatro orelhas, e dois órgãos sexuais, e todo o resto se imagina a partir disso.

O corte de Zeus

Para puni-los sem destruí-los, Zeus teve uma ideia: cortar cada um ao meio. Assim ficariam mais fracos e mais numerosos. Foi o que fez, e mandou Apolo virar o rosto de cada metade para o lado do corte, para que cada um, vendo a própria ferida, ficasse mais comedido.

15 Agora vou cortar cada um deles em dois, e ao mesmo tempo ficarão mais fracos e mais úteis para nós, por se tornarem mais numerosos. E andarão eretos sobre duas pernas. E se ainda parecerem insolentes e não quiserem ficar quietos, vou cortá-los de novo em dois, e então andarão pulando sobre uma perna só.

Amar é procurar a metade perdida

A partir daí, cada metade passou a viver com saudade da outra, procurando-a, abraçando-a, querendo voltar a ser uma só. É essa saudade, diz Aristófanes, que chamamos de amor: o desejo de reencontrar a parte que nos completa e curar a natureza partida.

23 É de tão longa data, então, que o amor de um pelo outro está plantado nos seres humanos, reunindo a antiga natureza, tentando fazer um de dois e curar a natureza humana.

Aristófanes imagina o deus Hefesto perguntando aos amantes deitados juntos o que eles realmente querem um do outro. A resposta verdadeira, diz ele, não é prazer: é fundir-se com o amado, voltar a ser um só. Daí vem a expressão que a cultura inteira herdou, a "cara-metade".

35 Pois esta é a causa: a nossa antiga natureza era esta, e éramos inteiros. Ao desejo e à busca do inteiro é que se o nome de amor.

Esse quarto degrau explica por que o amor dói: ele é falta, saudade de uma inteireza perdida. É lindo e melancólico. Mas o discurso seguinte tenta o oposto: pintar o amor como pura perfeição, sem nenhuma falta.