O elogio mais bonito e mais frágil
Agatão é o anfitrião, um poeta premiado, e seu discurso é o mais ornamentado de todos. Ele corrige um ponto de método: os outros elogiaram os benefícios que o amor traz, mas ninguém elogiou o próprio deus, dizendo como ele é. Agatão se propõe a descrever a natureza de Eros primeiro.
2 Os que falaram antes de mim, em vez de elogiar o deus Amor ou explicar a sua natureza, parecem ter felicitado os homens pelos benefícios que ele lhes traz. Eu prefiro elogiar primeiro o próprio deus, e só depois falar dos seus dons. Esse é sempre o modo certo de elogiar qualquer coisa.
Jovem, delicado e perfeito
Contra Fedro, que dizia ser Eros o mais antigo dos deuses, Agatão sustenta o contrário: ele é o mais jovem, e jovem para sempre, porque foge da velhice e anda sempre com os jovens. É também o mais delicado, pois habita as almas mais macias, e o mais belo de todos.
3 Posso dizer, sem ser ímpio nem ofender, que de todos os deuses felizes ele é o mais feliz, porque é o mais belo e o melhor. E é o mais belo: para começar, é o mais jovem dos deuses.
Em seguida Agatão atribui a Eros todas as virtudes: justiça, moderação, coragem e sabedoria. O deus não comete nem sofre injustiça, domina todos os prazeres, vence até o deus da guerra e torna poeta qualquer um que toque. Eros, para Agatão, é a perfeição completa.
14 Sobre a beleza do deus já basta isso, embora ainda reste muito a dizer. Agora preciso falar da sua virtude. O maior ponto é que o Amor não comete injustiça nem a sofre, nem em relação a deus nem a homem.
Bonito demais para ser verdade
O discurso encanta a todos, mas tem um defeito que Sócrates vai expor. Agatão pinta o amor como algo que já possui tudo: beleza, bondade, perfeição. Ora, se o amor já tem o belo e o bom, por que ele os desejaria? Esse é exatamente o fio que Sócrates vai puxar para desmanchar todo o elogio.
23 Assim me parece, Fedro: o Amor é, primeiro, em si mesmo, o mais belo e o melhor, e depois é a causa de outras coisas iguais nos demais. Ocorre-me dizer também alguns versos, de que ele é aquele que produz 'paz entre os homens e bonança no mar, repouso dos ventos e sono para quem sofre.'
Esse quinto degrau é o ponto mais alto da visão comum do amor: o amor como perfeição. O próximo orador, Sócrates, vai mostrar que essa visão está de cabeça para baixo, e propor algo muito maior.