O amor é maior que os seres humanos
Erixímaco é médico, e por isso vê o amor de outro lugar. Ele aceita a distinção de Pausânias entre dois amores, mas diz que ela é pequena demais. Esse amor duplo, o saudável e o doentio, não está só na alma humana: está nos corpos de todos os seres vivos, no que brota da terra, em tudo o que existe.
2 Mas a minha arte me ensina ainda mais: que esse amor duplo não está só na alma humana, voltada para o que é belo. Ele está nos corpos de todos os seres vivos, no que brota da terra e, posso dizer, em tudo o que existe.
A harmonia dos opostos
A grande ideia de Erixímaco é que o amor é, no fundo, a força que reconcilia contrários. O bom médico é aquele que sabe pôr em harmonia os elementos opostos do corpo, o quente e o frio, o seco e o úmido, transformando inimigos em amigos. É isso que ele chama de amor: a concórdia entre o que era discorde.
7 O melhor médico é aquele que sabe separar o amor saudável do amor doentio, ou transformar um no outro. Quem sabe extrair e implantar o amor conforme a necessidade, e reconciliar os elementos mais hostis do corpo, tornando-os amigos, esse é um médico habilidoso.
E o que vale para a medicina vale para tudo. A música, diz ele, faz o mesmo: cria harmonia a partir de notas agudas e graves que antes discordavam. A agricultura, as estações do ano, até os ritos religiosos seguem o mesmo princípio de equilibrar o amor bom e refrear o amor desregrado.
13 Do mesmo modo, o ritmo se compõe de elementos rápidos e lentos, que antes diferiam e agora estão em acordo. E esse acordo, que na medicina vem da medicina, na música vem da música, que implanta entre eles o amor e a concórdia. Assim, a música também trata dos princípios do amor aplicados à harmonia e ao ritmo.
Saúde é amor em equilíbrio
Para Erixímaco, saúde, fartura e bom tempo nascem quando os contrários se misturam com equilíbrio; pestes, granizo e doenças nascem quando um amor desregrado domina. O amor, então, é o nome dessa busca de equilíbrio que atravessa o universo inteiro.
18 Também o ciclo das estações está cheio desses dois princípios. Quando os elementos que mencionei, o quente e o frio, o úmido e o seco, alcançam o amor harmonioso entre si e se misturam com equilíbrio, trazem aos homens, aos animais e às plantas saúde e fartura, sem nenhum dano.
Esse terceiro degrau alarga o amor para uma força cósmica. Mas ainda falta dizer por que, no peito humano, esse desejo dói tanto. O próximo orador responde com o mito mais famoso do livro.