História Eclesiástica - Livro III 7
Livro III: a dispersão e a morte dos apóstolos, a queda de Jerusalém, João em Patmos e a formação do cânon do Novo Testamento
É adequado acrescentar a esses relatos a verdadeira predição de nosso Salvador, na qual ele anunciou esses mesmos acontecimentos.
Suas palavras são as seguintes: Ai das que estiverem grávidas e das que amamentarem naqueles dias! Mas orai para que a vossa fuga não aconteça no inverno nem no sábado. Pois haverá então grande tribulação, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem jamais haverá.
O historiador, contabilizando o número total dos mortos, diz que um milhão e cem mil pessoas pereceram pela fome e pela espada, e que o restante dos amotinados e ladrões, traídos uns pelos outros após a tomada da cidade, foram mortos. Mas os mais altos entre os jovens e os que se distinguiam pela beleza foram preservados para o triunfo. Do restante da multidão, os que tinham mais de dezessete anos foram enviados como prisioneiros para trabalhar nas obras do Egito, enquanto outros mais foram dispersados pelas províncias para encontrar a morte nos teatros, pela espada e pelas feras. Os menores de dezessete anos foram levados para serem vendidos como escravos, e só destes o número chegou a noventa mil.
Essas coisas aconteceram desse modo no segundo ano do reinado de Vespasiano, conforme as profecias de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, que por poder divino as viu de antemão como se já estivessem presentes, e chorou e se lamentou, segundo o relato dos santos evangelistas, que registram as próprias palavras que ele proferiu quando, como que dirigindo-se à própria Jerusalém, disse:
Ah, se tu também conhecesses, ao menos neste dia, o que te traria paz! Mas agora isso está oculto aos teus olhos. Pois dias virão sobre ti em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras, e te rodearão, e te apertarão de todos os lados, e te arrasarão por terra, a ti e aos teus filhos.
E então, como que falando a respeito do povo, ele diz: Pois haverá grande aflição na terra e ira contra este povo. E cairão a fio de espada e serão levados cativos para todas as nações. E Jerusalém será pisada pelos gentios, até que se cumpram os tempos dos gentios. E novamente: Quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei então que está próxima a sua desolação.
Se alguém compara as palavras de nosso Salvador com os demais relatos do historiador sobre toda a guerra, como não há de se admirar e reconhecer que a presciência e a profecia de nosso Salvador foram verdadeiramente divinas e maravilhosamente extraordinárias?
Quanto àquelas calamidades, então, que se abateram sobre toda a nação judaica após a paixão do Salvador e após as palavras que a multidão dos judeus proferiu, quando suplicou a libertação do ladrão e assassino, mas rogou que o Príncipe da Vida fosse tirado do meio deles, não é necessário acrescentar nada ao relato do historiador.
Mas pode ser oportuno mencionar também aqueles acontecimentos que demonstraram a benevolência daquela Providência toda boa, que reteve a destruição deles por quarenta anos inteiros após o crime contra Cristo, tempo durante o qual muitos dos apóstolos e discípulos, e o próprio Tiago, o primeiro bispo dali, aquele que é chamado irmão do Senhor, ainda estavam vivos e, habitando na própria Jerusalém, permaneciam como o mais firme baluarte do lugar. Assim a divina Providência ainda se mostrava paciente para com eles, a fim de ver se, pelo arrependimento do que haviam feito, podiam obter perdão e salvação; e, além de tamanha paciência, a Providência também forneceu sinais admiráveis das coisas que estavam prestes a acontecer com eles, caso não se arrependessem.
Já que essas matérias foram consideradas dignas de menção pelo historiador já citado, nada melhor podemos fazer do que recontá-las para proveito dos leitores desta obra.