História Eclesiástica - Livro III 4
Livro III: a dispersão e a morte dos apóstolos, a queda de Jerusalém, João em Patmos e a formação do cânon do Novo Testamento
Que Paulo pregou aos gentios e lançou os fundamentos das igrejas desde Jerusalém e arredores até o Ilírico, fica evidente tanto por suas próprias palavras quanto pelo relato que Lucas deixou nos Atos.
E em quantas províncias Pedro pregou Cristo e ensinou a doutrina da nova aliança aos da circuncisão fica claro por suas próprias palavras na carta dele já mencionada como indiscutível, na qual escreve aos hebreus da dispersão no Ponto, na Galácia, na Capadócia, na Ásia e na Bitínia.
Mas o número e os nomes daqueles que, entre eles, se tornaram seguidores verdadeiros e zelosos dos apóstolos, e foram considerados dignos de cuidar das igrejas por eles fundadas, não é fácil de dizer, exceto os mencionados nos escritos de Paulo.
Pois ele teve inúmeros colaboradores, ou companheiros de armas, como os chamava, e a maioria deles foi honrada por ele com uma lembrança imperecível, pois deu testemunho duradouro a respeito deles em suas próprias cartas.
Lucas também, nos Atos, fala de seus amigos e os menciona pelo nome.
Timóteo, segundo está registrado, foi o primeiro a receber o episcopado da comunidade em Éfeso, e Tito o das igrejas em Creta.
Mas Lucas, que era de origem antioquena e médico de profissão, e que foi especialmente íntimo de Paulo e bem familiarizado com os demais apóstolos, nos deixou, em dois livros inspirados, provas daquela arte espiritual de curar que aprendeu com eles. Um desses livros é o Evangelho, que ele atesta ter escrito conforme lhe transmitiram aqueles que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e ministros da palavra, a todos os quais, segundo ele diz, acompanhou com precisão desde o começo. O outro livro são os Atos dos Apóstolos, que ele compôs não a partir dos relatos de outros, mas a partir do que ele mesmo tinha visto.
E dizem que Paulo costumava referir-se ao Evangelho de Lucas sempre que, como se falasse de algum evangelho próprio, usava as palavras "segundo o meu Evangelho".
Quanto aos demais seguidores dele, Paulo atesta que Crescente foi enviado à Gália. Mas Lino, a quem menciona na Segunda Carta a Timóteo como seu companheiro em Roma, foi o sucessor de Pedro no episcopado da igreja de lá, como já foi mostrado.
Clemente também, que foi nomeado terceiro bispo da igreja em Roma, foi, segundo Paulo atesta, seu colaborador e companheiro de armas.
Além desses, aquele areopagita chamado Dionísio, que foi o primeiro a crer depois do discurso de Paulo aos atenienses no Areópago (como Lucas registra nos Atos), é mencionado por outro Dionísio, antigo escritor e pastor da comunidade em Corinto, como o primeiro bispo da igreja em Atenas.
Mas os acontecimentos ligados à sucessão apostólica relataremos no momento apropriado. Por ora, continuemos o curso da nossa história.