História Eclesiástica - Livro III 32

Livro III: a dispersão e a morte dos apóstolos, a queda de Jerusalém, João em Patmos e a formação do cânon do Novo Testamento

Conta-se que, depois da época de Nero e de Domiciano, sob o imperador cujos tempos estamos agora registrando, levantou-se uma perseguição contra nós em certas cidades, em consequência de uma revolta popular. Nessa perseguição, soubemos que Simeão, filho de Clopas, que, como mostramos, foi o segundo bispo da igreja de Jerusalém, sofreu martírio.
Hegesipo, cujas palavras citamos em vários trechos, é testemunha também desse fato. Falando de certos hereges, ele acrescenta que Simeão foi acusado por eles nesse momento. E, como ficou claro que ele era cristão, foi torturado de várias maneiras durante muitos dias, e deixou o próprio juiz e seus auxiliares profundamente admirados. Por fim, sofreu uma morte semelhante à do nosso Senhor.
Mas nada se compara a ouvir o próprio historiador, que escreve o seguinte: Alguns desses hereges apresentaram acusação contra Simeão, filho de Clopas, alegando que ele era descendente de Davi e cristão. E assim ele sofreu martírio, aos cento e vinte anos de idade, enquanto Trajano era imperador e Ático, governador.
E o mesmo autor diz que os acusadores dele também foram presos, quando se fez busca pelos descendentes de Davi, por pertencerem a essa família. E pode-se razoavelmente supor que Simeão foi um dos que viram e ouviram o Senhor, a julgar pela duração de sua vida e pelo fato de o Evangelho mencionar Maria, mulher de Clopas, que era o pai de Simeão, como foi mostrado.
O mesmo historiador diz que havia ainda outros, descendentes de um dos chamados irmãos do Salvador, cujo nome era Judas, que, depois de terem dado testemunho diante de Domiciano, como foi registrado, em favor da em Cristo, viveram até esse mesmo reinado.
Ele escreve o seguinte: Eles vieram, portanto, e assumiram a liderança de cada igreja como testemunhas e como parentes do Senhor. E, tendo-se estabelecido profunda paz em cada igreja, permaneceram até o reinado do imperador Trajano, e até que o mencionado Simeão, filho de Clopas, tio do Senhor, foi denunciado pelos hereges e ele próprio, da mesma maneira, acusado pela mesma causa diante do governador Ático. E, depois de ser torturado por muitos dias, sofreu martírio, e todos, inclusive o próprio procônsul, ficaram admirados de que, aos cento e vinte anos de idade, ele pudesse suportar tanto. E deram-se ordens para que fosse crucificado.
Além dessas coisas, o mesmo homem, ao narrar os acontecimentos daquele período, registra que a Igreja, até então, havia permanecido uma virgem pura e incorrupta, pois, se havia alguém que tentasse corromper a norma sadia da pregação da salvação, esses se mantinham até então ocultos em densa escuridão.
Mas, quando o sagrado colégio dos apóstolos sofreu a morte sob diversas formas, e a geração dos que haviam sido julgados dignos de ouvir a sabedoria inspirada com os próprios ouvidos se tinha ido, então surgiu a aliança do erro ímpio, como resultado da insensatez dos mestres hereges, que, por não viver mais nenhum dos apóstolos, passaram a tentar, com rosto ousado, proclamar, em oposição à pregação da verdade, o 'conhecimento falsamente assim chamado'.