História Eclesiástica - Livro III 28
Livro III: a dispersão e a morte dos apóstolos, a queda de Jerusalém, João em Patmos e a formação do cânon do Novo Testamento
Compreendemos que por esse tempo Cerinto, autor de outra heresia, apareceu. Caio, cujas palavras citamos acima, na Disputação que lhe é atribuída, escreve assim a respeito desse homem:
Mas Cerinto também, por meio de revelações que finge terem sido escritas por um grande apóstolo, apresenta-nos coisas extraordinárias que ele falsamente alega lhe terem sido mostradas por anjos. E afirma que, depois da ressurreição, o reino de Cristo será estabelecido na terra e que a carne, habitando em Jerusalém, estará novamente sujeita a desejos e prazeres. E, sendo inimigo das Escrituras de Deus, sustenta, com o propósito de enganar os homens, que haverá um período de mil anos de festas de casamento.
E Dionísio, que foi bispo da paróquia de Alexandria em nossos dias, no segundo livro de sua obra Sobre as Promessas, onde diz algumas coisas a respeito do Apocalipse de João que extrai da tradição, menciona esse mesmo homem nas seguintes palavras:
Mas (dizem que) Cerinto, que fundou a seita chamada, em sua homenagem, cerintiana, desejando autoridade respeitável para sua ficção, antepôs aquele nome. Pois a doutrina que ele ensinava era esta: que o reino de Cristo seria terreno.
E, como ele próprio era devotado aos prazeres do corpo e inteiramente sensual em sua natureza, sonhava que aquele reino consistiria nas coisas que desejava, isto é, nos deleites do ventre e da paixão sexual, ou seja, em comer e beber e casar, e em festas e sacrifícios e na imolação de vítimas, sob cuja aparência julgava poder satisfazer seus apetites com mais elegância.
Estas são as palavras de Dionísio. Mas Irineu, no primeiro livro de sua obra Contra as Heresias, registra algumas falsas doutrinas ainda mais abomináveis desse mesmo homem, e no terceiro livro relata uma história que merece ser registrada. Diz ele, com base na autoridade de Policarpo, que o apóstolo João certa vez entrou em uma casa de banhos para se banhar, mas, ao saber que Cerinto estava dentro, saltou do lugar e correu para fora da porta, pois não suportava permanecer sob o mesmo teto que ele. E aconselhou os que estavam com ele a fazerem o mesmo, dizendo: Fujamos, para que a casa de banhos não desabe, pois Cerinto, o inimigo da verdade, está lá dentro.