História Eclesiástica - Livro III 24
Livro III: a dispersão e a morte dos apóstolos, a queda de Jerusalém, João em Patmos e a formação do cânon do Novo Testamento
Inseri aqui este trecho de Clemente em proveito da história e em benefício dos meus leitores. Apontemos agora os escritos incontestes deste apóstolo.
E, em primeiro lugar, seu Evangelho, conhecido por todas as igrejas debaixo do céu, deve ser reconhecido como genuíno. Que ele foi colocado pelos antigos, com boa razão, no quarto lugar, depois dos outros três Evangelhos, pode ser demonstrado da seguinte maneira.
Aqueles grandes e verdadeiramente divinos homens, refiro-me aos apóstolos de Cristo, eram puros em sua vida e adornados de toda virtude da alma, mas eram pouco instruídos no falar. Eram, de fato, confiantes na fé que depositavam no poder divino e operador de maravilhas que lhes fora concedido pelo Salvador, mas não sabiam como, nem tentavam, proclamar as doutrinas de seu mestre em linguagem estudada e artística; ao contrário, valendo-se apenas da demonstração do Espírito divino, que agia com eles, e do poder operador de maravilhas de Cristo, que se manifestava por meio deles, divulgaram o conhecimento do reino dos céus por todo o mundo, dando pouca atenção à composição de obras escritas.
E isso eles faziam porque eram auxiliados em seu ministério por alguém maior do que o homem. Paulo, por exemplo, que os superava a todos no vigor da expressão e na riqueza do pensamento, não pôs por escrito mais do que as mais breves cartas, embora tivesse inúmeros assuntos misteriosos a comunicar, pois havia alcançado até as visões do terceiro céu, fora arrebatado ao próprio paraíso de Deus e fora considerado digno de ouvir ali palavras inefáveis.
E os demais seguidores de nosso Salvador, os doze apóstolos, os setenta discípulos e incontáveis outros além desses, não ignoravam essas coisas. Ainda assim, de todos os discípulos do Senhor, somente Mateus e João nos deixaram registros escritos, e estes, diz a tradição, foram levados a escrever apenas sob a pressão da necessidade.
Pois Mateus, que a princípio pregara aos hebreus, quando estava prestes a ir a outros povos, pôs por escrito seu Evangelho em sua língua nativa, compensando assim aqueles que era obrigado a deixar pela perda de sua presença.
E quando Marcos e Lucas já haviam publicado seus Evangelhos, dizem que João, que empregara todo o seu tempo proclamando o Evangelho oralmente, por fim decidiu escrever pela seguinte razão. Tendo os três Evangelhos já mencionados chegado às mãos de todos, e também às suas próprias, dizem que ele os aceitou e deu testemunho de sua veracidade; mas que faltava neles um relato dos feitos realizados por Cristo no início de seu ministério.
E isso, de fato, é verdade. Pois é evidente que os três evangelistas registraram apenas os feitos realizados pelo Salvador durante um ano após a prisão de João Batista, e indicaram isso no início de seu relato.
Pois Mateus, depois do jejum de quarenta dias e da tentação que o seguiu, indica a cronologia de sua obra quando diz: Ora, quando ouviu que João fora entregue, retirou-se da Judeia para a Galileia.
Marcos, da mesma forma, diz: Ora, depois que João foi entregue, Jesus veio para a Galileia. E Lucas, antes de começar seu relato dos feitos de Jesus, marca de modo semelhante a época, quando diz que Herodes, acrescentando a todos os atos maus que praticara, encerrou João na prisão.
Dizem, portanto, que o apóstolo João, ao ser pedido que o fizesse por essa razão, apresentou em seu Evangelho um relato do período que havia sido omitido pelos evangelistas anteriores, e dos feitos realizados pelo Salvador durante esse período; isto é, daqueles que foram realizados antes da prisão do Batista. E isso é indicado por ele, dizem, nas seguintes palavras: Este princípio de milagres fez Jesus; e novamente, quando se refere ao Batista, em meio aos feitos de Jesus, como ainda batizando em Enom, perto de Salim; onde expõe o assunto com clareza nas palavras: Pois João ainda não fora lançado na prisão.
João, portanto, em seu Evangelho, registra os feitos de Cristo realizados antes que o Batista fosse lançado na prisão, mas os outros três evangelistas mencionam os acontecimentos que se deram depois desse tempo.
Quem entende isso não pode mais pensar que os Evangelhos discordam entre si, visto que o Evangelho segundo João contém os primeiros atos de Cristo, enquanto os outros dão conta da última parte de sua vida. E João bem naturalmente omitiu a genealogia de nosso Salvador segundo a carne, porque ela já havia sido dada por Mateus e Lucas, e começou com a doutrina de sua divindade, a qual havia sido, por assim dizer, reservada para ele, como o superior deles, pelo Espírito divino.
Isto basta sobre o que dissemos a respeito do Evangelho de João. A causa que levou à composição do Evangelho de Marcos já foi exposta por nós.
Mas quanto a Lucas, no início de seu Evangelho, ele mesmo expõe as razões que o levaram a escrevê-lo. Ele declara que, visto que muitos outros haviam empreendido de modo mais precipitado compor uma narrativa dos acontecimentos dos quais ele adquirira pleno conhecimento, ele próprio, sentindo a necessidade de nos livrar das opiniões incertas deles, apresentou em seu próprio Evangelho um relato exato daqueles acontecimentos a respeito dos quais havia aprendido a plena verdade, sendo auxiliado por sua convivência e permanência com Paulo e por sua familiaridade com os demais apóstolos.
Isto basta quanto ao nosso próprio relato dessas coisas. Mas, em lugar mais apropriado, tentaremos mostrar, por meio de citações dos antigos, o que outros disseram a respeito delas.
Mas dos escritos de João, não só seu Evangelho, mas também a primeira de suas cartas foi aceita sem disputa, tanto agora quanto nos tempos antigos. As outras duas, no entanto, são disputadas.
Quanto ao Apocalipse, as opiniões da maioria dos homens ainda estão divididas. Mas, no momento oportuno, esta questão também será decidida a partir do testemunho dos antigos.