História Eclesiástica - Livro III 10
Livro III: a dispersão e a morte dos apóstolos, a queda de Jerusalém, João em Patmos e a formação do cânon do Novo Testamento
Não temos, portanto, uma multidão de livros em desacordo e conflito uns com os outros; mas temos apenas vinte e dois, que contêm o registro de todos os tempos e são justamente tidos como divinos.
Destes, cinco são de Moisés e contêm as leis e a tradição a respeito da origem do homem, e prosseguem a história até a própria morte dele. Esse período abrange quase três mil anos.
Da morte de Moisés até a morte de Artaxerxes, que sucedeu Xerxes como rei da Pérsia, os profetas que vieram depois de Moisés escreveram a história de seus próprios tempos em treze livros. Os outros quatro livros contêm hinos a Deus e preceitos para a regulação da vida dos homens.
Do tempo de Artaxerxes até os nossos dias todos os acontecimentos foram registrados, mas esses relatos não merecem a mesma confiança que depositamos nos que os precederam, porque durante esse tempo não houve uma sucessão exata de profetas.
O quanto somos apegados aos nossos próprios escritos fica claramente demonstrado pelo modo como os tratamos. Pois, embora tão grande período já tenha passado, ninguém se atreveu a acrescentar-lhes ou a tirar-lhes coisa alguma, mas está enraizado em todos os judeus, desde o nascimento, considerá-los os ensinamentos de Deus, ater-se a eles e, se necessário, morrer por eles de bom grado. Essas observações do historiador julguei que poderiam ser introduzidas com proveito neste contexto.
Outra obra de não pequeno mérito foi produzida pelo mesmo escritor, Sobre a Supremacia da Razão, que alguns chamaram de Macabaico, porque contém um relato das lutas daqueles hebreus que combateram com bravura pela verdadeira religião, como se narra nos livros chamados Macabeus.
E ao final do vigésimo livro de suas Antiguidades o próprio Josefo dá a entender que tinha o propósito de escrever uma obra em quatro livros a respeito de Deus e de sua existência, segundo as opiniões tradicionais dos judeus, e também a respeito das leis, do porquê de elas permitirem certas coisas enquanto proíbem outras. E o mesmo escritor também menciona, em suas próprias obras, outros livros escritos por ele mesmo.
Além dessas coisas, é apropriado citar também as palavras que se encontram no encerramento de suas Antiguidades, em confirmação do testemunho que extraímos de seus relatos. Naquela passagem ele ataca Justo de Tiberíades, que, como ele próprio, havia tentado escrever uma história dos acontecimentos contemporâneos, sob a alegação de que não escrevera com veracidade. Tendo apresentado muitas outras acusações contra o homem, ele continua com estas palavras:
Eu, de fato, não tive medo em relação aos meus escritos como você teve, mas, pelo contrário, apresentei meus livros aos próprios imperadores quando os acontecimentos estavam quase diante dos olhos dos homens. Pois eu tinha consciência de que havia preservado a verdade em meu relato, e por isso não me decepcionei na expectativa de obter o testemunho deles.
E apresentei minha história também a muitos outros, alguns dos quais estiveram presentes na guerra, como, por exemplo, o rei Agripa e alguns de seus parentes.
Pois o imperador Tito desejava tanto que o conhecimento dos acontecimentos fosse comunicado aos homens unicamente por minha história, que endossou os livros com a própria mão e ordenou que fossem publicados. E o rei Agripa escreveu sessenta e duas cartas atestando a veracidade do meu relato. Dessas cartas Josefo anexa duas. Mas isto basta a respeito dele. Prossigamos agora com a nossa história.