Da Hierarquia Celeste 13

Prossigamos o nosso caminho e examinemos porque é que se diz que um dos teólogos recebeu a visita de um Serafim.
Notemos que Serafim é um anjo da primeira ordem, das mais antigas essências celestes, o qual desce para purificar o profeta.
“Voou para mim um dos Serafins, o qual trazia na mão uma brasa viva, que tinha tomado do altar com uma tenaz”.
Alguns intérpretes respondem que em virtude da definição dada aos nomes que se atribuem em comum a todas as inteligências, as Sagradas Escrituras não afirmam que a inteligência que desce para purificar o teólogo pertence a essa ordem superior que se situa próxima a Deus, mas que se trata de um dos anjos que nos são designados a título de ministro sagrado encarregado da purificação do profeta.
Seria um desses anjos que teria recebido por semelhança o nome de Serafim, em virtude da operação que realiza apagando pelo fogo os pecados que as Sagradas Escrituras enumeram e restabelecendo na obediência de Deus aquele que tinha sido purificado.
Assim, segundo esse estudo minucioso, as Sagradas Escrituras falando simplesmente de Serafim não designam uma dessas inteligências que se situam nas proximidades de Deus, mas designam outras das potências purificadoras que nos são dedicadas.
Um outro estudioso oferece uma solução referente a isso para nos tirar desse embaraço.
Esse grande mensageiro, que aparece ao teólogo para iniciá-lo nos segredos divinos, “relatou” a Deus e depois à hierarquia primordial a santidade da sua própria operação purificadora.
O estudioso que assim falava, afirmava que a potência divina se difunde por todo lado e penetra todas as coisas de modo irresistível, permanecendo misteriosa não somente pela sua total e sobreessencial transcendência, mas ainda pelo mistério pelo qual envolve todas as suas operações providenciais.
Portanto, está claro que a potência divina se revela a quem quer que seja dotado de inteligência e que esteja à medida de suas capacidades receptoras.
Tendo doado sua própria luz às essências mais antigas, ela usa em seguida o serviço dessas mesmas essências para transmitir essa mesma luz de modo harmonioso às essências de ordem inferior, segundo a aptidão visionária de cada ordem.
Por outro lado, se preferirmos uma expressão mais clara com imagens mais adequadas temos: a difusão do raio solar atravessa mais facilmente a primeira matéria que é mais transparente que todas as outras.
Através dessa matéria o seu próprio esplendor brilha de modo mais visível, mas quando se depara com matérias mais opacas a sua potência de difusão se obscurece, porque as matérias penetradas resistem pela sua própria natureza à passagem da efusão luminosa e esta resistência aumenta progressivamente ao ponto de quase impedir inteiramente a passagem do raio luminoso.
Pela mesma razão, o calor do fogo transmite-se melhor nos corpos que são mais aptos a recebê-lo e que pelo seu movimento interno de ascensão se aproximam mais da sua semelhança, mas logo que se aproxima de substâncias refratárias a sua chama permanece sem efeito ou pelo menos não deixa mais do que um ligeiro traço.
O melhor ainda é dizer: o fogo não atua sobre substâncias que não têm afinidade com ele a não ser por intermédio de corpos familiarizados, de modo a fazer o fogo chegar aos objetos inflamáveis e somente em seguida através deles aquecer a água ou outra substância rebelde à combustão.
É através dessa lei harmoniosa que rege toda a natureza, que o Princípio maravilhoso de toda a ordem visível e invisível manifesta originalmente por efusões benfeitoras a chama da sua própria luz às essências superiores, que por seu intermédio aquelas que vêm depois delas participam na luz divina.
Com efeito, essas essências que confessam Deus em primeiro lugar e que tendem mais que todas as outras para a virtude divina, merecem ser as primeiras na imitação divina.
São elas que na sua bondade distribuem generosamente às ordens inferiores esse esplendor que as penetra, que por sua vez as distribuem às outras subordinadas.
É assim que gradativamente a que precede, distribui à seguinte a luz divina que ela própria recebeu, a qual se distribui providencialmente sobre todas as essências à medida das suas capacidades.