Da Hierarquia Celeste 12
Vejamos um outro problema que é colocado a quem quer que se envolva no estudo escriturístico minucioso: Uma vez que as últimas ordens não participam inteiramente nas ordens superiores, porque é que os grandes sacerdotes da hierarquia humana recebem nas Sagradas Escrituras o título de anjos do Senhor Todo Poderoso?
“Porque os lábios dos sacerdotes serão os guardas da ciência; da sua boca se há de aprender a lei, porque ele é o anjo do Senhor dos exércitos”.
Creio que o uso desse termo não contradiz as definições dadas até o momento.
Quando se diz que às inteligências da terceira ordem falta a inteira potência, integral e sublime que pertence às ordens mais antigas, entende-se que elas participam na medida de suas forças numa comunhão única e universal, harmoniosa e sintética.
Assim é, por exemplo, que se a ordem dos Querubins participa numa sabedoria mais elevada, as legiões formadas de essências inferiores participam também na sabedoria, mas de forma mais parcial.
A participação geral na sabedoria é a característica comum a todas as inteligências que vivem em conformidade com Deus.
O que não é comum é o caráter mais ou menos imediato e primordial dessa participação, grau que se define para cada essência na medida de suas próprias capacidades.
Essa verdade pode ser aplicada sem risco a todas as inteligências divinas, porque assim como as primeiras ordens possuem as propriedades de suas subordinadas, também as últimas possuem as propriedades das suas superiores, não do mesmo modo, mas de modo inferior.
Eu não vejo inconveniente que um grande sacerdote da hierarquia humana seja chamado de anjo pelos teólogos, porque ele participa segundo a sua própria capacidade no papel de intérprete dos anjos e na medida de suas possibilidades tende a imitar o seu poder revelador.
Notaremos, que a teologia concede o título de deuses às essências celestes e chama também “deuses” aos homens que se distinguem pelo seu amor a Deus e pela sua santidade: “Jacó pôs àquele lugar o nome de Fanuel, dizendo: Eu vi a Deus face a face, e a minha alma foi salva”.
“E o Senhor disse a Moisés: Eis que Te constituí deus do faraó, e Arão, teu irmão, será teu profeta”.
“Eu disse: Sois deuses”.
Ora, o mistério divino é transcendente; o seu caráter sobreessencial separa-o de todas as coisas e nenhum ser vivo merece em propriedade ser nomeado do mesmo modo.
Toda a inteligência que tende integralmente ― no máximo da sua potência ― para a união com Deus e que se eleva incessantemente tanto quanto pode para as iluminações divinas imitando o próprio Deus, se isso se pode dizer à medida de suas forças, então merece bem o título de divina.