Contra as Heresias - Livro II 1

Refutacao dos gnosticos pela razao

Há um só Deus, criador de todas as coisas

No primeiro livro, que vem logo antes deste, expondo o conhecimento que falsamente se diz tal, mostrei a ti, meu caríssimo amigo, que todo o sistema inventado, de muitas e opostas maneiras, pelos que pertencem à escola de Valentim, é falso e sem fundamento. Apresentei também as doutrinas dos seus predecessores, provando que eles não divergiam entre si, mas havia muito tempo tinham se afastado da própria verdade. Expliquei ainda, com toda a diligência, tanto a doutrina quanto a prática de Marcos, o mago, pois ele também pertence a esse grupo; e assinalei com cuidado as passagens que eles distorcem das Escrituras, com o intuito de adaptá-las às suas próprias invenções. Além disso, narrei em detalhe o modo como, por meio de números e das vinte e quatro letras do alfabeto, eles ousadamente se esforçam por estabelecer aquilo que tomam por verdade. Relatei também como eles pensam e ensinam que toda a criação foi formada à imagem do seu Pleroma invisível, e o que sustentam a respeito do Demiurgo, declarando ao mesmo tempo a doutrina de Simão Mago de Samaria, seu progenitor, e a de todos os que o sucederam. Mencionei, ainda, a multidão de gnósticos que dele provêm, e assinalei os pontos de diferença entre eles, suas várias doutrinas e a ordem de sua sucessão, expondo todas as heresias que tiveram nele a sua origem. Mostrei, além disso, que todos esses hereges, surgidos a partir de Simão, introduziram nesta vida doutrinas ímpias e irreligiosas; e expliquei a natureza da redenção que pregam, e o método com que iniciam aqueles que tornam perfeitos, junto com suas invocações e seus mistérios. Provei também que um Deus, o Criador, e que ele não é fruto de defeito algum, nem coisa alguma acima dele ou depois dele. No presente livro, estabelecerei os pontos que se ajustam ao meu propósito, na medida em que o tempo permitir, e derrubarei, por meio de um tratamento extenso sob títulos distintos, todo o sistema deles; razão pela qual, sendo este escrito uma denúncia e uma demolição das opiniões deles, assim intitulei a composição desta obra. Pois convém, por uma revelação clara e pela demolição das suas conjunções, pôr fim a essas alianças ocultas, e ao próprio Bythos, e obter assim a demonstração de que ele jamais existiu em tempo algum anterior, nem agora tem existência.
É próprio, então, que eu comece pelo primeiro e mais importante tema, isto é, Deus, o Criador, que fez o céu e a terra e tudo o que neles (a quem esses homens blasfemamente chamam de fruto de um defeito), e que eu demonstre que não coisa alguma acima dele nem depois dele; nem que ele criou todas as coisas movido por alguém, mas por sua própria livre vontade, visto que ele é o único Deus, o único Senhor, o único Criador, o único Pai, sozinho contendo todas as coisas e ele mesmo ordenando que todas viessem a existir. Pois como poderia haver qualquer outra Plenitude, ou Princípio, ou Poder, ou Deus acima dele, que é de necessidade que Deus, a Plenitude (o Pleroma) de todas essas coisas, contenha todas as coisas em sua imensidão e não seja contido por ninguém? Mas se algo além dele, então ele não é a Plenitude de tudo, nem contém tudo. Pois aquilo que eles declaram estar além dele faltará à Plenitude, ou, em outras palavras, àquele Deus que está acima de todas as coisas. Mas aquilo que falta e que de algum modo fica aquém não é a Plenitude de todas as coisas. Nesse caso, ele teria tanto princípio quanto meio e fim, em relação aos que estão além dele. E se ele tem um fim em relação ao que está abaixo, tem também um princípio em relação ao que está acima. Do mesmo modo, absoluta necessidade de que ele experimente exatamente a mesma coisa em todos os demais pontos, e seja retido, limitado e cercado pelas existências que estão fora dele. Pois aquele ser que é o fim para baixo necessariamente circunscreve e cerca aquele que nele encontra o seu fim. E assim, segundo eles, o Pai de todos (isto é, aquele a quem chamam de Proón e Proarqué), com o seu Pleroma, e o deus bom de Marcião, está estabelecido e encerrado em algum outro, e é cercado por fora por outro Ser poderoso, que necessariamente de ser maior, visto que aquilo que contém é maior do que aquilo que é contido. Mas então aquilo que é maior é também mais forte, e Senhor em maior grau; e aquilo que é maior, e mais forte, e Senhor em maior grau, de ser Deus. Ora, que existe, segundo eles, também algo mais que declaram estar fora do Pleroma, no qual ainda sustentam que desceu aquele poder superior que se desgarrou, é de todo modo necessário que o Pleroma ou contenha aquilo que está além, sendo ele mesmo contido (pois de outro modo não estará além do Pleroma; porque, se algo além do Pleroma, haverá um Pleroma dentro deste mesmo Pleroma que eles declaram estar fora do Pleroma, e o Pleroma será contido por aquilo que está além; e com o Pleroma se entende também o primeiro Deus); ou então eles devem estar separados um do outro por uma distância infinita, a saber, o Pleroma e aquilo que está além dele. Mas se sustentam isso, haverá então um terceiro tipo de existência, que separa por sua imensidão o Pleroma e aquilo que está além dele. Esse terceiro tipo de existência, portanto, limitará e conterá os dois outros, e será maior tanto do que o Pleroma quanto do que aquilo que está além dele, visto que contém ambos no seu seio. Desse modo, a conversa poderia prosseguir para sempre a respeito do que é contido e do que contém. Pois se essa terceira existência tem o seu princípio acima e o seu fim abaixo, absoluta necessidade de que seja também limitada nos lados, começando ou cessando em certos outros pontos, onde novas existências começam. Estas, por sua vez, e outras que estão acima e abaixo, terão os seus princípios em certos outros pontos, e assim por diante ao infinito; de modo que os seus pensamentos jamais repousariam em um Deus, mas, em consequência de buscarem mais do que existe, vagariam para aquilo que não tem existência, e se afastariam do verdadeiro Deus. Estas observações aplicam-se, do mesmo modo, contra os seguidores de Marcião. Pois os dois deuses deles também serão contidos e circunscritos por um intervalo imenso que os separa um do outro. Mas então haverá necessidade de supor uma multidão de deuses separados uns dos outros por uma distância imensa em todos os lados, começando uns nos outros e terminando uns nos outros. Assim, por esse mesmo processo de raciocínio do qual dependem para ensinar que um certo Pleroma ou Deus acima do Criador do céu e da terra, qualquer um que queira empregá-lo pode sustentar que outro Pleroma acima do Pleroma, e acima deste ainda outro, e acima de Bythos outro oceano de Divindade, enquanto, do mesmo modo, as mesmas sucessões valem para os lados; e assim, escorrendo a doutrina deles para a imensidão, haverá sempre a necessidade de conceber outros Pleromas e outros Bythos, de modo a nunca em tempo algum parar, mas sempre continuar buscando outros além dos mencionados. Além disso, ficará incerto se estes que concebemos estão abaixo, ou se são, na verdade, eles mesmos as coisas que estão acima; e, do mesmo modo, ficará duvidoso, quanto às coisas que eles dizem estar acima, se realmente estão acima ou abaixo; e assim as nossas opiniões não terão conclusão fixa nem certeza, mas necessariamente vagarão em busca de mundos sem limites e de deuses que não se podem contar. Sendo assim as coisas, então, cada divindade se contentará com o que possui e não se moverá por curiosidade alguma a respeito dos assuntos das outras; do contrário seria injusta e gananciosa, e deixaria de ser aquilo que Deus é. Cada criação, também, glorificará o seu próprio fazedor e se contentará com ele, não conhecendo nenhum outro; do contrário seria com toda justiça julgada apóstata por todas as demais, e receberia um castigo bem merecido. Pois é necessário ou que haja um Ser que contenha todas as coisas, e que tenha formado no seu próprio território todas as coisas que foram criadas, segundo a sua própria vontade; ou então que haja numerosos criadores e deuses sem limite, que começam uns dos outros e terminam uns nos outros em todos os lados; e então será necessário admitir que todos os demais sejam contidos por fora por algum que seja maior, e que cada um deles esteja encerrado no seu próprio território e nele permaneça. Nenhum deles todos, portanto, é Deus. Pois faltará muito a cada um deles, possuindo, como de possuir, apenas uma parte pequeníssima quando comparada a todo o restante. O nome do Onipotente será assim posto fim, e tal opinião necessariamente cairá na impiedade.
Os que dizem, ademais, que o mundo foi formado por anjos, ou por qualquer outro fazedor, contra a vontade daquele que é o Pai Supremo, erram, antes de tudo, neste ponto mesmo: que sustentam que anjos formaram uma criação tão grande e tão poderosa, contra a vontade do Deus Altíssimo. Isso implicaria que os anjos eram mais poderosos do que Deus; ou, se não, que ele ou foi descuidado, ou inferior, ou não deu atenção alguma àquilo que se passava entre as suas próprias posses, quer desse mal quer bem, de modo a poder afastar e impedir uma coisa, ao passo que louvaria e se alegraria com a outra. Mas se ninguém atribuiria tal conduta nem mesmo a um homem de alguma habilidade, quanto menos a Deus! A seguir, que nos digam se estas coisas foram formadas dentro dos limites contidos por ele, no seu próprio território, ou em regiões pertencentes a outros e situadas além dele. Mas se disserem que foram feitas além dele, então todos os absurdos mencionados os enfrentarão, e o Deus Supremo será encerrado por aquilo que está além dele, no qual também será necessário que ele encontre o seu fim. Se, por outro lado, foram feitas dentro do seu próprio território, será muito tolo dizer que o mundo foi assim formado dentro do seu próprio território, contra a sua vontade, por anjos que estão eles mesmos sob o seu poder, ou por qualquer outro ser, como se ele próprio não contemplasse todas as coisas que se passam entre as suas próprias posses, ou não estivesse ciente das coisas a serem feitas pelos anjos. Se, contudo, as coisas referidas foram feitas não contra a sua vontade, mas com o seu consentimento e conhecimento, como alguns desses homens pensam, então os anjos, ou o Formador do mundo, quem quer que tenha sido, não serão a causa dessa formação, mas sim a vontade de Deus. Pois se ele é o Formador do mundo, ele também fez os anjos, ou ao menos foi a causa da sua criação; e será considerado como tendo feito o mundo aquele que preparou as causas da sua formação. Embora eles sustentem que os anjos foram feitos por uma longa sucessão para baixo, ou que o Formador do mundo brotou do Pai Supremo, como afirma Basílides, ainda assim aquilo que é a causa das coisas que foram feitas será sempre rastreado até aquele que foi o Autor de tal sucessão. O caso é o mesmo no que toca ao êxito na guerra, que se atribui ao rei que preparou aquilo que é a causa da vitória; e, do mesmo modo, a criação de qualquer estado, ou de qualquer obra, se atribui àquele que preparou os materiais para a realização dos resultados que depois vieram a acontecer. Por isso não dizemos que foi o machado que cortou a madeira, ou a serra que a dividiu; mas com toda propriedade se diria que cortou e dividiu a madeira o homem que formou o machado e a serra para esse fim, e que também formou, em data muito mais antiga, todas as ferramentas pelas quais o próprio machado e a própria serra foram formados. Com justiça, portanto, segundo um processo análogo de raciocínio, o Pai de todos será declarado o Formador deste mundo, e não os anjos, nem qualquer outro suposto formador do mundo, senão aquele que foi o seu Autor e que antes fora a causa do preparo para uma criação deste tipo. Esse modo de falar talvez seja plausível ou persuasivo para os que não conhecem a Deus, e que o assemelham a seres humanos carentes, e àqueles que não podem fazer coisa alguma de imediato e sem auxílio, mas precisam de muitos instrumentos para produzir o que pretendem. Mas não será de modo algum tido por provável pelos que sabem que Deus não tem necessidade de nada, e que ele criou e fez todas as coisas pelo seu Verbo, sem precisar de anjos que o ajudassem na produção das coisas que são feitas, nem de poder algum muito inferior a si mesmo e ignorante do Pai, nem de defeito ou ignorância alguma, para que aquele que viesse a conhecê-lo se tornasse homem. Mas ele mesmo, em si mesmo, de um modo que não podemos descrever nem conceber, predestinando todas as coisas, formou-as como lhe aprouve, concedendo harmonia a todas, e atribuindo a cada uma o seu lugar e o princípio de sua criação. Desse modo conferiu às coisas espirituais uma natureza espiritual e invisível, às coisas supracelestes uma natureza celeste, aos anjos uma natureza angélica, aos animais uma natureza animal, aos seres que nadam uma natureza apropriada à água, e aos que vivem na terra uma adequada à terra; a todos, em suma, uma natureza conveniente ao caráter da vida que lhes foi designada; ao passo que formou todas as coisas que foram feitas pelo seu Verbo, que nunca se cansa. Pois esta é uma particularidade da preeminência de Deus: não ter necessidade de outros instrumentos para a criação das coisas que são chamadas à existência. O seu próprio Verbo é ao mesmo tempo apropriado e suficiente para a formação de todas as coisas, assim como João, o discípulo do Senhor, declara a respeito dele: Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Ora, entre as todas as coisas de estar abrangido o nosso mundo. Ele também, portanto, foi feito pelo seu Verbo, como a Escritura nos conta no livro de Gênesis, que ele fez pelo seu Verbo todas as coisas ligadas ao nosso mundo. Davi também exprime a mesma verdade quando diz: Pois ele falou, e elas foram feitas; ele ordenou, e elas foram criadas. A quem, portanto, havemos de crer quanto à criação do mundo: a esses hereges que foram mencionados, que tagarelam de modo tão tolo e incoerente sobre o assunto, ou aos discípulos do Senhor, e a Moisés, que foi tanto fiel servo de Deus quanto profeta? Ele, de início, narrou a formação do mundo com estas palavras: No princípio Deus criou o céu e a terra, e todas as demais coisas em sucessão; mas nem deuses nem anjos tiveram parte alguma na obra. Ora, que este Deus é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, Paulo, o apóstolo, também declarou, dizendo: um Deus, o Pai, que está acima de tudo, e através de todas as coisas, e em todos nós. provei, na verdade, que um Deus; mas o demonstrarei ainda mais a partir dos próprios apóstolos e dos discursos do Senhor. Pois que espécie de conduta seria a nossa, se abandonássemos as palavras dos profetas, do Senhor e dos apóstolos, para dar atenção a esses homens, que não falam uma palavra de bom senso?
O Bythos, portanto, que eles concebem com o seu Pleroma, e o deus de Marcião, são incoerentes. Se, de fato, como afirmam, ele tem algo subjacente e além de si mesmo, a que dão o nome de vacuidade e sombra, então esse vácuo se prova maior do que o Pleroma deles. Mas é incoerente até fazer esta afirmação: que, enquanto ele contém todas as coisas dentro de si, a criação foi formada por algum outro. Pois é de todo necessário que eles reconheçam um certo tipo de existência vazia e caótica (abaixo do Pleroma espiritual) na qual este universo foi formado, e que o Propátor de propósito tenha deixado esse caos como estava, ou conhecendo de antemão o que nele havia de acontecer, ou ignorando-o. Se ele realmente o ignorava, então Deus não terá presciência de todas as coisas. Mas eles, nem mesmo nesse caso, conseguirão apontar uma razão pela qual ele deixou esse lugar vazio durante tão longo período de tempo. Se, de novo, ele tem presciência, e contemplou mentalmente aquela criação que estava prestes a ter existência naquele lugar, então ele mesmo a criou, ele que também a formou de antemão, idealmente, em si mesmo. Que cessem, portanto, de afirmar que o mundo foi feito por algum outro; pois, tão logo Deus formou uma concepção em sua mente, também foi feito aquilo que assim concebera mentalmente. Pois não era possível que um Ser formasse mentalmente a concepção, e outro de fato produzisse as coisas que por ele tinham sido concebidas em sua mente. Mas Deus, segundo esses hereges, concebeu mentalmente ou um mundo eterno ou um temporal, suposições que não podem ambas ser verdadeiras. Contudo, se ele o tivesse concebido mentalmente como eterno, espiritual e visível, ele também teria sido formado assim. Mas se foi formado tal como de fato é, então o fez assim aquele que o tinha concebido mentalmente como tal; ou ele quis que existisse na idealidade do Pai, segundo a concepção de sua mente, tal como é agora: composto, mutável e transitório. Sendo, pois, exatamente tal como o Pai o tinha formado, idealmente, em conselho consigo mesmo, ele de ser digno do Pai. Mas afirmar que aquilo que foi concebido mentalmente e pré-criado pelo Pai de todos, exatamente como foi de fato formado, é fruto de defeito e produção de ignorância, é tornar-se culpado de grande blasfêmia. Pois, segundo eles, o Pai de todos será assim considerado como gerando em seu seio, segundo a sua própria concepção mental, as emanações de defeito e os frutos de ignorância, que as coisas que ele havia concebido em sua mente foram de fato produzidas.
A causa, então, de tal dispensação por parte de Deus é que se deve investigar; mas a formação do mundo não se deve atribuir a nenhum outro. E de todas as coisas se deve dizer que foram de tal modo preparadas por Deus de antemão, que viessem a ser feitas tais como foram feitas; mas sombra e vacuidade não se devem invocar à existência. Mas de onde, pergunto eu, veio essa vacuidade de que eles falam? Se de fato foi produzida por aquele que, segundo eles, é o Pai e Autor de todas as coisas, então ela é tanto igual em honra quanto aparentada com os demais Éons, talvez até mais antiga do que eles. Ademais, se procedeu da mesma fonte de onde procederam eles, de ser semelhante em natureza àquele que a produziu, bem como àqueles junto com os quais foi produzida. Haverá, portanto, absoluta necessidade tanto de que o Bythos de que falam, junto com Sige, seja semelhante em natureza a um vácuo, isto é, que ele realmente seja um vácuo; quanto de que os demais Éons, sendo irmãos da vacuidade, também sejam destituídos de substância. Se, por outro lado, ela não foi assim produzida, então deve ter brotado de si mesma e por si mesma ter sido gerada, e nesse caso será igual em idade àquele Bythos que é, segundo eles, o Pai de todos; e assim a vacuidade será da mesma natureza e da mesma honra que aquele que é, segundo eles, o Pai universal. Pois ela necessariamente ou foi produzida por alguém, ou gerada por si mesma e brotada de si mesma. Mas se, na verdade, a vacuidade foi produzida, então o seu produtor Valentim é também um vácuo, assim como o são igualmente os seus seguidores. Se, de novo, ela não foi produzida, mas gerada por si mesma, então aquilo que realmente é um vácuo é semelhante, e irmão, e da mesma honra que aquele Pai que foi proclamado por Valentim; ao passo que é mais antiga, datando a sua existência de um período muito anterior, e mais exaltada em honra do que os demais Éons do próprio Ptolomeu, e de Heracleão, e de todos os outros que sustentam as mesmas opiniões. Mas se, levados ao desespero quanto a esses pontos, eles confessam que o Pai de todos contém todas as coisas, e que não absolutamente nada fora do Pleroma (pois é de absoluta necessidade que, havendo algo fora dele, isso seja limitado e circunscrito por algo maior do que si mesmo), e que falam do que está fora e do que está dentro em referência ao conhecimento e à ignorância, e não com respeito a distância local; mas que, no Pleroma, ou nas coisas que são contidas pelo Pai, toda a criação que sabemos ter sido formada, tendo sido feita pelo Demiurgo, ou pelos anjos, é contida pela grandeza indizível, como o centro está em um círculo, ou como uma mancha está numa veste: então, em primeiro lugar, que espécie de ser deve ser esse Bythos, que permite que uma mancha tenha lugar no seu próprio seio, e consente que outro crie ou produza dentro do seu território, contra a sua própria vontade? Tal modo de agir de fato acarretaria a acusação de degeneração sobre todo o Pleroma, visto que ele poderia, desde o princípio, ter eliminado aquele defeito, e aquelas emanações que dele tiraram a sua origem, e não ter consentido em permitir a formação da criação seja em ignorância, seja em paixão, seja em defeito. Pois aquele que pode depois retificar um defeito, e que, por assim dizer, lava uma mancha, poderia, em data muito mais antiga, ter cuidado de que nenhuma mancha dessas, nem mesmo no princípio, se encontrasse entre as suas posses. Ou, se no princípio ele permitiu que as coisas que foram feitas fossem como são, que de fato não podiam ser formadas de outro modo, então segue-se que elas devem permanecer sempre na mesma condição. Pois como é possível que aquelas coisas que não podem, no princípio, obter retificação, depois venham a recebê-la? Ou como podem os homens dizer que são chamados à perfeição, quando os próprios seres que são as causas das quais os homens derivam a sua origem, seja o próprio Demiurgo, seja os anjos, são declarados como existindo em defeito? E se, como se sustenta, o Ser Supremo, por ser benigno, finalmente se compadeceu dos homens e lhes concedeu a perfeição, ele deveria, antes, ter se compadecido daqueles que foram os criadores do homem, e ter conferido a eles a perfeição. Desse modo, os homens também teriam de fato participado da sua compaixão, sendo formados perfeitos por aqueles que eram perfeitos. Pois se ele se compadeceu da obra desses seres, ele deveria, muito antes, ter se compadecido deles mesmos, e não os ter deixado cair em uma cegueira tão terrível. A conversa deles, também, sobre sombra e vacuidade, na qual sustentam que foi formada a criação de que tratamos, será reduzida a nada, se as coisas referidas foram criadas dentro do território contido pelo Pai. Pois, se eles sustentam que a luz do seu Pai é tal que enche todas as coisas que estão dentro dele, e a todas ilumina, como pode existir qualquer vácuo ou sombra dentro daquele território que é contido pelo Pleroma e pela luz do Pai? Pois, nesse caso, cabe-lhes apontar algum lugar dentro do Propátor, ou dentro do Pleroma, que não seja iluminado nem possuído por ninguém, e no qual ou os anjos ou o Demiurgo formaram o que bem entenderam. E não será pequena a quantidade de espaço em que se pode conceber que tenha sido formada uma criação tão grande. Haverá, portanto, absoluta necessidade de que, dentro do Pleroma, ou dentro do Pai de quem falam, eles concebam algum lugar vazio, sem forma e cheio de trevas, no qual foram formadas aquelas coisas que foram formadas. Por tal suposição, contudo, a luz do seu Pai incorreria em censura, como se ele não pudesse iluminar e encher as coisas que estão dentro de si mesmo. Assim, então, quando sustentam que essas coisas foram fruto de defeito e obra de erro, eles, além disso, introduzem defeito e erro dentro do Pleroma e no seio do Pai.
As observações, portanto, que fiz pouco servem de resposta aos que afirmam que este mundo foi formado fora do Pleroma, ou sob um deus bom; e tais pessoas, junto com o Pai de quem falam, ficarão de todo cortadas daquilo que está fora do Pleroma, no qual, ao mesmo tempo, é necessário que finalmente repousem. Em resposta, de novo, aos que sustentam que este mundo foi formado por certos outros seres dentro daquele território contido pelo Pai, todos os pontos agora assinalados se apresentarão expondo os seus absurdos e incoerências; e eles serão obrigados ou a reconhecer todas as coisas que estão dentro do Pai como lúcidas, plenas e ativas, ou a acusar a luz do Pai como se ele não pudesse iluminar todas as coisas; ou então, sendo descrita assim uma porção do seu Pleroma, será preciso confessar que o todo dele é vazio, caótico e cheio de trevas. E eles acusam todas as demais coisas criadas como se fossem meramente temporais, ou, na melhor das hipóteses, se eternas, ao menos materiais. Mas estes, os Éons, deveriam ser tidos como fora do alcance de tais acusações, que estão dentro do Pleroma; do contrário as acusações em questão recairão igualmente sobre todo o Pleroma; e assim o Cristo de quem falam se revela autor da ignorância. Pois, segundo as afirmações deles, quando ele tinha dado uma forma, no que toca à substância, à Mãe que concebem, ele a lançou para fora do Pleroma; isto é, cortou-a do conhecimento. Aquele, portanto, que a separou do conhecimento, na verdade produziu nela a ignorância. Como, então, poderia uma e mesma pessoa conceder o dom do conhecimento aos demais Éons, aos que eram anteriores a ele na produção, e ainda assim ser o autor da ignorância em sua Mãe? Pois ele a colocou fora dos limites do conhecimento quando a lançou para fora do Pleroma. Ademais, se eles explicam o estar dentro e fora do Pleroma como implicando, respectivamente, conhecimento e ignorância, como fazem alguns deles (já que quem tem conhecimento está dentro daquilo que conhece), então eles necessariamente hão de admitir que o próprio Salvador (a quem chamam de Todas as Coisas) estava num estado de ignorância. Pois sustentam que, ao sair para fora do Pleroma, ele deu forma à sua Mãe Acamoth. Se, então, afirmam que tudo o que está fora do Pleroma ignora todas as coisas, e se o Salvador saiu para dar forma à sua Mãe, então ele se achava fora dos limites do conhecimento de todas as coisas; isto é, estava em ignorância. Como, então, poderia ele comunicar-lhe conhecimento, quando ele mesmo estava fora dos limites do conhecimento? Pois nós também, eles declaram, estamos fora do Pleroma, visto que estamos fora do conhecimento que eles possuem. E ainda mais: se o Salvador realmente saiu para além do Pleroma a fim de buscar a ovelha que se perdera, mas o Pleroma equivale ao conhecimento, então ele se colocou fora dos limites do conhecimento, isto é, em ignorância. Pois é necessário ou que eles admitam que o que está fora do Pleroma o está em sentido local, e nesse caso todas as observações feitas se levantarão contra eles; ou então, se falam do que está dentro em referência ao conhecimento, e do que está fora em referência à ignorância, então o seu Salvador, e o Cristo muito antes dele, devem ter sido formados em ignorância, que saíram para além do Pleroma, isto é, para além dos limites do conhecimento, a fim de dar forma à sua Mãe. Estes argumentos podem, do mesmo modo, ser adaptados para confrontar o caso de todos os que, de qualquer maneira, sustentam que o mundo foi formado ou por anjos ou por qualquer outro que não o verdadeiro Deus. Pois as acusações que eles trazem contra o Demiurgo, e contra aquelas coisas que foram feitas materiais e temporais, recairão de fato sobre o Pai; se, de fato, as próprias coisas que foram formadas no seio do Pleroma de fato começaram, pouco a pouco, a se dissolver, de acordo com a permissão e a boa vontade do Pai. O Criador imediato, então, não é o Autor real desta obra, pensando, como pensava, que a formava muito boa, mas sim aquele que permite e aprova as produções do defeito, e as obras do erro, tendo lugar entre as suas próprias posses, e que coisas temporais se misturem com as eternas, corruptíveis com incorruptíveis, e as que participam do erro com as que pertencem à verdade. Se, contudo, essas coisas foram formadas sem a permissão ou aprovação do Pai de todos, então aquele Ser de ser mais poderoso, mais forte e mais real, que fez essas coisas dentro de um território que pertence propriamente a ele (o Pai), e o fez sem a sua permissão. Se, de novo, como alguns dizem, o Pai deles permitiu essas coisas sem aprová-las, então ele deu a permissão por causa de alguma necessidade, sendo ou capaz de impedir tal procedimento, ou incapaz. Mas se de fato não pôde impedi-lo, então ele é fraco e impotente; ao passo que, se pôde, então é um sedutor, um hipócrita e um escravo da necessidade, visto que não consente com tal curso e, no entanto, o permite como se consentisse. E permitindo que o erro surgisse no princípio e fosse aumentando, ele se esforça, em tempos posteriores, por destruí-lo, quando muitos pereceram miseravelmente por causa do defeito original. Não é digno, contudo, dizer daquele que é Deus sobre tudo, que ele é livre e independente, que foi escravo da necessidade, ou que algo se passa com a sua permissão, mas contra o seu desejo; do contrário eles farão a necessidade maior e mais real do que Deus, que aquilo que tem mais poder é superior a todo o resto. E ele deveria, desde o início, ter cortado as causas da pretensa necessidade, e não ter permitido que fosse forçado a ceder a essa necessidade, ao permitir qualquer coisa além daquilo que lhe convinha. Pois teria sido muito melhor, mais coerente e mais digno de Deus cortar no início o princípio desse tipo de necessidade do que depois, como que movido por arrependimento, esforçar-se por extirpar os resultados da necessidade quando estes tivessem chegado a tal desenvolvimento. E se o Pai de todos é escravo da necessidade e deve ceder ao destino, ao passo que tolera de vontade as coisas que se fazem, mas é ao mesmo tempo impotente para fazer qualquer coisa em oposição à necessidade e ao destino (como o Júpiter de Homero, que diz, a respeito da necessidade: De boa vontade te dei, mas com a mente contrariada), então, segundo esse raciocínio, o Bythos de quem falam se revelará escravo da necessidade e do destino.
Como, ainda, poderiam os anjos, ou o Criador do mundo, ter ignorado o Deus Supremo, vendo que eram propriedade dele, e criaturas dele, e contidos por ele? Ele poderia, de fato, ser invisível a eles por causa da sua superioridade, mas de modo algum poderia lhes ser desconhecido por causa da sua providência. Pois, embora seja verdade, como eles declaram, que estavam muito longe dele por causa da sua inferioridade de natureza, ainda assim, como o domínio dele se estendia sobre todos eles, cabia-lhes conhecer o seu Soberano, e estar cientes em particular disto: que aquele que os criou é Senhor de tudo. Pois, que a sua essência invisível é poderosa, ela confere a todos uma profunda intuição e percepção mental da sua poderosíssima, sim, onipotente grandeza. Por isso, embora ninguém conheça o Pai senão o Filho, nem o Filho senão o Pai, e aqueles a quem o Filho o quiser revelar, ainda assim todos os seres conhecem ao menos este único fato: porque a razão, implantada em suas mentes, os move e lhes revela a verdade de que um Deus, o Senhor de tudo. E por essa razão todas as coisas foram, por consenso geral, postas sob o domínio daquele que é chamado de Altíssimo e Todo-poderoso. Invocando-o, mesmo antes da vinda de nosso Senhor, os homens eram salvos tanto dos espíritos mais perversos quanto de toda espécie de demônios, e de toda sorte de poder apóstata. Isso se dava não como se os espíritos terrenos ou os demônios o tivessem visto, mas porque conheciam a existência daquele que é Deus sobre tudo, à invocação de quem eles tremiam, assim como treme toda criatura, e principado, e poder, e todo ser dotado de energia sob o seu governo. A título de paralelo: não saberão muito bem aqueles que vivem sob o império dos romanos, embora jamais tenham visto o imperador, mas estejam muito separados dele tanto por terra quanto por mar, quando experimentam o seu domínio, quem é que possui o poder principal no estado? Como poderia então ser que aqueles anjos que nos eram superiores em natureza, ou mesmo aquele a quem chamam de Criador do mundo, não conhecessem o Todo-poderoso, quando até os animais mudos tremem e se sujeitam à invocação do seu nome? E assim como, embora não o tenham visto, ainda assim todas as coisas estão sujeitas ao nome de nosso Senhor, assim também devem estar sujeitas ao nome daquele que fez e estabeleceu todas as coisas pela sua palavra, que não foi outro senão ele quem formou o mundo. E por essa razão até os judeus, ainda hoje, põem os demônios em fuga por meio dessa mesma adjuração, visto que todos os seres temem a invocação daquele que os criou. Se, então, eles recuam de afirmar que os anjos são mais irracionais do que os animais mudos, hão de constatar que cabia a estes, ainda que não tivessem visto aquele que é Deus sobre tudo, conhecer o seu poder e a sua soberania. Pois parecerá de fato ridículo se eles sustentarem que eles mesmos, que habitam sobre a terra, conhecem aquele que é Deus sobre tudo, a quem nunca viram, mas não admitirem que aquele que, segundo a opinião deles, os formou e formou o mundo inteiro, embora habite nas alturas e acima dos céus, conheça aquelas coisas com as quais eles mesmos, embora habitem embaixo, estão familiarizados. A menos que talvez sustentem que Bythos vive no Tártaro, abaixo da terra, e que por essa razão chegaram ao conhecimento dele antes daqueles anjos que têm a sua morada no alto. Assim eles se precipitam em tal abismo de loucura, a ponto de declarar o Criador do mundo destituído de entendimento. São de fato dignos de pena, que, com tamanha insensatez, afirmam que ele (o Criador do mundo) não conhecia nem a sua Mãe, nem a semente dela, nem o Pleroma dos Éons, nem o Propátor, nem o que eram as coisas que ele fez; mas que estas são imagens daquelas coisas que estão dentro do Pleroma, tendo o Salvador trabalhado secretamente para que fossem assim formadas pelo inconsciente Demiurgo, em honra das coisas que estão acima.
Enquanto o Demiurgo estava assim ignorante de todas as coisas, eles nos dizem que o Salvador conferiu honra ao Pleroma pela criação que chamou à existência por meio de sua Mãe, visto que produziu semelhanças e imagens das coisas que estão acima. Mas eu mostrei que era impossível que algo existisse além do Pleroma (região externa na qual nos dizem que foram feitas imagens das coisas que estão dentro do Pleroma), ou que este mundo tenha sido formado por algum outro que não o Deus Supremo. Mas é coisa agradável derrubá-los por todos os lados e prová-los vendedores de falsidade; digamos, em oposição a eles, que se essas coisas foram feitas pelo Salvador em honra das que estão acima, à semelhança delas, então caberia que sempre perdurassem, para que as coisas que foram honradas continuassem perpetuamente em honra. Mas se de fato elas passam, de que serve esse período tão breve de honra, uma honra que num momento não tinha existência alguma, e que de novo virá a nada? Nesse caso, provarei que o Salvador é antes alguém que aspira à vanglória do que alguém que honra as coisas que estão acima. Pois que honra podem as coisas que são temporais conferir às que são eternas e duram para sempre? Ou as que passam às que permanecem? Ou as corruptíveis às incorruptíveis? que, mesmo entre os homens, que são eles próprios mortais, não se valor àquela honra que logo passa, mas à que perdura tanto quanto pode. as coisas que, tão logo são feitas, chegam ao fim, podem antes, com justiça, ser tidas como formadas para o desprezo das que se supõem honradas por elas; e aquilo que é eterno é tratado com afronta quando a sua imagem é corrompida e dissolvida. Mas o que seria, se a Mãe deles não tivesse chorado, nem rido, nem caído no desespero? O Salvador não teria então possuído meio algum de honrar a Plenitude, visto que aquele último estado de confusão dela não tinha substância própria com a qual pudesse honrar o Propátor. Ai da honra da vanglória, que num instante passa e não aparece! Haverá algum Éon em cujo caso não se julgará que tal honra tenha sequer tido existência, e então as coisas que estão acima ficarão sem honra; ou será necessário produzir mais uma vez outra Mãe chorando e em desespero, para a honra do Pleroma. Que imagem dissemelhante, e ao mesmo tempo blasfema! Vocês me dizem que uma imagem do Unigênito foi produzida pelo formador do mundo, a quem, por sua vez, vocês querem que se considere o Nous (mente) do Pai de todos, e ainda assim sustentam que essa imagem ignorava a si mesma, ignorava a criação, ignorava também a Mãe, ignorava tudo o que existe e as coisas que foram feitas por ela; e não se envergonham, enquanto, em oposição a vocês mesmos, atribuem ignorância até ao próprio Unigênito? Pois se essas coisas de baixo foram feitas pelo Salvador à semelhança das que estão acima, ao passo que ele (o Demiurgo), que foi feito segundo tal semelhança, estava em tão grande ignorância, segue-se necessariamente que, em torno daquele e de acordo com aquele à semelhança de quem foi formado o que assim é ignorante, existe espiritualmente a ignorância em questão. Pois não é possível, que ambos foram produzidos espiritualmente, e nem moldados nem compostos, que em alguns a semelhança fosse preservada, ao passo que em outros a semelhança da imagem foi estragada, aquela imagem que aqui foi produzida para que fosse segundo a imagem daquela produção que está acima. Mas se ela não é semelhante, a acusação recairá então sobre o Salvador, que produziu uma imagem dissemelhante, sendo, por assim dizer, um artífice incompetente. Pois está fora do poder deles afirmar que o Salvador não tinha a faculdade de produzir, que o chamam de Todas as Coisas. Se, então, a imagem é dissemelhante, ele é um péssimo artífice, e a culpa recai, segundo a hipótese deles, sobre o Salvador. Se, por outro lado, ela é semelhante, então a mesma ignorância se constatará existir no Nous (mente) do seu Propátor, isto é, no Unigênito. O Nous do Pai, nesse caso, ignorava a si mesmo; ignorava também o Pai; ignorava, ademais, as próprias coisas que foram formadas por ele. Mas se ele tem conhecimento, segue-se necessariamente também que aquele que foi formado à semelhança dele pelo Salvador deveria conhecer as coisas que lhe são semelhantes; e assim, segundo os próprios princípios deles, a sua monstruosa blasfêmia é derrubada. Fora isso, no entanto, como podem aquelas coisas que pertencem à criação, variadas, múltiplas e inumeráveis como são, ser as imagens daqueles trinta Éons que estão dentro do Pleroma, cujos nomes, tais como esses homens os fixam, eu apresentei no livro que precede este? E não serão incapazes de adaptar a vasta variedade da criação como um todo à pequenez relativa do seu Pleroma, mas não conseguirão fazê-lo nem mesmo com respeito a uma única parte dela, seja a possuída pelos seres celestes, seja a dos terrestres, seja a dos que vivem nas águas. Pois eles mesmos atestam que o seu Pleroma consiste em trinta Éons; mas qualquer um se proporá a mostrar que, num departamento dos seres criados que foram mencionados, eles contam não trinta, mas muitos milhares de espécies. Como, então, podem aquelas coisas que constituem uma criação tão multiforme, que são opostas em natureza umas às outras, e discordam entre si, e destroem umas às outras, ser as imagens e semelhanças dos trinta Éons do Pleroma, se de fato, como declaram, estes, sendo possuidores de uma natureza, são de propriedades iguais e semelhantes, e não exibem diferença alguma entre si? Pois caberia, se essas coisas são imagens daqueles Éons, visto que declaram que alguns homens são maus por natureza e outros, por outro lado, naturalmente bons, apontar tais diferenças também entre os seus Éons, e sustentar que alguns deles foram produzidos naturalmente bons, ao passo que outros eram naturalmente maus, para que a suposição da semelhança dessas coisas se harmonizasse com os Éons. Ademais, que no mundo algumas criaturas que são mansas, e outras que são ferozes, algumas que são inofensivas, ao passo que outras são nocivas e destroem as demais; algumas têm a sua morada na terra, outras na água, outras no ar e outras no céu; do mesmo modo, eles são obrigados a mostrar que os Éons possuem tais propriedades, se de fato umas são as imagens das outras. E além disso: o fogo eterno que o Pai preparou para o diabo e os seus anjos, eles deveriam mostrar de qual daqueles Éons que estão acima ele é a imagem; pois ele também é contado como parte da criação. Se, contudo, disserem que essas coisas são as imagens da Enthymesis daquele Éon que caiu em paixão, então, antes de tudo, agirão de modo ímpio contra a sua Mãe, ao declará-la a causa primeira de imagens más e corruptíveis. E então, de novo, como podem aquelas coisas que são múltiplas, e dissemelhantes, e contrárias em sua natureza, ser as imagens de um e mesmo Ser? E se disserem que os anjos do Pleroma são numerosos, e que aquelas coisas que são muitas são as imagens destes, nem desse modo o relato que dão será satisfatório. Pois, em primeiro lugar, eles ficam então obrigados a apontar diferenças entre os anjos do Pleroma, mutuamente opostas umas às outras, assim como as imagens que existem embaixo são de natureza contrária entre si. E então, de novo, que muitos, sim, inumeráveis anjos que cercam o Criador, como todos os profetas reconhecem dizendo, por exemplo: Dez mil vezes dez mil estavam diante dele, e muitos milhares de milhares o serviam; então, segundo eles, os anjos do Pleroma terão como imagens os anjos do Criador, e toda a criação permanece à imagem do Pleroma, de modo que os trinta Éons não correspondem à multiforme variedade da criação. Mais ainda, se essas coisas de baixo foram feitas à semelhança das de cima, à semelhança de quê, por sua vez, serão feitas aquelas então? Pois se o Criador do mundo não formou essas coisas diretamente da sua própria concepção, mas, como um arquiteto sem habilidade, ou um menino recebendo a sua primeira lição, as copiou de arquétipos fornecidos por outros, então de onde o Bythos deles obteve as formas daquela criação que ele primeiro produziu? Segue-se claramente que ele deve ter recebido o modelo de algum outro que está acima dele, e este, por sua vez, de outro. E nem por isso a conversa sobre imagens, como sobre deuses, deixará de se estender ao infinito, se não fixarmos de imediato a nossa mente em um Artífice e em um Deus, que de si mesmo formou as coisas que foram criadas. Ou será mesmo o caso que, no tocante a meros homens, se admitirá que tenham por si mesmos inventado o que é útil para os fins da vida, mas não se concederá àquele Deus que formou o mundo que de si mesmo criou as formas das coisas que foram feitas e lhes imprimiu o seu arranjo ordenado? Mas, de novo, como podem essas coisas de baixo ser imagens das de cima, que são de fato contrárias a elas e em nenhum aspecto podem ter afinidade com elas? Pois as coisas que são contrárias umas às outras podem de fato ser destruidoras daquelas a que são contrárias, mas de modo algum podem ser as suas imagens; como, por exemplo, a água e o fogo; ou, de novo, a luz e as trevas, e outras coisas tais, nunca podem ser as imagens umas das outras. Do mesmo modo, nem podem aquelas coisas que são corruptíveis, e terrenas, e de natureza composta, e transitórias, ser as imagens das que, segundo esses homens, são espirituais; a menos que se admita que as próprias espirituais sejam compostas, limitadas no espaço e de forma definida, e assim não espirituais, e difusas, e espalhadas em vasta extensão, e incompreensíveis. Pois elas necessariamente hão de possuir uma figura definida, e estar confinadas dentro de certos limites, para que sejam imagens verdadeiras; e então fica decidido que não são espirituais. Se, contudo, esses homens sustentam que elas são espirituais, e difusas, e incompreensíveis, como podem aquelas coisas que possuem figura, e estão confinadas dentro de certos limites, ser as imagens das que são destituídas de figura e incompreensíveis? Se, de novo, afirmam que não é segundo a configuração nem a formação, mas segundo o número e a ordem da produção, que as coisas de cima são as imagens das de baixo, então, em primeiro lugar, estas coisas de baixo não deveriam ser chamadas de imagens e semelhanças daqueles Éons que estão acima. Pois como podem as coisas que não têm nem a feição nem a forma das de cima ser as suas imagens? E, em segundo lugar, eles teriam de adaptar tanto os números quanto as produções dos Éons de cima, de modo a torná-los idênticos e semelhantes aos que pertencem à criação de baixo. Mas agora, que se referem a apenas trinta Éons, e declaram que a vasta multidão de coisas que estão abrangidas na criação de baixo são imagens das que são apenas trinta, podemos com justiça condená-los como de todo destituídos de bom senso.
Se, de novo, declaram que essas coisas de baixo são uma sombra das de cima, como alguns deles têm a audácia de sustentar, de modo que, nesse aspecto, são imagens, então lhes será necessário admitir que as coisas que estão acima possuem corpos. Pois os corpos que estão acima de fato projetam sombra, mas as substâncias espirituais não, que de modo algum podem escurecer outras. Se, contudo, lhes concedemos também este ponto (embora seja, de fato, uma impossibilidade), que uma sombra pertencente àquelas essências que são espirituais e luminosas, nas quais declaram que a sua Mãe desceu; ainda assim, que aquelas coisas que estão acima são eternas, e a sombra que elas projetam dura para sempre, segue-se que essas coisas de baixo também não são transitórias, mas duram juntamente com as que projetam a sua sombra sobre elas. Se, por outro lado, essas coisas de baixo são transitórias, é consequência necessária que aquelas de cima, das quais estas são a sombra, também passem; ao passo que, se elas duram, a sua sombra igualmente dura. Se, contudo, sustentam que a sombra de que se fala não existe por ser produzida pela sombra das coisas de cima, mas apenas neste aspecto, que as coisas de baixo estão muito separadas das de cima, eles acusarão então a luz do seu Pai de fraqueza e insuficiência, como se ela não pudesse estender-se até essas coisas, mas deixasse de encher o que está vazio, e de dissipar a sombra, e isso quando ninguém oferece estorvo algum. Pois, segundo eles, a luz do seu Pai se mudará em trevas e ficará sepultada na escuridão, e chegará ao fim naqueles lugares que se caracterizam pelo vazio, que não pode penetrar e encher todas as coisas. Que eles então não declarem mais que o seu Bythos é a plenitude de todas as coisas, se de fato ele nem encheu nem iluminou aquilo que é vácuo e sombra; ou, por outro lado, que parem de falar de vácuo e sombra, se a luz do seu Pai de fato enche todas as coisas. Além do Pai primário, então, isto é, o Deus que está sobre tudo, não pode haver nem qualquer Pleroma no qual declaram ter descido a Enthymesis daquele Éon que sofreu paixão (de modo que o próprio Pleroma, ou o Deus primário, não fosse limitado e circunscrito por aquilo que está além, e fosse, de fato, contido por ele); nem pode vácuo ou sombra ter existência alguma, que o Pai existe de antemão, de modo que a sua luz não pode faltar e encontrar o seu fim num vácuo. É, ademais, irracional e ímpio conceber um lugar no qual aquele que é, segundo eles, Propátor, e Proarqué, e Pai de todos, e deste Pleroma, cessa e tem fim. Nem, de novo, é admissível, pelas razões expostas, alegar que algum outro ser formou uma criação tão vasta no seio do Pai, seja com o consentimento dele, seja sem ele. Pois é igualmente ímpio e insensato afirmar que uma criação tão grande foi formada por anjos, ou por alguma produção particular ignorante do verdadeiro Deus, naquele território que é dele próprio. Nem é possível que aquelas coisas que são terrenas e materiais pudessem ter sido formadas dentro do Pleroma deles, que ele é inteiramente espiritual. E ademais, não é sequer possível que aquelas coisas que pertencem a uma criação multiforme, e que foram formadas com qualidades mutuamente opostas, tenham sido criadas à imagem das coisas de cima, que estas, isto é, os Éons, dizem ser poucas, e de formação semelhante, e homogêneas. A conversa deles, também, sobre a sombra do kenoma, isto é, de um vácuo, em todos os pontos se revelou falsa. A invenção deles, então, de qualquer modo que se a encare, provou-se sem fundamento, e as suas doutrinas, insustentáveis. Vazios, também, são os que lhes dão ouvidos, e de fato descem ao abismo da perdição.
Que Deus é o Criador do mundo é aceito até por aquelas próprias pessoas que de muitas maneiras falam contra ele, e ainda assim o reconhecem, chamando-o de Criador e de anjo, isso sem falar que todas as Escrituras clamam no mesmo sentido, e que o Senhor nos ensina deste Pai que está no céu, e de nenhum outro, como mostrarei no seguimento desta obra. Por ora, contudo, aquela prova que se tira dos que alegam doutrinas opostas às nossas é, por si só, suficiente, consentindo todos os homens, de fato, nesta verdade: os antigos, da sua parte, preservando com cuidado especial, a partir da tradição do primeiro homem formado, essa convicção, ao passo que celebram os louvores de um Deus, o Fazedor do céu e da terra; outros, de novo, depois deles, sendo lembrados desse fato pelos profetas de Deus, ao passo que os próprios gentios o aprenderam da própria criação. Pois até a criação revela aquele que a formou, e a própria obra feita sugere aquele que a fez, e o mundo manifesta aquele que o ordenou. A Igreja Universal, ademais, por todo o mundo, recebeu essa tradição dos apóstolos. Sendo, então, reconhecido este Deus, como eu disse, e recebendo testemunho de todos quanto ao fato da sua existência, aquele Pai que eles conjuram à existência é, sem dúvida, insustentável, e não tem testemunhas da sua existência. Simão Mago foi o primeiro que disse que ele mesmo era Deus sobre tudo, e que o mundo fora formado pelos seus anjos. Em seguida, os que o sucederam, como mostrei no primeiro livro, pelas suas várias opiniões, deturparam ainda mais o seu ensino por meio de doutrinas ímpias e irreligiosas contra o Criador. Estes hereges agora referidos, sendo os discípulos dos que foram mencionados, tornam os que com eles concordam piores do que os gentios. Pois os primeiros servem antes à criatura do que ao Criador, e àqueles que não são deuses, não obstante atribuírem o primeiro lugar na Divindade àquele Deus que foi o Fazedor deste universo. Mas os segundos sustentam que ele, isto é, o Criador deste mundo, é fruto de um defeito, e o descrevem como sendo de natureza animal, e como não conhecendo aquele Poder que está acima dele, ao passo que ele também exclama: Eu sou Deus, e além de mim não outro Deus. Afirmando que ele mente, eles mesmos são mentirosos, atribuindo-lhe toda sorte de maldade; e concebendo que realmente tem existência alguém que não está acima deste Ser, eles ficam assim convictos, pelas próprias opiniões, de blasfêmia contra aquele Deus que realmente existe, ao passo que conjuram à existência um deus que não tem existência, para a sua própria condenação. E assim, os que se declaram perfeitos, e como possuidores do conhecimento de todas as coisas, são achados piores do que os gentios, e cultivando opiniões mais blasfemas até contra o seu próprio Criador.
É, portanto, no mais alto grau irracional que não levemos em conta aquele que é verdadeiramente Deus, e que recebe testemunho de todos, enquanto investigamos se acima dele aquele outro ser que realmente não tem existência, e que jamais foi proclamado por ninguém. Pois, de que nada se falou claramente a respeito dele, eles mesmos fornecem o testemunho; pois, que eles, com mísero sucesso, transferem para aquele ser que conceberam aquelas parábolas das Escrituras que, qualquer que seja a forma em que foram ditas, são buscadas para esse fim, é manifesto que eles agora geram outro deus, que nunca antes fora buscado. Pois, pelo fato de assim se esforçarem por explicar passagens ambíguas das Escrituras (ambíguas, contudo, não como se se referissem a outro deus, mas no que toca às dispensações do verdadeiro Deus), eles construíram outro deus, tecendo, como eu disse antes, cordas de areia, e atrelando uma questão mais importante a uma menos importante. Pois nenhuma questão pode ser resolvida por meio de outra que ela mesma aguarda solução; nem, na opinião dos que têm bom senso, pode uma ambiguidade ser explicada por meio de outra ambiguidade, ou enigmas por meio de outro enigma maior, mas coisas de tal caráter recebem a sua solução das que são manifestas, e coerentes, e claras. Mas esses hereges, enquanto se esforçam por explicar passagens das Escrituras e parábolas, trazem à tona outra questão mais importante e, na verdade, ímpia, a saber, esta: se realmente outro deus acima daquele Deus que foi o Criador do mundo? Eles não estão no caminho de resolver as questões que propõem; pois como poderiam encontrar meios de fazê-lo? Mas anexam uma questão importante a uma de menor consequência, e assim inserem em suas especulações uma dificuldade incapaz de solução. Pois, a fim de conhecerem o próprio conhecimento (e contudo sem aprender este fato: que o Senhor, aos trinta anos de idade, veio ao batismo da verdade), eles desprezam impiamente aquele Deus que foi o Criador, e que o enviou para a salvação dos homens. E para que sejam tidos por capazes de nos informar de onde vem a substância da matéria, ao passo que não creem que Deus, segundo o seu agrado, no exercício da sua própria vontade e poder, formou todas as coisas (de modo que as coisas que agora são viessem a ter existência) a partir do que antes não existia, eles reuniram uma multidão de discursos vãos. Assim revelam de fato a sua infidelidade; eles não creem naquilo que realmente existe, e caíram na crença daquilo que, de fato, não tem existência alguma. Pois, quando nos dizem que toda substância úmida procedeu das lágrimas de Acamoth, toda substância lúcida do seu sorriso, toda substância sólida da sua tristeza, toda substância móvel do seu pavor, e que assim têm um conhecimento sublime em razão do qual são superiores aos demais, como podem essas coisas deixar de ser tidas por dignas de desprezo e verdadeiramente ridículas? Eles não creem que Deus (sendo poderoso, e rico em todos os recursos) criou a própria matéria, visto que não sabem quanto uma essência espiritual e divina pode realizar. Mas creem que a sua Mãe, a quem chamam de fêmea oriunda de fêmea, produziu das suas paixões mencionadas a tão vasta substância material da criação. Eles indagam, também, de onde a substância da criação foi fornecida ao Criador; mas não indagam de onde foram fornecidos à sua Mãe (a quem chamam de Enthymesis e impulso do Éon que se desgarrou) uma tão grande quantidade de lágrimas, ou de suor, ou de tristeza, ou daquilo que produziu o restante da matéria. Pois atribuir a substância das coisas criadas ao poder e à vontade daquele que é Deus de tudo é digno tanto de crédito quanto de acolhimento. É também conforme à razão, e bem se pode dizer, a respeito de tal crença, que as coisas que são impossíveis aos homens são possíveis a Deus. Enquanto os homens, de fato, não podem fazer coisa alguma a partir do nada, mas apenas a partir de matéria existente, ainda assim Deus, neste ponto, é preeminentemente superior aos homens, em que ele mesmo chamou à existência a substância da sua criação, quando antes ela não tinha existência alguma. Mas a afirmação de que a matéria foi produzida da Enthymesis de um Éon que se desgarrou, e que o Éon referido foi muito separado da sua Enthymesis, e que, de novo, a sua paixão e o seu sentimento, à parte dela mesma, se tornaram matéria, é incrível, insensata, impossível e insustentável.
Eles não creem que aquele que é Deus sobre tudo formou, pelo seu Verbo, no seu próprio território, como ele mesmo quis, as várias e diversificadas obras de criação que existem, visto que ele é o formador de todas as coisas, como um sábio arquiteto e um poderosíssimo monarca. Mas creem que anjos, ou algum poder separado de Deus e ignorante dele, formaram este universo. Por esse caminho, portanto, não dando crédito à verdade, mas chafurdando na falsidade, eles perderam o pão da verdadeira vida e caíram na vacuidade e num abismo de sombra. São como o cão da fábula de Esopo, que largou o pão e tentou agarrar a sua sombra, perdendo assim o alimento real. É fácil provar, a partir das próprias palavras do Senhor, que ele reconhece um Pai e Criador do mundo, e Formador do homem, que foi proclamado pela lei e pelos profetas, ao passo que não conhece nenhum outro, e que este Único é realmente Deus sobre tudo; e que ele ensina que aquela adoção de filhos que pertence ao Pai, que é vida eterna, se por meio dele mesmo, conferindo-a, como faz, a todos os justos. Mas, que esses homens se deliciam em nos atacar, e, em seu verdadeiro caráter de caluniadores, nos assaltam com pontos que de fato nada dizem contra nós, trazendo à tona, em oposição a nós, uma multidão de parábolas e de questões capciosas, julguei conveniente, por outro lado, antes de tudo, dirigir-lhes as seguintes indagações a respeito das suas próprias doutrinas, para exibir a sua improbabilidade e pôr fim à sua audácia. Feito isto, pretendo trazer à tona os discursos do Senhor, de modo que eles não fiquem destituídos dos meios de nos atacar, mas que, que serão incapazes de responder de modo razoável às questões que lhes são postas, vejam que o seu plano de argumentação está destruído; de modo que, ou retornando à verdade, e humilhando-se, e cessando das suas múltiplas fantasias, propiciem a Deus por aquelas blasfêmias que proferiram contra ele, e obtenham salvação; ou que, se ainda perseverarem naquele sistema de vanglória que se apoderou de suas mentes, ao menos achem necessário mudar o seu tipo de argumentação contra nós.