Contra as Heresias - Livro I 5
Exposicao dos sistemas gnosticos
Simão, o samaritano, era aquele mágico de quem Lucas, o discípulo e seguidor dos apóstolos, diz: Mas havia certo homem, chamado Simão, que antes naquela cidade exercia artes mágicas e enganava o povo de Samaria, dizendo ser ele mesmo um grande personagem, ao qual todos davam ouvidos, desde o menor até o maior, dizendo: Este é o poder de Deus, que se chama grande. E davam-lhe atenção, porque por muito tempo os havia enlouquecido com suas feitiçarias. Esse Simão, então, que fingiu fé, supondo que os próprios apóstolos realizavam suas curas pela arte da magia, e não pelo poder de Deus, e que, quanto ao fato de encherem do Espírito Santo, pela imposição das mãos, os que criam em Deus por meio daquele que era por eles pregado, a saber, Cristo Jesus, suspeitando que mesmo isso era feito por uma espécie de conhecimento maior de magia, e oferecendo dinheiro aos apóstolos, pensou que também ele poderia receber esse poder de conferir o Espírito Santo a quem quisesse, foi assim interpelado por Pedro: O teu dinheiro pereça contigo, porque pensaste que o dom de Deus se alcança com dinheiro: tu não tens parte nem sorte nesta palavra, pois o teu coração não é reto diante de Deus; porque vejo que estás em fel de amargura e em laço de iniquidade. Ele, então, não depositando nem um pouco mais de fé em Deus, lançou-se com ardor a contender contra os apóstolos, a fim de que ele mesmo parecesse ser um ser maravilhoso, e aplicou-se com zelo ainda maior ao estudo de toda a arte mágica, para que melhor pudesse confundir e dominar multidões de homens. Tal era seu proceder no reinado de Cláudio César, por quem também se diz que foi honrado com uma estátua, em razão de seu poder mágico. Esse homem, então, foi glorificado por muitos como se fosse um deus; e ensinava que ele mesmo era quem havia aparecido entre os judeus como o Filho, mas descera em Samaria como o Pai, ao passo que viera às outras nações na figura do Espírito Santo. Em uma palavra, representava a si mesmo como o mais elevado de todos os poderes, isto é, o Ser que é o Pai sobre todas as coisas, e permitia ser chamado por qualquer título que aprouvesse aos homens dar-lhe. Ora, esse Simão de Samaria, de quem todas as espécies de heresias derivam sua origem, formou sua seita a partir dos seguintes elementos: tendo resgatado da escravidão, em Tiro, cidade da Fenícia, certa mulher chamada Helena, costumava levá-la consigo, declarando que essa mulher era a primeira concepção de sua mente, a mãe de todos, por meio de quem, no princípio, ele concebera em sua mente o pensamento de formar anjos e arcanjos. Pois essa Ennœa, saltando dele e compreendendo a vontade de seu pai, desceu às regiões inferiores do espaço e gerou anjos e poderes, pelos quais, segundo ele declarava, este mundo foi formado. Mas, depois que ela os produziu, foi por eles retida por motivos de ciúme, porque não queriam ser vistos como descendência de nenhum outro ser. Quanto a ele mesmo, eles não tinham dele conhecimento algum; mas sua Ennœa foi retida por aqueles poderes e anjos que haviam sido por ela produzidos. Ela sofreu deles toda sorte de ultraje, de modo que não pôde retornar para cima, ao seu pai, mas foi até mesmo encerrada em um corpo humano, e por séculos passou em sucessão de um corpo feminino a outro, como de vaso em vaso. Ela esteve, por exemplo, naquela Helena por causa de quem a Guerra de Troia foi empreendida; por causa de quem também Estesícoro ficou cego, porque a havia amaldiçoado em seus versos, mas depois, arrependendo-se e escrevendo o que se chamam palinódias, nas quais cantou seus louvores, recobrou a vista. Assim ela, passando de corpo em corpo e sofrendo afrontas em cada um deles, tornou-se por fim uma prostituta comum; e era ela quem se significava pela ovelha perdida. Com esse propósito, então, ele viera, para conquistá-la primeiro e libertá-la da escravidão, ao mesmo tempo em que conferia salvação aos homens, dando-se a conhecer a eles. Pois, já que os anjos governavam mal o mundo, porque cada um deles cobiçava para si o poder principal, ele viera para corrigir as coisas, e descera transfigurado e assimilado aos poderes, principados e anjos, de modo que pudesse aparecer entre os homens como homem, embora não fosse homem; e que, assim, se pensasse que ele havia padecido na Judeia, quando não havia padecido. Além disso, os profetas proferiram suas predições sob a inspiração daqueles anjos que formaram o mundo; razão pela qual os que depositam sua confiança nele e em Helena já não os consideram, mas, sendo livres, vivem como lhes apraz; pois os homens são salvos por sua graça, e não em razão de suas próprias ações justas. Pois tais ações não são justas na natureza das coisas, mas por mero acaso, exatamente como aqueles anjos que fizeram o mundo julgaram conveniente instituí-las, buscando, por meio de tais preceitos, reduzir os homens à servidão. Por essa razão, ele se comprometeu a que o mundo fosse dissolvido, e a que os que são seus fossem libertados do domínio dos que fizeram o mundo. Assim, então, os sacerdotes místicos pertencentes a essa seita levam vidas devassas e praticam artes mágicas, cada um na medida de sua capacidade. Usam exorcismos e encantamentos. Filtros amorosos, também, e amuletos, bem como aqueles seres que são chamados Paredri (familiares) e Oniropompoi (enviadores de sonhos), e quaisquer outras artes curiosas a que se possa recorrer, são avidamente postos a seu serviço. Têm também uma imagem de Simão moldada à semelhança de Júpiter, e outra de Helena à forma de Minerva; e a estas adoram. Enfim, têm um nome derivado de Simão, o autor dessas doutrinas tão ímpias, sendo chamados simonianos; e deles o conhecimento, falsamente assim chamado, teve seu início, como se pode aprender até de suas próprias afirmações. O sucessor desse homem foi Menandro, também samaritano de nascimento, e ele igualmente era perfeito adepto na prática da magia. Afirma que o Poder primário permanece desconhecido a todos, mas que ele mesmo é a pessoa que foi enviada da presença dos seres invisíveis como salvador, para a libertação dos homens. O mundo foi feito por anjos que, como Simão, ele sustenta terem sido produzidos por Ennœa. Ele dá, ainda, segundo afirma, por meio daquela magia que ensina, conhecimento para este efeito: que se pode vencer aqueles mesmos anjos que fizeram o mundo; pois seus discípulos obtêm a ressurreição ao serem batizados nele, e já não podem morrer, mas permanecem na posse de uma juventude imortal.