Contra as Heresias - Livro I 5
Exposicao dos sistemas gnosticos
Catálogo das heresias: de Simão Mago aos cainitas
A regra da verdade que sustentamos é esta: existe um só Deus Todo-Poderoso, que fez todas as coisas por seu Verbo, e que moldou e formou, daquilo que não tinha existência alguma, tudo o que existe. Assim diz a Escritura, a esse respeito: Pela palavra do Senhor foram firmados os céus, e todo o seu exército, pelo espírito de sua boca. E ainda: Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Não se declara exceção nem ressalva alguma; mas o Pai fez todas as coisas por ele, sejam visíveis ou invisíveis, objetos dos sentidos ou da inteligência, temporais, em razão de certo caráter que lhes foi dado, ou eternas; e essas coisas eternas ele não as fez por meio de anjos, nem por quaisquer poderes separados de sua Ennœa. Pois Deus não precisa de nenhuma dessas coisas, mas é ele quem, por seu Verbo e Espírito, faz, dispõe e governa todas as coisas, e chama todas as coisas à existência. Ele é quem formou o mundo (pois o mundo é de todos). Ele é quem moldou o homem. Ele é o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, acima de quem não há nenhum outro Deus, nem princípio inicial, nem poder, nem pleroma. Ele é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, como provaremos. Sustentando, portanto, essa regra, mostraremos com facilidade, apesar da grande variedade e multidão de suas opiniões, que esses homens se desviaram da verdade. Pois quase todas as diferentes seitas de hereges admitem que existe um só Deus; mas então, por suas doutrinas perniciosas, mudam essa verdade em erro, tal como os gentios fazem pela idolatria, provando-se assim ingratos para com aquele que os criou. Além disso, desprezam a obra de Deus, falando contra a própria salvação, tornando-se seus mais cruéis acusadores e falsas testemunhas contra si mesmos. No entanto, por mais relutantes que sejam, esses homens hão de um dia ressurgir na carne, para confessar o poder daquele que os levanta dentre os mortos; mas não serão contados entre os justos, por causa de sua incredulidade. Já que, portanto, é uma tarefa complexa e multiforme detectar e refutar todos os hereges, e já que nosso propósito é responder a todos eles conforme suas características próprias, julgamos necessário, antes de tudo, dar conta de sua origem e raiz, para que, conhecendo o seu mais exaltado Bythos, possas compreender a natureza da árvore que produziu tais frutos.
Simão, o samaritano, era aquele mágico de quem Lucas, o discípulo e seguidor dos apóstolos, diz: Mas havia certo homem, chamado Simão, que antes naquela cidade exercia artes mágicas e enganava o povo de Samaria, dizendo ser ele mesmo um grande personagem, ao qual todos davam ouvidos, desde o menor até o maior, dizendo: Este é o poder de Deus, que se chama grande. E davam-lhe atenção, porque por muito tempo os havia enlouquecido com suas feitiçarias. Esse Simão, então, que fingiu fé, supondo que os próprios apóstolos realizavam suas curas pela arte da magia, e não pelo poder de Deus, e que, quanto ao fato de encherem do Espírito Santo, pela imposição das mãos, os que criam em Deus por meio daquele que era por eles pregado, a saber, Cristo Jesus, suspeitando que mesmo isso era feito por uma espécie de conhecimento maior de magia, e oferecendo dinheiro aos apóstolos, pensou que também ele poderia receber esse poder de conferir o Espírito Santo a quem quisesse, foi assim interpelado por Pedro: O teu dinheiro pereça contigo, porque pensaste que o dom de Deus se alcança com dinheiro: tu não tens parte nem sorte nesta palavra, pois o teu coração não é reto diante de Deus; porque vejo que estás em fel de amargura e em laço de iniquidade. Ele, então, não depositando nem um pouco mais de fé em Deus, lançou-se com ardor a contender contra os apóstolos, a fim de que ele mesmo parecesse ser um ser maravilhoso, e aplicou-se com zelo ainda maior ao estudo de toda a arte mágica, para que melhor pudesse confundir e dominar multidões de homens. Tal era seu proceder no reinado de Cláudio César, por quem também se diz que foi honrado com uma estátua, em razão de seu poder mágico. Esse homem, então, foi glorificado por muitos como se fosse um deus; e ensinava que ele mesmo era quem havia aparecido entre os judeus como o Filho, mas descera em Samaria como o Pai, ao passo que viera às outras nações na figura do Espírito Santo. Em uma palavra, representava a si mesmo como o mais elevado de todos os poderes, isto é, o Ser que é o Pai sobre todas as coisas, e permitia ser chamado por qualquer título que aprouvesse aos homens dar-lhe. Ora, esse Simão de Samaria, de quem todas as espécies de heresias derivam sua origem, formou sua seita a partir dos seguintes elementos: tendo resgatado da escravidão, em Tiro, cidade da Fenícia, certa mulher chamada Helena, costumava levá-la consigo, declarando que essa mulher era a primeira concepção de sua mente, a mãe de todos, por meio de quem, no princípio, ele concebera em sua mente o pensamento de formar anjos e arcanjos. Pois essa Ennœa, saltando dele e compreendendo a vontade de seu pai, desceu às regiões inferiores do espaço e gerou anjos e poderes, pelos quais, segundo ele declarava, este mundo foi formado. Mas, depois que ela os produziu, foi por eles retida por motivos de ciúme, porque não queriam ser vistos como descendência de nenhum outro ser. Quanto a ele mesmo, eles não tinham dele conhecimento algum; mas sua Ennœa foi retida por aqueles poderes e anjos que haviam sido por ela produzidos. Ela sofreu deles toda sorte de ultraje, de modo que não pôde retornar para cima, ao seu pai, mas foi até mesmo encerrada em um corpo humano, e por séculos passou em sucessão de um corpo feminino a outro, como de vaso em vaso. Ela esteve, por exemplo, naquela Helena por causa de quem a Guerra de Troia foi empreendida; por causa de quem também Estesícoro ficou cego, porque a havia amaldiçoado em seus versos, mas depois, arrependendo-se e escrevendo o que se chamam palinódias, nas quais cantou seus louvores, recobrou a vista. Assim ela, passando de corpo em corpo e sofrendo afrontas em cada um deles, tornou-se por fim uma prostituta comum; e era ela quem se significava pela ovelha perdida. Com esse propósito, então, ele viera, para conquistá-la primeiro e libertá-la da escravidão, ao mesmo tempo em que conferia salvação aos homens, dando-se a conhecer a eles. Pois, já que os anjos governavam mal o mundo, porque cada um deles cobiçava para si o poder principal, ele viera para corrigir as coisas, e descera transfigurado e assimilado aos poderes, principados e anjos, de modo que pudesse aparecer entre os homens como homem, embora não fosse homem; e que, assim, se pensasse que ele havia padecido na Judeia, quando não havia padecido. Além disso, os profetas proferiram suas predições sob a inspiração daqueles anjos que formaram o mundo; razão pela qual os que depositam sua confiança nele e em Helena já não os consideram, mas, sendo livres, vivem como lhes apraz; pois os homens são salvos por sua graça, e não em razão de suas próprias ações justas. Pois tais ações não são justas na natureza das coisas, mas por mero acaso, exatamente como aqueles anjos que fizeram o mundo julgaram conveniente instituí-las, buscando, por meio de tais preceitos, reduzir os homens à servidão. Por essa razão, ele se comprometeu a que o mundo fosse dissolvido, e a que os que são seus fossem libertados do domínio dos que fizeram o mundo. Assim, então, os sacerdotes místicos pertencentes a essa seita levam vidas devassas e praticam artes mágicas, cada um na medida de sua capacidade. Usam exorcismos e encantamentos. Filtros amorosos, também, e amuletos, bem como aqueles seres que são chamados Paredri (familiares) e Oniropompoi (enviadores de sonhos), e quaisquer outras artes curiosas a que se possa recorrer, são avidamente postos a seu serviço. Têm também uma imagem de Simão moldada à semelhança de Júpiter, e outra de Helena à forma de Minerva; e a estas adoram. Enfim, têm um nome derivado de Simão, o autor dessas doutrinas tão ímpias, sendo chamados simonianos; e deles o conhecimento, falsamente assim chamado, teve seu início, como se pode aprender até de suas próprias afirmações. O sucessor desse homem foi Menandro, também samaritano de nascimento, e ele igualmente era perfeito adepto na prática da magia. Afirma que o Poder primário permanece desconhecido a todos, mas que ele mesmo é a pessoa que foi enviada da presença dos seres invisíveis como salvador, para a libertação dos homens. O mundo foi feito por anjos que, como Simão, ele sustenta terem sido produzidos por Ennœa. Ele dá, ainda, segundo afirma, por meio daquela magia que ensina, conhecimento para este efeito: que se pode vencer aqueles mesmos anjos que fizeram o mundo; pois seus discípulos obtêm a ressurreição ao serem batizados nele, e já não podem morrer, mas permanecem na posse de uma juventude imortal.
Surgindo entre esses homens, Saturnino (que era daquela Antioquia que fica perto de Dafne) e Basílides aproveitaram-se de algumas ocasiões favoráveis e divulgaram sistemas diferentes de doutrina, um na Síria, o outro em Alexandria. Saturnino, como Menandro, apresentou um único pai desconhecido a todos, que fez anjos, arcanjos, poderes e potentados. O mundo, por sua vez, e tudo o que nele há, foram feitos por certa companhia de sete anjos. O homem, também, foi obra dos anjos, uma imagem reluzente que irrompeu de baixo, da presença do poder supremo; e quando não puderam, segundo ele diz, reter essa imagem, porque ela imediatamente disparou de volta para cima, exortaram-se uns aos outros, dizendo: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Ele foi, por conseguinte, formado, mas era incapaz de manter-se ereto, por causa da incapacidade dos anjos de lhe transmitir aquele poder, e contorcia-se pelo chão como um verme. Então o poder de cima, compadecendo-se dele, visto que fora feito à sua semelhança, enviou uma centelha de vida, que deu ao homem postura ereta, ligou-lhe as juntas e o fez viver. Ele declara, portanto, que essa centelha de vida, após a morte do homem, retorna às coisas que são da mesma natureza que ela, e o resto do corpo se decompõe em seus elementos originais. Ele também estabeleceu como verdade que o Salvador era sem nascimento, sem corpo e sem figura, sendo, por suposição, um homem visível; e sustentava que o Deus dos judeus era um dos anjos; e, por essa razão, porque todos os poderes desejavam aniquilar seu pai, Cristo veio para destruir o Deus dos judeus, mas para salvar os que creem nele, isto é, os que possuem a centelha de sua vida. Esse herege foi o primeiro a afirmar que dois tipos de homens foram formados pelos anjos: um perverso e o outro bom. E, já que os demônios assistem os mais perversos, o Salvador veio para a destruição dos homens maus e dos demônios, mas para a salvação dos bons. Declaram também que o casamento e a geração vêm de Satanás. Muitos dos que pertencem à sua escola, igualmente, abstêm-se de alimento animal e arrastam multidões por uma fingida temperança desse tipo. Sustentam, ademais, que algumas das profecias foram proferidas por aqueles anjos que fizeram o mundo, e algumas por Satanás; a quem Saturnino representa como sendo ele mesmo um anjo, o inimigo dos criadores do mundo, mas especialmente do Deus dos judeus. Basílides, por sua vez, para parecer ter descoberto algo mais sublime e plausível, dá um desenvolvimento imenso às suas doutrinas. Ele expõe que Nous foi o primeiro a nascer do pai não nascido, que dele, por sua vez, nasceu Logos, de Logos Phronesis, de Phronesis Sophia e Dynamis, e de Dynamis e Sophia os poderes, principados e anjos, a quem ele também chama de primeiros; e que por eles foi feito o primeiro céu. Então outros poderes, formados por emanação destes, criaram outro céu semelhante ao primeiro; e, de modo igual, quando outros, por sua vez, foram formados por emanação deles, correspondendo exatamente aos que estavam acima deles, esses também construíram um terceiro céu; e então, desse terceiro, em ordem descendente, houve uma quarta sucessão de descendentes; e assim por diante, da mesma maneira, declaram que mais e mais principados e anjos foram formados, e trezentos e sessenta e cinco céus. Por isso o ano contém o mesmo número de dias, em conformidade com o número dos céus. Aqueles anjos que ocupam o céu mais baixo, isto é, o que nos é visível, formaram todas as coisas que há no mundo, e repartiram entre si a terra e as nações que sobre ela estão. O chefe deles é aquele que é tido como o Deus dos judeus; e, visto que desejava tornar as outras nações sujeitas ao seu próprio povo, isto é, aos judeus, todos os demais príncipes resistiram-lhe e se opuseram. Por isso todas as outras nações ficaram em inimizade com a sua nação. Mas o pai sem nascimento e sem nome, percebendo que seriam destruídas, enviou seu próprio Nous primogênito (é ele quem se chama Cristo) para conceder libertação aos que creem nele, do poder dos que fizeram o mundo. Ele apareceu, então, na terra como homem, às nações desses poderes, e operou milagres. Por isso, ele mesmo não padeceu a morte, mas Simão, certo homem de Cirene, sendo compelido, levou a cruz em seu lugar; de modo que este, sendo por ele transfigurado, para que se pensasse ser Jesus, foi crucificado, por ignorância e erro, enquanto o próprio Jesus recebia a forma de Simão e, estando de pé ali ao lado, ria deles. Pois, já que ele era um poder incorpóreo e o Nous (mente) do pai não nascido, transfigurava-se como queria, e assim subiu para aquele que o havia enviado, zombando deles, visto que não podia ser apanhado e era invisível a todos. Aqueles, então, que conhecem estas coisas foram libertados dos principados que formaram o mundo; de modo que não nos cabe confessar aquele que foi crucificado, mas aquele que veio na forma de um homem, e que se pensou ser crucificado, e foi chamado Jesus, e foi enviado pelo pai, para que, por essa dispensação, ele destruísse as obras dos criadores do mundo. Se alguém, portanto, declara ele, confessa o crucificado, esse homem ainda é escravo e está sob o poder dos que formaram nossos corpos; mas quem o nega foi libertado desses seres e está a par da dispensação do pai não nascido. A salvação pertence à alma apenas, pois o corpo é por natureza sujeito à corrupção. Ele declara, também, que as profecias derivaram daqueles poderes que foram os criadores do mundo, mas a lei foi especialmente dada pelo seu chefe, que conduziu o povo para fora da terra do Egito. Ele não atribui importância alguma à questão das carnes oferecidas em sacrifício aos ídolos, considera-as sem consequência e faz uso delas sem qualquer hesitação; sustenta também que o uso de outras coisas, e a prática de toda espécie de luxúria, são matéria de perfeita indiferença. Esses homens, ademais, praticam a magia; e usam imagens, encantamentos, invocações e toda outra espécie de arte curiosa. Cunhando também certos nomes, como se fossem os dos anjos, proclamam alguns deles como pertencentes ao primeiro céu, e outros ao segundo; e então se esforçam para expor os nomes, princípios, anjos e poderes dos trezentos e sessenta e cinco céus imaginados. Afirmam também que o nome bárbaro com que o Salvador subiu e desceu é Caulacau. Aquele, então, que aprendeu estas coisas e conheceu todos os anjos e suas causas, torna-se invisível e incompreensível aos anjos e a todos os poderes, tal como o foi também Caulacau. E, assim como o filho era desconhecido a todos, assim também eles devem ser conhecidos por ninguém; mas, enquanto conhecem tudo e passam por tudo, eles mesmos permanecem invisíveis e desconhecidos a todos; pois, dizem eles, conhece tu a todos, mas que ninguém te conheça. Por essa razão, pessoas de tal persuasão estão também prontas a retratar suas opiniões, ou melhor, é impossível que sofram por causa de um mero nome, já que são iguais a todos. A multidão, no entanto, não pode compreender essas matérias, mas apenas um em mil, ou dois em dez mil. Declaram que já não são judeus, e que ainda não são cristãos; e que não é de modo algum conveniente falar abertamente de seus mistérios, mas que é correto mantê-los em segredo, preservando o silêncio. Eles estabelecem a posição local dos trezentos e sessenta e cinco céus do mesmo modo que os matemáticos. Pois, aceitando os teoremas destes, transferiram-nos para o seu próprio tipo de doutrina. Sustentam que seu chefe é Abraxas; e, por essa razão, que essa palavra contém em si os números que somam trezentos e sessenta e cinco.
Carpócrates, por sua vez, e seus seguidores sustentam que o mundo e as coisas que nele há foram criados por anjos muito inferiores ao Pai não gerado. Sustentam também que Jesus era filho de José, e era em tudo igual aos demais homens, com a exceção de que diferia deles neste aspecto: visto que sua alma era firme e pura, ele se lembrava perfeitamente daquelas coisas que havia presenciado no âmbito do Deus não gerado. Por essa razão, um poder desceu sobre ele vindo do Pai, para que por meio dele ele pudesse escapar dos criadores do mundo; e dizem que esse poder, depois de passar por todos eles e permanecer livre em todos os pontos, subiu novamente para ele e para os poderes, que do mesmo modo acolheram coisas semelhantes a si próprios. Declaram, ainda, que a alma de Jesus, embora educada nas práticas dos judeus, as encarava com desprezo, e que por essa razão ele foi dotado de faculdades por meio das quais destruiu aquelas paixões que habitavam nos homens como castigo por seus pecados. A alma, portanto, que é semelhante à de Cristo pode desprezar aqueles governantes que foram os criadores do mundo, e, do mesmo modo, recebe poder para realizar os mesmos resultados. Essa ideia os elevou a tal ponto de orgulho que alguns deles se declaram semelhantes a Jesus; enquanto outros, ainda mais poderosos, sustentam que são superiores aos seus discípulos, como Pedro e Paulo e os demais apóstolos, a quem consideram em nada inferiores a Jesus. Pois suas almas, descendo da mesma esfera que a dele, e por isso desprezando do mesmo modo os criadores do mundo, são consideradas dignas do mesmo poder, e novamente partem para o mesmo lugar. Mas, se alguém houver desprezado as coisas deste mundo mais do que ele, prova-se assim superior a ele. Praticam também artes mágicas e encantamentos; filtros, também, e poções amorosas; e recorrem a espíritos familiares, demônios enviadores de sonhos e outras abominações, declarando que possuem poder para governar, ainda agora, os príncipes e formadores deste mundo; e não só sobre eles, mas também sobre todas as coisas que nele há. Esses homens, tal como os gentios, foram enviados por Satanás para trazer desonra à Igreja, de modo que, de um jeito ou de outro, os homens, ouvindo as coisas que eles dizem e imaginando que todos nós somos como eles, desviem os ouvidos da pregação da verdade; ou, ainda, vendo as coisas que praticam, falem mal de todos nós, que de fato não temos comunhão alguma com eles, nem na doutrina, nem na moral, nem em nossa conduta diária. Mas eles levam uma vida licenciosa e, para encobrir suas doutrinas ímpias, abusam do nome de Cristo, como meio de ocultar sua maldade; de modo que sua condenação é justa, quando recebem de Deus uma recompensa adequada às suas obras. Tão desenfreada é sua loucura que declaram ter em seu poder todas as coisas que são irreligiosas e ímpias, e ter liberdade para praticá-las; pois sustentam que as coisas são más ou boas simplesmente em virtude da opinião humana. Julgam necessário, portanto, que, por meio da transmigração de corpo em corpo, as almas tenham experiência de toda espécie de vida, bem como de toda espécie de ação (a não ser que, de fato, por uma única encarnação, alguém seja capaz de evitar a necessidade de outras, fazendo de uma vez por todas, e com igual completude, todas aquelas coisas que não ousamos sequer mencionar ou ouvir, e que não devemos sequer conceber em nossos pensamentos, nem ter por críveis, se algo assim for ventilado entre aquelas pessoas que são nossos concidadãos), a fim de que, como suas escrituras o exprimem, suas almas, tendo feito prova de toda espécie de vida, não fiquem, em sua partida, carentes em nenhum particular. É preciso insistir nisso, para que não suceda que, por faltar ainda alguma coisa à sua libertação, sejam compelidas mais uma vez a encarnar. Afirmam que por essa razão Jesus disse a seguinte parábola: Enquanto estiveres com o teu adversário no caminho, esforça-te ao máximo para te livrares dele, para que ele não te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e este te lance na prisão. Em verdade te digo: não sairás dali enquanto não pagares o último ceitil. Declaram também que o adversário é um daqueles anjos que estão no mundo, a quem chamam o Diabo, sustentando que ele foi formado para este propósito: conduzir aquelas almas que pereceram do mundo ao Soberano Supremo. Descrevem-no também como sendo o chefe entre os criadores do mundo, e sustentam que ele entrega tais almas a outro anjo, que lhe serve, para que as encerre em outros corpos; pois declaram que o corpo é a prisão. De novo, interpretam estas expressões, não sairás dali enquanto não pagares o último ceitil, como significando que ninguém pode escapar do poder daqueles anjos que fizeram o mundo, mas que deve passar de corpo em corpo até ter experiência de toda espécie de ação que pode ser praticada neste mundo, e quando já não lhe faltar nada, então sua alma libertada deverá elevar-se para aquele Deus que está acima dos anjos, os criadores do mundo. Desse modo, também, todas as almas são salvas, quer as próprias delas, que, acautelando-se contra qualquer demora, participam de toda sorte de ações durante uma única encarnação, quer aquelas, por sua vez, que, passando de corpo em corpo, são libertadas ao cumprir e realizar o que é requerido em cada forma de vida em que são enviadas, de modo que, por fim, já não estejam encerradas no corpo. E assim, se ações ímpias, ilícitas e proibidas são cometidas entre eles, eu já não encontro fundamento para crer que sejam tais. E em suas escrituras lemos o seguinte, a interpretação que dão de suas opiniões, declarando que Jesus falou em mistério a seus discípulos e apóstolos em particular, e que estes pediram e obtiveram permissão para transmitir as coisas assim ensinadas a outros que fossem dignos e crentes. Somos salvos, de fato, por meio da fé e do amor; mas todas as demais coisas, sendo por natureza indiferentes, são tidas pela opinião dos homens, umas por boas e outras por más, não havendo nada realmente mau por natureza. Outros deles empregam marcas externas, marcando a ferro seus discípulos por dentro do lóbulo da orelha direita. Dentre estes também surgiu Marcelina, que veio a Roma sob o episcopado de Aniceto e, sustentando essas doutrinas, desviou multidões. Eles se intitulam gnósticos. Possuem também imagens, algumas delas pintadas e outras formadas de diferentes tipos de material; e sustentam que uma efígie de Cristo foi feita por Pilatos naquele tempo em que Jesus viveu entre eles. Coroam essas imagens e as colocam junto com as imagens dos filósofos do mundo, isto é, com as imagens de Pitágoras, Platão, Aristóteles e os demais. Têm também outros modos de honrar essas imagens, à mesma maneira dos gentios.
Cerinto, por sua vez, homem educado na sabedoria dos egípcios, ensinava que o mundo não foi feito pelo Deus primário, mas por certo Poder muito apartado dele e distante daquele Principado que é supremo sobre o universo, e ignorante daquele que está acima de tudo. Representava Jesus como não tendo nascido de uma virgem, mas como sendo filho de José e Maria segundo o curso ordinário da geração humana, ainda que fosse mais justo, mais prudente e mais sábio do que os demais homens. Além disso, após seu batismo, Cristo desceu sobre ele em forma de pomba, vindo do Soberano Supremo, e que então ele proclamou o Pai desconhecido e realizou milagres. Mas, no fim, Cristo se apartou de Jesus, e então Jesus padeceu e ressurgiu, enquanto Cristo permaneceu impassível, visto que era um ser espiritual. Os que se chamam ebionitas concordam que o mundo foi feito por Deus; mas suas opiniões a respeito do Senhor são semelhantes às de Cerinto e Carpócrates. Usam somente o Evangelho segundo Mateus e repudiam o apóstolo Paulo, sustentando que ele foi um apóstata da lei. Quanto aos escritos proféticos, esforçam-se por expô-los de modo um tanto singular: praticam a circuncisão, perseveram na observância daqueles costumes que são prescritos pela lei, e são tão judaicos em seu estilo de vida que chegam a venerar Jerusalém como se fosse a casa de Deus. Os nicolaítas são os seguidores daquele Nicolau que foi um dos sete primeiros ordenados ao diaconato pelos apóstolos. Levam vidas de gozo desenfreado. O caráter desses homens é muito claramente apontado no Apocalipse de João, quando são representados como ensinando que é matéria de indiferença praticar o adultério e comer coisas sacrificadas aos ídolos. Por isso o Verbo também falou deles assim: Mas tens isto: que aborreces as obras dos nicolaítas, as quais eu também aborreço.
Cerdo foi um que tomou seu sistema dos seguidores de Simão e veio viver em Roma no tempo de Higino, que ocupou o nono lugar na sucessão episcopal a partir dos apóstolos. Ele ensinava que o Deus proclamado pela lei e pelos profetas não era o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Pois o primeiro era conhecido, mas o segundo, desconhecido; ao passo que um também era justo, mas o outro, benevolente. Marcião do Ponto sucedeu-lhe e desenvolveu sua doutrina. Ao fazê-lo, avançou a mais ousada blasfêmia contra aquele que é proclamado como Deus pela lei e pelos profetas, declarando-o autor dos males, dado a se deleitar na guerra, inconstante de propósito e até contrário a si mesmo. Mas Jesus, sendo derivado daquele pai que está acima do Deus que fez o mundo, e vindo à Judeia nos tempos do governador Pôncio Pilatos, que era o procurador de Tibério César, manifestou-se na forma de homem aos que estavam na Judeia, abolindo os profetas e a lei, e todas as obras daquele Deus que fez o mundo, a quem ele também chama Cosmocrator. Além disso, ele mutila o Evangelho segundo Lucas, removendo tudo o que está escrito a respeito da geração do Senhor, e pondo de lado boa parte do ensino do Senhor, no qual se registra que o Senhor confessa do modo mais claro que o Criador deste universo é seu Pai. Ele igualmente persuadiu seus discípulos de que ele mesmo era mais digno de crédito do que aqueles apóstolos que nos transmitiram o Evangelho, fornecendo-lhes não o Evangelho, mas apenas um fragmento dele. De modo semelhante, também, ele desmembrou as Epístolas de Paulo, removendo tudo o que o apóstolo diz a respeito daquele Deus que fez o mundo, no sentido de que ele é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, e também aquelas passagens dos escritos proféticos que o apóstolo cita, a fim de nos ensinar que elas anunciaram de antemão a vinda do Senhor. A salvação será alcançada apenas por aquelas almas que tiverem aprendido a sua doutrina; ao passo que o corpo, por ter sido tomado da terra, é incapaz de participar da salvação. Além de sua blasfêmia contra o próprio Deus, ele avançou também isto, falando verdadeiramente como que pela boca do diabo, e dizendo todas as coisas em direta oposição à verdade: que Caim, e os que lhe são semelhantes, e os sodomitas, e os egípcios, e outros como eles, e, em suma, todas as nações que andaram em toda sorte de abominação, foram salvos pelo Senhor ao descer ele ao Hades, e ao correrem eles a ele, e que o acolheram em seu reino. Mas a serpente que estava em Marcião declarava que Abel, e Enoque, e Noé, e aqueles outros homens justos que provieram do patriarca Abraão, com todos os profetas, e os que eram agradáveis a Deus, não participaram da salvação. Pois, já que esses homens, diz ele, sabiam que seu Deus os tentava constantemente, suspeitaram então que ele os estava tentando, e não correram a Jesus, nem creram no seu anúncio: e por essa razão ele declarou que suas almas permaneceram no Hades. Mas, já que esse homem é o único que ousou abertamente mutilar as Escrituras e, sem corar, mais que todos os outros, investir contra Deus, proponho-me a refutá-lo de modo especial, convencendo-o a partir de seus próprios escritos; e, com a ajuda de Deus, hei de derrubá-lo a partir daqueles discursos do Senhor e dos apóstolos que têm autoridade junto a ele, e dos quais faz uso. Por ora, contudo, fui apenas levado a mencioná-lo para que soubesses que todos aqueles que de algum modo corrompem a verdade e prejudicam a pregação da Igreja são os discípulos e sucessores de Simão Mago de Samaria. Embora não confessem o nome de seu mestre, a fim de melhor seduzir os outros, eles de fato ensinam suas doutrinas. Eles apresentam, é verdade, o nome de Cristo Jesus como uma espécie de isca, mas de vários modos introduzem as impiedades de Simão; e assim destroem multidões, perversamente disseminando suas próprias doutrinas sob o uso de um bom nome, e, por meio de sua doçura e beleza, estendendo aos seus ouvintes o veneno amargo e maligno da serpente, o grande autor da apostasia.
Muitos rebentos de numerosas heresias já se formaram a partir daqueles hereges que descrevemos. Isso decorre do fato de que muitos deles, ou melhor, podemos dizer que todos, desejam ser eles mesmos mestres e separar-se da heresia particular em que estiveram envolvidos. Formando um conjunto de doutrinas a partir de um sistema de opiniões totalmente diverso, e depois outros a partir de outros, insistem em ensinar algo novo, declarando-se os inventores de qualquer opinião que tenham sido capazes de chamar à existência. Para dar um exemplo: provenientes de Saturnino e Marcião, aqueles que se chamam encratitas (os que têm domínio próprio) pregaram contra o casamento, pondo assim de lado a criação original de Deus e censurando indiretamente aquele que fez o macho e a fêmea para a propagação da raça humana. Alguns dos que se contam entre eles também introduziram a abstinência de alimento animal, provando-se assim ingratos para com Deus, que formou todas as coisas. Negam, também, a salvação daquele que foi criado primeiro. Foi, no entanto, apenas recentemente que essa opinião foi inventada entre eles. Certo homem chamado Taciano foi o primeiro a introduzir a blasfêmia. Ele foi ouvinte de Justino, e enquanto permaneceu com ele não exprimiu tais ideias; mas, após o martírio dele, separou-se da Igreja e, excitado e inflado pelo pensamento de ser mestre, como se fosse superior aos outros, compôs seu próprio tipo peculiar de doutrina. Inventou um sistema de certos Éons invisíveis, como os seguidores de Valentim; ao passo que, como Marcião e Saturnino, declarava que o casamento não era outra coisa senão corrupção e fornicação. Mas a negação da salvação de Adão foi uma opinião devida inteiramente a ele. Outros, por sua vez, seguindo Basílides e Carpócrates, introduziram a união promíscua e a pluralidade de esposas, e são indiferentes quanto a comer carnes sacrificadas aos ídolos, sustentando que Deus não se importa muito com tais matérias. Mas para que continuar? Pois é tentativa impraticável mencionar todos aqueles que, de um modo ou de outro, se desviaram da verdade.
Além daqueles, no entanto, dentre esses hereges que são simonianos, e de quem já falamos, uma multidão de gnósticos brotou e se manifestou como cogumelos que crescem do solo. Passo agora a descrever as principais opiniões por eles sustentadas. Alguns deles, então, apresentam certo Éon que nunca envelhece e existe em um espírito virginal: a este intitulam Barbelos. Declaram que em algum lugar existe certo pai que não pode ser nomeado, e que ele desejava revelar-se a esse Barbelos. Então essa Ennœa avançou, postou-se diante de sua face e exigiu dele Prognosis (presciência). Mas quando Prognosis, como fora pedido, veio à frente, esses dois pediram Aphtharsia (incorrupção), que também veio à frente, e depois disso Zoe Aionios (vida eterna). Barbelos, gloriando-se nestes e contemplando sua grandeza, e regozijando-se com essa grandeza na concepção assim formada, gerou luz semelhante a si. Declaram que esse foi o princípio tanto da luz quanto da geração de todas as coisas; e que o Pai, contemplando essa luz, ungiu-a com sua própria benignidade, para que fosse tornada perfeita. Ademais, sustentam que esse foi Cristo, que de novo, segundo eles, pediu que Nous lhe fosse dado como auxiliar; e Nous veio à frente em conformidade. Além destes, o Pai enviou Logos. Formam-se assim as conjunções de Ennœa e Logos, e de Aphtharsia e Cristo; ao passo que Zoe Aionios foi unida a Thelema, e Nous a Prognosis. Estes, então, magnificaram a grande luz e Barbelos. Afirmam também que Autogenes foi depois enviado de Ennœa e Logos, para ser uma representação da grande luz, e que foi grandemente honrado, sendo-lhe sujeitas todas as coisas. Junto com ele foi enviada Aletheia, e formou-se uma conjunção entre Autogenes e Aletheia. Mas declaram que, da Luz, que é Cristo, e de Aphtharsia, quatro luzeiros foram enviados para rodear Autogenes; e novamente, de Thelema e Zoe Aionios, deram-se outras quatro emissões, para servir a esses quatro luzeiros; e a estes chamam Charis (graça), Thelesis (vontade), Synesis (entendimento) e Phronesis (prudência). Destes, Charis está ligada ao grande e primeiro luzeiro: a este representam como Soter (Salvador), e intitulam Armogenes. Thelesis, por sua vez, está unida ao segundo luzeiro, a quem também chamam Raguel; Synesis ao terceiro, a quem chamam Davi; e Phronesis ao quarto, a quem chamam Eleleth. Estando todos estes assim estabelecidos, Autogenes produz, ademais, um homem perfeito e verdadeiro, a quem também chamam Adamas, visto que nem ele mesmo jamais foi vencido, nem aqueles de quem proveio; ele também foi, junto com a primeira luz, apartado de Armogenes. Ademais, conhecimento perfeito foi enviado por Autogenes junto com o homem, e a ele foi unido; daí ele alcançou o conhecimento daquele que está acima de tudo. Poder invencível também lhe foi conferido pelo espírito virginal; e todas as coisas então repousaram nele, para cantar louvores ao grande Éon. Daí também declaram que se manifestaram a mãe, o pai, o filho; ao passo que de Anthropos e Gnosis foi produzida aquela Árvore a que também intitulam a própria Gnosis. Em seguida sustentam que, do primeiro anjo, que se posta ao lado de Monogenes, foi enviado o Espírito Santo, a quem também denominam Sophia e Prunicus. Ele então, percebendo que todos os demais tinham consortes, ao passo que ele mesmo estava destituído de uma, procurou um ser a quem pudesse unir-se; e, não o encontrando, esforçou-se e estendeu-se ao extremo e olhou para baixo, para as regiões inferiores, na expectativa de ali achar uma consorte; e, ainda não topando com nenhuma, saltou de seu lugar em estado de grande impaciência, que se abatera sobre ele porque fizera sua tentativa sem a boa vontade de seu pai. Depois, sob a influência da simplicidade e da bondade, produziu uma obra na qual se encontravam ignorância e audácia. Essa obra sua declaram ser Protarchontes, o formador desta criação inferior. Mas relatam que um poder poderoso o arrebatou de sua mãe, e que ele se estabeleceu longe dela, nas regiões inferiores, e formou o firmamento do céu, no qual também afirmam que ele habita. E em sua ignorância ele formou aqueles poderes que lhe são inferiores: anjos, firmamentos e todas as coisas terrenas. Afirmam que ele, unido a Authadia (audácia), produziu Kakia (maldade), Zelos (emulação), Phthonos (inveja), Erinnys (fúria) e Epithymia (luxúria). Quando estes foram gerados, a mãe Sophia, profundamente entristecida, fugiu, partiu para as regiões superiores e tornou-se a última da Ogdóade, contando de cima para baixo. Tendo ela assim partido, ele imaginou que era o único ser em existência; e por isso declarou: Eu sou um Deus zeloso, e além de mim não há nenhum outro. Tais são as falsidades que essa gente inventa.
Outros, ainda, declaram de modo monstruoso que existe, no poder de Bythos, certa luz primária, bendita, incorruptível e infinita: este é o Pai de todos, e é intitulado o primeiro homem. Sustentam também que sua Ennœa, saindo dele, produziu um filho, e que este é o filho do homem, o segundo homem. Abaixo destes, por sua vez, está o Espírito Santo, e sob esse espírito superior os elementos foram separados uns dos outros, a saber, a água, a treva, o abismo, o caos, acima dos quais declaram que o Espírito era levado, chamando-o a primeira mulher. Depois, sustentam, o primeiro homem, com seu filho, deleitando-se sobre a beleza do Espírito, isto é, da mulher, e derramando luz sobre ela, gerou dela uma luz incorruptível, o terceiro varão, a quem chamam Cristo, o filho do primeiro e do segundo homem e do Espírito Santo, a primeira mulher. O pai e o filho tiveram assim ambos comércio com a mulher (a quem também chamam a mãe dos viventes). Quando, no entanto, ela não pôde suportar nem receber em si a grandeza das luzes, declaram que ela ficou cheia até transbordar e ferveu pelo lado esquerdo; e que assim o filho único deles, Cristo, por pertencer ao lado direito e tender sempre para o que era mais alto, foi imediatamente arrebatado com sua mãe para formar um Éon incorruptível. Isso constitui a verdadeira e santa Igreja, que veio a ser a denominação, a reunião e a união do pai de todos, do primeiro homem, do filho, do segundo homem, de Cristo seu filho, e da mulher que foi mencionada. Ensinam, contudo, que o poder que procedeu da mulher por ebulição, sendo aspergido de luz, caiu para baixo do lugar ocupado por seus progenitores, possuindo, todavia, por sua própria vontade, aquela aspersão de luz; e a este chamam Sinistra, Prunicus e Sophia, bem como masculino-feminino. Esse ser, em sua simplicidade, desceu às águas enquanto estas ainda estavam em estado de imobilidade, e imprimiu-lhes movimento também, agindo lascivamente sobre elas até as suas mais baixas profundezas, e tomou delas um corpo. Pois afirmam que todas as coisas se precipitaram para aquela aspersão de luz e a ela se apegaram, e a cercaram por completo. A não ser que a possuísse, talvez ela tivesse sido totalmente absorvida e submergida pela substância material. Estando, portanto, atado a um corpo que era composto de matéria, e grandemente sobrecarregado por ele, esse poder lamentou o curso que seguira, e fez uma tentativa de escapar das águas e subir para sua mãe: não pôde, contudo, efetuá-lo, por causa do peso do corpo que jazia sobre ele e ao seu redor. Mas, sentindo-se muito mal à vontade, esforçou-se ao menos por ocultar aquela luz que vinha de cima, temendo que ela também fosse lesada pelos elementos inferiores, como acontecera a ele próprio. E quando recebeu poder daquela aspersão de luz que possuía, saltou de novo para trás e foi levado ao alto; e, estando nas alturas, estendeu-se, cobriu uma porção do espaço e formou este céu visível a partir de seu corpo; permaneceu, contudo, sob o céu que fez, por ainda possuir a forma de um corpo aquoso. Mas, quando concebeu um desejo pela luz que estava acima, e recebeu poder por todas as coisas, depôs esse corpo e dele se libertou. Esse corpo que dizem que esse poder lançou fora, chamam uma fêmea procedente de uma fêmea. Declaram, ademais, que seu filho também teve, ele mesmo, certo sopro de incorrupção deixado por sua mãe, e que por meio dele ele opera; e, tornando-se poderoso, ele mesmo, segundo afirmam, também enviou das águas um filho sem mãe; pois não admitem que ele tenha conhecido mãe alguma. Seu filho, por sua vez, à imitação de seu pai, enviou outro filho. Esse terceiro também gerou um quarto; o quarto também gerou um filho: sustentam que de novo um filho foi gerado pelo quinto; e o sexto também gerou um sétimo. Assim foi completada, segundo eles, a Hebdômade, possuindo a mãe o oitavo lugar; e, como no caso de suas gerações, assim também quanto a dignidades e poderes, eles se precedem uns aos outros por sua vez. Deram também nomes às várias pessoas de seu sistema de falsidade, tais como os seguintes: aquele que foi o primeiro descendente da mãe chama-se Ialdabaoth; este, por sua vez descendente dele, é chamado Iao; este, derivado deste, chama-se Sabaoth; o quarto chama-se Adoneu; o quinto, Eloeu; o sexto, Oreu; e o sétimo e último de todos, Astanfeu. Ademais, representam esses céus, potentados, poderes, anjos e criadores como sentados em sua ordem própria no céu, segundo sua geração, e como governando invisivelmente as coisas celestes e terrestres. O primeiro deles, a saber, Ialdabaoth, tem sua mãe em desprezo, visto que produziu filhos e netos sem a permissão de ninguém, sim, até anjos, arcanjos, poderes, potentados e dominações. Depois que essas coisas foram feitas, seus filhos puseram-se a disputar e brigar com ele a respeito do poder supremo, conduta que entristeceu profundamente Ialdabaoth e o lançou no desespero. Nessas circunstâncias, ele lançou os olhos sobre a borra subjacente da matéria e fixou nela o seu desejo, e a este desejo declaram que seu filho deve a origem. Esse filho é o próprio Nous, retorcido na forma de uma serpente; e daí derivaram o espírito, a alma e todas as coisas mundanas: deste também foram gerados todo esquecimento, maldade, emulação, inveja e morte. Declaram que o pai imprimiu ainda maior tortuosidade a essa serpentina e contorcida Nous deles, quando ele estava com o pai deles no céu e no Paraíso. Por essa razão, Ialdabaoth, exaltando-se em espírito, gabou-se sobre todas aquelas coisas que estavam abaixo dele, e exclamou: Eu sou pai e Deus, e acima de mim não há nenhum outro. Mas sua mãe, ouvindo-o falar assim, clamou contra ele: Não mintas, Ialdabaoth: pois o pai de todos, o primeiro Anthropos (homem), está acima de ti; e assim também Anthropos, o filho de Anthropos. Então, estando todos perturbados por essa nova voz e pela inesperada proclamação, e indagando de onde procedia o ruído, a fim de desviá-los e atraí-los para si, afirmam que Ialdabaoth exclamou: Vinde, façamos o homem à nossa imagem. As seis potências, ao ouvir isso, e fornecendo-lhes a mãe a ideia de um homem (para que por meio dele ela os esvaziasse de seu poder original), formaram em conjunto um homem de tamanho imenso, tanto em largura quanto em comprimento. Mas, como ele apenas podia contorcer-se pelo chão, levaram-no a seu pai; trabalhando Sophia nesta matéria de modo a esvaziá-lo (Ialdabaoth) da luz com que fora aspergido, para que ele não pudesse mais, embora ainda poderoso, erguer-se contra os poderes do alto. Declaram, então, que, ao soprar no homem o espírito de vida, ele foi secretamente esvaziado de seu poder; que daí o homem se tornou possuidor de nous (inteligência) e enthymesis (pensamento); e afirmam que estas são as faculdades que participam da salvação. Ele, asseveram ainda, deu logo graças ao primeiro Anthropos (homem), abandonando aqueles que o haviam criado. Mas Ialdabaoth, sentindo inveja disso, agradou-se de conceber o plano de esvaziar de novo o homem por meio da mulher, e produziu uma mulher de sua própria enthymesis, a qual aquele Prunicus acima mencionado, apoderando-se dela, imperceptivelmente esvaziou de poder. Mas os outros, vindo e admirando sua beleza, deram-lhe o nome de Eva, e, apaixonando-se por ela, geraram dela filhos, a quem também declaram serem os anjos. Mas a mãe deles (Sophia) astuciosamente engendrou um ardil para seduzir Eva e Adão, por meio da serpente, a transgredir o mandamento de Ialdabaoth. Eva escutou isto como se procedesse de um filho de Deus, e cedeu uma crença fácil. Ela também persuadiu Adão a comer da árvore a respeito da qual Deus dissera que não comessem dela. Declaram então que, ao comerem assim, alcançaram o conhecimento daquele poder que está acima de tudo, e se apartaram dos que os haviam criado. Quando Prunicus percebeu que os poderes foram assim frustrados por sua própria criatura, regozijou-se grandemente, e clamou de novo que, já que o pai era incorruptível, aquele (Ialdabaoth) que antes se chamava o pai era um mentiroso; e que, ao passo que Anthropos e a primeira mulher (o Espírito) existiam previamente, esta (Eva) pecou cometendo adultério. Ialdabaoth, contudo, por causa daquele esquecimento em que estava envolto, e não dando atenção alguma a essas coisas, lançou Adão e Eva para fora do Paraíso, porque haviam transgredido seu mandamento. Pois ele tinha o desejo de gerar filhos de Eva, mas não realizou seu desejo, porque sua mãe se lhe opôs em todos os pontos, e secretamente esvaziou Adão e Eva da luz com que haviam sido aspergidos, a fim de que aquele espírito que procedia do poder supremo não participasse nem da maldição nem do opróbrio causados pela transgressão. Ensinam também que, sendo assim esvaziados da substância divina, eles foram amaldiçoados por ele e lançados do céu para este mundo. Mas a serpente também, que agira contra o pai, foi por ele lançada a este mundo inferior; ela reduziu, contudo, sob seu poder os anjos daqui, e gerou seis filhos, formando ela mesma a sétima pessoa, à imitação daquela Hebdômade que cerca o pai. Declaram ainda que estes são os sete demônios do mundo, que sempre se opõem e resistem à raça humana, porque foi por causa deles que seu pai foi lançado a este mundo inferior. Adão e Eva tinham previamente corpos luminosos, claros e, por assim dizer, espirituais, tais como eram em sua criação; mas, quando vieram a este mundo, estes se transformaram em corpos mais opacos, grosseiros e lentos. Sua alma também era débil e lânguida, visto que haviam recebido de seu criador uma inspiração meramente mundana. Isso perdurou até que Prunicus, movido de compaixão para com eles, lhes restituiu o suave odor da aspersão de luz, por meio do qual chegaram a uma lembrança de si mesmos, e souberam que estavam nus, bem como que o corpo era uma substância material, e assim reconheceram que carregavam a morte consigo. Tornaram-se então pacientes, sabendo que apenas por um tempo estariam envoltos no corpo. Acharam também alimento, sob a orientação de Sophia; e, quando ficaram saciados, tiveram conhecimento carnal um do outro, e geraram Caim, a quem a serpente, que fora lançada para baixo juntamente com seus filhos, imediatamente se apoderou e destruiu, enchendo-o de esquecimento mundano e impelindo-o à insensatez e à audácia, de modo que, ao matar seu irmão Abel, foi o primeiro a trazer à luz a inveja e a morte. Depois destes, afirmam que, pela providência de Prunicus, foi gerado Sete, e depois Norea, dos quais representam que descende todo o resto da humanidade. Foram impelidos a toda espécie de maldade pela Hebdômade inferior, e à apostasia, à idolatria e a um desprezo geral por tudo pela Hebdômade santa superior, já que a mãe lhes era sempre secretamente contrária, e guardava cuidadosamente o que era peculiarmente seu, isto é, a aspersão de luz. Sustentam, ademais, que a santa Hebdômade são as sete estrelas que chamam planetas; e afirmam que a serpente lançada para baixo tem dois nomes, Miguel e Samael. Ialdabaoth, por sua vez, indignado com os homens, porque não o adoravam nem o honravam como pai e Deus, enviou um dilúvio sobre eles, para que pudesse de uma só vez destruí-los todos. Mas Sophia opôs-se-lhe também neste ponto, e Noé e sua família foram salvos na arca por meio da aspersão daquela luz que dela procedia, e por meio dela o mundo foi de novo enchido de humanidade. O próprio Ialdabaoth escolheu certo homem chamado Abraão dentre estes, e fez com ele uma aliança, no sentido de que, se sua semente continuasse a servi-lo, ele lhes daria a terra por herança. Depois, por meio de Moisés, ele trouxe os descendentes de Abraão para fora do Egito, e deu-lhes a lei, e fez deles os judeus. Entre aquele povo ele escolheu sete dias, a que também chamam a santa Hebdômade. Cada um destes recebe seu próprio arauto, com o propósito de glorificar e proclamar Deus; de modo que, quando os demais ouvem esses louvores, também eles sirvam àqueles que são anunciados como deuses pelos profetas. Ademais, distribuem os profetas da seguinte maneira: Moisés, e Josué filho de Num, e Amós, e Habacuque, pertenciam a Ialdabaoth; Samuel, e Natã, e Jonas, e Miqueias, a Iao; Elias, Joel e Zacarias, a Sabaoth; Isaías, Ezequiel, Jeremias e Daniel, a Adonai; Tobias e Ageu, a Eloi; Micaías e Naum, a Oreu; Esdras e Sofonias, a Astanfeu. Cada um destes, então, glorifica seu próprio pai e Deus, e sustentam que a própria Sophia também falou muitas coisas por meio deles a respeito do primeiro Anthropos (homem), e a respeito daquele Cristo que está acima, admoestando assim e lembrando os homens da luz incorruptível, do primeiro Anthropos, e da descida de Cristo. Os demais poderes, aterrorizados por essas coisas e maravilhados com a novidade daquilo que era anunciado pelos profetas, Prunicus fez com que, por meio de Ialdabaoth (que não sabia o que fazia), se dessem as emissões de dois homens, um da estéril Isabel e o outro da Virgem Maria. E, visto que ela mesma não tinha descanso nem no céu nem na terra, invocou sua mãe para assisti-la em sua aflição. Diante disso, sua mãe, a primeira mulher, foi movida de compaixão para com a filha, por causa de seu arrependimento, e implorou ao primeiro homem que Cristo fosse enviado em seu auxílio; o qual, sendo enviado, desceu até sua irmã e até a aspersão de luz. Quando ele a reconheceu (isto é, a Sophia de baixo), seu irmão desceu até ela, e anunciou sua vinda por meio de João, e preparou o batismo do arrependimento, e adotou Jesus de antemão, a fim de que, ao descer Cristo, ele encontrasse um vaso puro, e que, pelo filho daquele Ialdabaoth, a mulher fosse anunciada por Cristo. Declaram ainda que ele desceu pelos sete céus, tendo assumido a semelhança de seus filhos, e gradualmente os esvaziou de seu poder. Pois sustentam que toda a aspersão de luz se precipitou para ele, e que Cristo, descendo a este mundo, primeiro revestiu dela sua irmã Sophia, e que então ambos exultaram no mútuo refrigério que sentiram na companhia um do outro: cena que descrevem como referente a noivo e noiva. Mas Jesus, visto que foi gerado da Virgem por obra de Deus, era mais sábio, mais puro e mais justo do que todos os demais homens: Cristo, unido a Sophia, desceu nele, e assim foi produzido Jesus Cristo. Afirmam que muitos de seus discípulos não tinham consciência da descida de Cristo nele; mas que, quando Cristo de fato desceu sobre Jesus, este então começou a operar milagres, e a curar, e a anunciar o Pai desconhecido, e a confessar-se abertamente o filho do primeiro homem. Os poderes e o pai de Jesus irritaram-se com esses procedimentos, e trabalharam para destruí-lo; e quando ele estava sendo levado para esse fim, dizem que o próprio Cristo, junto com Sophia, partiu dele para o estado de um Éon incorruptível, enquanto Jesus foi crucificado. Cristo, contudo, não se esqueceu de seu Jesus, mas enviou-lhe do alto certa energia, que o levantou de novo no corpo, ao qual chamam tanto animal quanto espiritual; pois ele mandou as partes mundanas de volta para o mundo. Quando seus discípulos viram que ele havia ressurgido, não o reconheceram, não, nem mesmo o próprio Jesus, por quem ele ressurgiu dentre os mortos. E asseveram que prevaleceu entre seus discípulos este grande erro: que imaginaram que ele havia ressurgido num corpo mundano, não sabendo que carne e sangue não alcançam o reino de Deus. Esforçaram-se por estabelecer a descida e a ascensão de Cristo pelo fato de que nem antes de seu batismo, nem após sua ressurreição dentre os mortos, declaram seus discípulos que ele fez quaisquer obras poderosas, não estando cientes de que Jesus estava unido a Cristo, e o Éon incorruptível à Hebdômade; e declaram que seu corpo mundano é da mesma natureza que o dos animais. Mas, após sua ressurreição, ele demorou na terra dezoito meses; e, descendo o conhecimento sobre ele do alto, ensinou o que era claro. Instruiu nessas coisas alguns poucos de seus discípulos, a quem sabia capazes de compreender mistérios tão grandes, e foi então recebido no céu, sentando-se Cristo à direita de seu pai Ialdabaoth, para que recebesse para si as almas daqueles que os conheceram, depois que estes tivessem deposto sua carne mundana, enriquecendo-se assim sem o conhecimento ou a percepção de seu pai; de modo que, na proporção em que Jesus se enriquece de almas santas, nessa mesma medida seu pai sofre perda e é diminuído, sendo esvaziado de seu próprio poder por essas almas. Pois ele já não possuirá almas santas para enviá-las de novo ao mundo, exceto apenas aquelas que são de sua substância, isto é, aquelas nas quais ele soprou. Mas a consumação de todas as coisas se dará quando toda a aspersão do espírito de luz for reunida e arrebatada para formar um Éon incorruptível. Tais são as opiniões que prevalecem entre essas pessoas, pelas quais, como a hidra de Lerna, foi gerada uma fera de muitas cabeças a partir da escola de Valentim. Pois alguns deles afirmam que a própria Sophia se tornou a serpente; por cuja razão ela era hostil ao criador de Adão, e implantou conhecimento nos homens, e por essa razão a serpente foi chamada mais sábia que todas as outras. Ademais, pela posição de nossos intestinos, pelos quais o alimento é conduzido, e pelo fato de possuírem tal figura, nossa configuração interna em forma de serpente revela nossa oculta geratriz.
Outros, por sua vez, declaram que Caim derivou seu ser do Poder de cima, e reconhecem que Esaú, Coré, os sodomitas e todas essas pessoas lhes são aparentados. Por essa razão, acrescentam, foram atacados pelo Criador, mas nenhum deles sofreu dano. Pois Sophia costumava arrebatar para si o que lhe pertencia neles. Declaram que Judas, o traidor, estava plenamente a par dessas coisas, e que somente ele, conhecendo a verdade como nenhum outro, consumou o mistério da traição; por ele todas as coisas, tanto terrenas quanto celestes, foram assim lançadas em confusão. Produzem uma história fictícia desse tipo, a que intitulam o Evangelho de Judas. Também fiz uma coleção dos escritos deles, nos quais defendem a abolição das obras de Hystera. Ademais, chamam essa Hystera a criadora do céu e da terra. Sustentam também, como Carpócrates, que os homens não podem ser salvos enquanto não tiverem passado por toda espécie de experiência. Um anjo, mantêm eles, os acompanha em cada uma de suas ações pecaminosas e abomináveis, e os incita a ousar a audácia e a incorrer na impureza. Qualquer que seja a natureza da ação, declaram que a fazem em nome do anjo, dizendo: Ó tu, anjo, faço uso de tua obra; ó tu, poder, realizo tua operação! E sustentam que isto é o conhecimento perfeito, sem recuar de se lançar em tais ações que não é lícito sequer nomear. Era necessário provar com clareza que, como suas próprias opiniões e regulamentos os exibem, aqueles que são da escola de Valentim derivam sua origem de tais mães, pais e antepassados, e também trazer à tona suas doutrinas, na esperança de que talvez alguns deles, exercendo o arrependimento e voltando ao único Criador, e a Deus, o Formador do universo, possam obter a salvação, e que outros não sejam doravante arrastados por suas perversas, ainda que plausíveis, persuasões, imaginando que obterão deles o conhecimento de alguns mistérios maiores e mais sublimes. Mas que eles antes, aprendendo de nós para bom efeito as perversas doutrinas desses homens, olhem com desprezo para seus ensinamentos, ao mesmo tempo em que se compadeçam daqueles que, ainda apegados a essas miseráveis e infundadas fábulas, chegaram a tal ponto de arrogância que se reputam superiores a todos os outros em razão de tal conhecimento, ou, como melhor se deveria chamá-lo, ignorância. Eles agora foram plenamente expostos; e simplesmente exibir seus pensamentos é obter uma vitória sobre eles. Por isso me esforcei por trazer à tona e tornar claramente manifesta a carcaça totalmente malformada dessa miserável raposinha. Pois agora não haverá necessidade de muitas palavras para derrubar seu sistema de doutrina, já que ele foi tornado manifesto a todos. É como quando, escondendo-se uma fera num bosque, e tendo o costume de, irrompendo dele, destruir multidões, aquele que bate ao redor do bosque e o explora a fundo, de modo a forçar o animal a sair de seu abrigo, não se empenha em capturá-lo, vendo que é verdadeiramente uma fera feroz; mas os que estão presentes podem então vigiar e evitar seus ataques, e arremessar-lhe dardos de todos os lados, e feri-lo, e por fim matar aquele bruto destrutivo. Assim, em nosso caso, já que trouxemos à luz seus mistérios ocultos, que eles mantêm em silêncio entre si, já não será necessário usar muitas palavras para destruir seu sistema de opiniões. Pois agora está em teu poder, e no poder de todos os teus companheiros, familiarizar-vos com o que foi dito, derrubar suas perversas e indigestas doutrinas, e expor doutrinas conformes à verdade. Já que, então, é assim o caso, eu, segundo prometi, e na medida em que minha capacidade permita, hei de esforçar-me por derrubá-los, refutando-os a todos no livro seguinte. Até dar conta deles é um assunto enfadonho, como vês. Mas hei de fornecer meios para derrubá-los, enfrentando todas as suas opiniões na ordem em que foram descritas, para que eu não apenas exponha a fera selvagem à vista, mas também lhe inflija feridas de todos os lados.