Contra as Heresias - Livro I 3

Exposicao dos sistemas gnosticos

Valentinianos, Ptolomeu e Marcos, o mago

Olhemos agora para as opiniões contraditórias desses hereges (pois existem uns dois ou três deles), como eles nem ao menos concordam entre si ao tratar dos mesmos pontos, mas, ao contrário, tanto nas coisas quanto nos nomes apresentam opiniões mutuamente discordantes. O primeiro deles, Valentim, que adaptou os princípios da heresia chamada gnóstica ao caráter peculiar de sua própria escola, ensinava o seguinte: sustentava que existe uma certa Díade (um ser duplo), inexprimível por qualquer nome, da qual uma parte deveria chamar-se Arreto (o indizível) e a outra Sige (o silêncio). Mas dessa Díade foi produzida uma segunda, uma de cujas partes ele chama Pater e a outra Aleteia. Dessa Tétrade, por sua vez, surgiram Logos e Zoé, Antropos e Eclésia. Estes constituem a Ogdóade primária. Em seguida ele afirma que de Logos e Zoé foram produzidos dez poderes, como mencionamos antes. Mas de Antropos e Eclésia procederam doze, um dos quais, separando-se dos demais e caindo de sua condição original, produziu o resto do universo. Ele também supôs dois seres com o nome de Horos: um deles tem seu lugar entre Bythos e o restante do Pleroma, e separa os Éons criados do Pai incriado, enquanto o outro separa a mãe deles do Pleroma. Cristo também não foi produzido pelos Éons dentro do Pleroma, mas foi gerado pela mãe que dele havia sido excluída, em virtude da lembrança que ela guardava de coisas melhores, embora não sem uma espécie de sombra. Ele, de fato, por ser masculino, tendo separado de si a sombra, retornou ao Pleroma; mas sua mãe, ficando com a sombra e privada de sua substância espiritual, gerou outro filho, a saber, o Demiurgo, a quem ele também chama de governante supremo de todas as coisas que lhe são sujeitas. Ele afirma ainda que, junto com o Demiurgo, foi produzido um poder da mão esquerda, ponto em que concorda com aqueles falsamente chamados gnósticos, dos quais ainda temos de falar. Outras vezes, no entanto, ele sustenta que Jesus foi produzido a partir daquele que se separou da mãe deles e se uniu aos demais, isto é, a partir de Teleto; outras vezes, como brotando daquele que retornou ao Pleroma, isto é, de Cristo; e em outros momentos ainda, como derivado de Antropos e Eclésia. E declara que o Espírito Santo foi produzido por Aleteia para a inspeção e fecundação dos Éons, entrando neles invisivelmente, e que, dessa maneira, os Éons fizeram brotar as plantas da verdade. Secundo, por sua vez, afirma que a Ogdóade primária consiste numa Tétrade da mão direita e numa Tétrade da mão esquerda, e ensina que uma delas se chama luz e a outra trevas. Mas sustenta que o poder que se separou dos demais e decaiu não procedeu diretamente dos trinta Éons, mas dos frutos deles. outro, que é um mestre renomado entre eles, e que, esforçando-se por alcançar algo mais sublime e por atingir uma espécie de conhecimento superior, explicou a Tétrade primária da seguinte forma: existe, diz ele, uma certa Proarqué que existia antes de todas as coisas, superando todo pensamento, fala e nomenclatura, a quem chamo Monotes (unidade). Junto com essa Monotes existe um poder, que por sua vez denomino Henotes (unicidade). Essa Henotes e essa Monotes, sendo uma só, produziram, mas não de modo a gerar (fora de si mesmas, como uma emanação) o princípio de todas as coisas, um ser inteligente, ingênito e invisível, princípio que a linguagem chama de Mônada. Com essa Mônada coexiste um poder da mesma essência, que por sua vez denomino Hen (Um). Esses poderes, então, Monotes, Henotes, Mônas e Hen, produziram o restante da companhia dos Éons. Iu, Iu! Feu, Feu! Pois bem podemos proferir essas exclamações trágicas diante de tamanha ousadia na cunhagem de nomes que ele demonstrou sem corar, ao inventar uma nomenclatura para o seu sistema de falsidade. Pois, quando ele declara: existe uma certa Proarqué antes de todas as coisas, superando todo pensamento, a quem chamo Monotes; e de novo, junto com essa Monotes coexiste um poder a que também chamo Henotes; fica manifestíssimo que ele confessa serem invenção sua as coisas que disse, e que ele mesmo deu nomes ao seu esquema de coisas, nomes que nunca antes haviam sido sugeridos por nenhum outro. Fica manifesto também que ele mesmo é quem teve audácia suficiente para cunhar esses nomes, de modo que, se ele não tivesse aparecido no mundo, a verdade ainda estaria sem nome. Mas, nesse caso, nada impede que qualquer outro, ao tratar do mesmo assunto, fixe nomes desta maneira: existe uma certa Proarqué, régia, superando todo pensamento, um poder existente antes de toda outra substância e estendido no espaço em todas as direções. Mas junto com ela existe um poder a que chamo Abóbora; e junto com essa Abóbora existe um poder a que de novo chamo Vacuidade Absoluta. Essa Abóbora e essa Vacuidade, por serem uma só, produziram (e contudo não produziram simplesmente, de modo a ficar fora de si mesmas) um fruto, visível por toda parte, comestível e delicioso, fruto a que a linguagem chama Pepino. Junto com esse Pepino existe um poder da mesma essência, a que de novo chamo Melão. Esses poderes, a Abóbora, a Vacuidade Absoluta, o Pepino e o Melão, fizeram brotar a multidão restante dos delirantes melões de Valentim. Pois se é cabível que a linguagem usada a respeito do universo seja transformada na Tétrade primária, e se qualquer um pode atribuir nomes a seu bel-prazer, quem nos impedirá de adotar estes nomes, por serem muito mais críveis (do que os outros), além de serem de uso geral e compreendidos por todos? Outros ainda, no entanto, chamaram a sua Ogdóade primária e primogênita pelos seguintes nomes: primeiro, Proarqué; depois, Anenoeto; em terceiro, Arreto; e em quarto, Aorato. Então, do primeiro, Proarqué, foi produzido, no primeiro e quinto lugar, Arqué; de Anenoeto, no segundo e sexto lugar, Acataleto; de Arreto, no terceiro e sétimo lugar, Anonomasto; e de Aorato, no quarto e oitavo lugar, Agêneto. Este é o Pleroma da primeira Ogdóade. Eles sustentam que esses poderes eram anteriores a Bythos e Sige, para que pareçam mais perfeitos do que os perfeitos e mais conhecedores do que os próprios gnósticos! A essas pessoas pode-se com justiça exclamar: ó vós, sofistas frívolos! Pois mesmo a respeito do próprio Bythos entre eles muitas opiniões discordantes. Pois alguns o declaram sem consorte, nem macho nem fêmea, e, de fato, absolutamente nada; enquanto outros afirmam que ele é macho e fêmea ao mesmo tempo, atribuindo-lhe a natureza de um hermafrodita; outros, ainda, dão-lhe Sige por esposa, para que assim se forme a primeira conjunção.