Contra as Heresias - Livro I 1

Exposicao dos sistemas gnosticos

Havendo assim três tipos de substâncias, declaram, de tudo o que é material (que também descrevem como estando à mão esquerda), que necessariamente deve perecer, visto que é incapaz de receber qualquer sopro de incorrupção. Quanto a toda existência animal (que também denominam à mão direita), sustentam que, por ser um meio-termo entre o espiritual e o material, ela passa para o lado ao qual a inclinação a puxa. A substância espiritual, de novo, descrevem como tendo sido emitida para este fim: que, unida aqui àquilo que é animal, ela assumisse forma, sendo os dois elementos simultaneamente submetidos à mesma disciplina. E a isso declaram ser o sal e a luz do mundo, segundo Mateus 5:13-14. Pois a substância animal tinha necessidade de treino por meio dos sentidos externos; e por essa razão afirmam que o mundo foi criado, bem como que o Salvador veio à substância animal (que possuía livre-arbítrio), para garantir a salvação dela. Pois afirmam que ele recebeu as primícias daqueles que haveria de salvar do seguinte modo: de Achamoth, aquilo que era espiritual, enquanto foi revestido pelo Demiurgo do Cristo animal, mas foi cingido, por uma dispensação especial, de um corpo dotado de natureza animal, ainda que construído com indizível habilidade, de modo que pudesse ser visível e tangível, e capaz de suportar o sofrimento. Ao mesmo tempo, negam que ele assumiu em sua natureza qualquer coisa material, que a matéria é incapaz de salvação. Sustentam ainda que a consumação de todas as coisas ocorrerá quando tudo o que é espiritual tiver sido formado e aperfeiçoado pela Gnosis (conhecimento); e com isso querem dizer os homens espirituais que alcançaram o conhecimento perfeito de Deus e foram iniciados nesses mistérios por Achamoth. E eles se representam como sendo essas pessoas. Os homens animais, de novo, são instruídos nas coisas animais; tais homens, a saber, como os que são estabelecidos por suas obras e por uma mera fé, ao passo que não têm conhecimento perfeito. Nós, da Igreja, dizem eles, somos essas pessoas. Por isso também sustentam que as boas obras nos são necessárias, pois, de outro modo, é impossível que sejamos salvos. Mas, quanto a si mesmos, sustentam que serão inteira e indubitavelmente salvos, não por meio da conduta, mas porque são espirituais por natureza. Pois, assim como é impossível que a substância material participe da salvação (já que, de fato, sustentam que ela é incapaz de recebê-la), assim, de novo, é impossível que a substância espiritual (com a qual querem dizer eles mesmos) jamais caia sob o poder da corrupção, qualquer que seja o tipo de ações em que se envolvam. Pois, assim como o ouro, quando submerso na imundície, não perde por isso a sua beleza, mas conserva as suas qualidades nativas, não tendo a imundície poder algum para danificar o ouro, assim afirmam que eles não podem em medida alguma sofrer dano nem perder a sua substância espiritual, quaisquer que sejam as ações materiais em que possam estar envolvidos. Por isso também acontece que os mais perfeitos entre eles se entregam sem medo a todos aqueles tipos de atos proibidos sobre os quais as Escrituras nos asseguram que os que praticam tais coisas não herdarão o reino de Deus, segundo Gálatas 5:21. Por exemplo, não fazem escrúpulo de comer carnes oferecidas em sacrifício a ídolos, imaginando que dessa maneira não podem contrair contaminação alguma. Depois, de novo, em toda festa pagã celebrada em honra dos ídolos, esses homens são os primeiros a se reunir; e a tal ponto chegam que alguns deles nem sequer se afastam daquele espetáculo sangrento, odioso tanto a Deus quanto aos homens, em que gladiadores ou lutam com feras ou se enfrentam um a um. Outros entre eles se entregam com a máxima avidez aos desejos da carne, sustentando que as coisas carnais devem ser permitidas à natureza carnal, ao passo que as coisas espirituais são providas para o espiritual. Alguns deles, além disso, têm o hábito de macular aquelas mulheres a quem ensinaram a doutrina acima, como tem sido frequentemente confessado por aquelas mulheres que foram desviadas por alguns deles, ao retornarem à Igreja de Deus e reconhecerem isto juntamente com o resto de seus erros. Outros entre eles, também, abertamente e sem corar, tendo se apaixonado por certas mulheres, seduzem-nas para longe de seus maridos e contraem matrimônios próprios com elas. Outros, de novo, que a princípio fingem viver em toda modéstia com elas como com irmãs, foram com o tempo desmascarados em suas verdadeiras cores, quando a irmã foi encontrada grávida de seu suposto irmão. E, cometendo muitas outras abominações e impiedades, eles nos difamam (a nós que, pelo temor de Deus, nos guardamos de pecar até em pensamento ou palavra) como pessoas absolutamente desprezíveis e ignorantes, ao mesmo tempo que se exaltam altamente, e pretendem ser perfeitos e a semente eleita. Pois declaram que nós simplesmente recebemos graça para uso, razão pela qual ela nos será de novo tirada; mas que eles próprios têm a graça como sua posse especial, que desceu do alto por meio de uma indizível e indescritível conjunção; e por essa razão mais lhes será dado, segundo Lucas 19:26. Sustentam, portanto, que de toda maneira é sempre necessário para eles praticar o mistério da conjunção. E, para persuadir os irrefletidos a crer nisto, têm o hábito de usar estas mesmíssimas palavras: Todo aquele que, estando neste mundo, não ama uma mulher de modo a obter posse dela, não é da verdade, nem alcançará a verdade. Mas todo aquele que, sendo deste mundo, tem relações com uma mulher, não alcançará a verdade, porque agiu assim sob o poder da concupiscência. Por essa razão, dizem-nos que é necessário para nós, a quem chamam de homens animais e descrevem como sendo do mundo, praticar a continência e as boas obras, para que por esse meio possamos enfim chegar à morada intermediária; mas que para eles, que são chamados de espirituais e perfeitos, tal conduta não é de modo algum necessária. Pois não é conduta de tipo algum que conduz ao Pleroma, mas a semente enviada dali em um estado frágil e imaturo, e aqui levada à perfeição.