Contra Celso - Livro IV 9
A providência divina e a descida de Deus aos homens
Em seguida, com muitas palavras, ele nos censura por afirmarmos que Deus fez todas as coisas em prol do homem. Porque, a partir da história dos animais e da sagacidade que eles manifestam, ele quer mostrar que todas as coisas vieram à existência não mais em prol do homem do que dos animais irracionais. E aqui ele me parece falar de modo semelhante aos que, por aversão a seus inimigos, os acusam das mesmas coisas pelas quais seus próprios amigos são elogiados. Pois assim como, no exemplo referido, o ódio cega essas pessoas, impedindo-as de ver que estão acusando seus mais queridos amigos pelos mesmos meios com que pensam estar caluniando seus inimigos, do mesmo modo Celso, também, ficando confuso em seu argumento, não vê que está formulando uma acusação contra os filósofos do Pórtico, que, e não sem razão, colocam o homem na primeira fila, e a natureza racional em geral acima dos animais irracionais, e que sustentam que a Providência criou todas as coisas principalmente por causa da natureza racional. Os seres racionais, então, por serem os principais, ocupam o lugar, por assim dizer, das crianças no ventre, enquanto os seres irracionais e sem alma ocupam o do invólucro que é criado junto com a criança. Penso, também, que assim como nas cidades os superintendentes dos bens e do mercado desempenham suas funções em prol de nenhum outro senão os seres humanos, enquanto os cães e outros animais irracionais se beneficiam do excedente, do mesmo modo a Providência provê de maneira especial pelas criaturas racionais; mas disso também se segue que as criaturas irracionais igualmente desfrutam do benefício do que é feito em prol do homem. E assim como erra quem alega que os superintendentes dos mercados fazem provisão em grau não maior para os homens do que para os cães, porque os cães também têm sua parte dos bens, do mesmo modo, em grau muito maior, são Celso e os que pensam como ele culpados de impiedade contra o Deus que provê pelos seres racionais, ao afirmarem que seus arranjos são feitos em grau não maior para a sustentação dos seres humanos do que para a das plantas, das árvores, das ervas e dos espinhos.