Contra Celso - Livro IV 10

A providência divina e a descida de Deus aos homens

Depois de falar das abelhas, para depreciar tanto quanto pode as cidades, as constituições, os governos e as soberanias, não de nós cristãos, mas de toda a humanidade, e também as guerras que os homens travam em favor de suas pátrias, Celso passa, num desvio, a fazer um elogio das formigas. Ele quer, ao louvá-las, comparar as medidas que os homens tomam para garantir seu sustento com as adotadas por esses insetos, e assim mostrar seu desprezo pela previdência que se prepara para o inverno, como se ela não fosse nada mais elevado do que a providência irracional das formigas, conforme ele a considera. Ora, alguns dos mais simples de espírito, que não sabem investigar a natureza de todas as coisas, não poderiam ser desviados, ao menos na medida em que Celso conseguisse, de ajudar aqueles que estão sobrecarregados pelos fardos da vida e de partilhar de suas labutas, quando ele diz das formigas que elas se ajudam mutuamente com suas cargas ao verem uma delas se esforçando sob o peso? Pois aquele que precisa ser disciplinado pela palavra, mas que não entende em nada a sua voz, dirá: que, então, não diferença entre nós e as formigas, mesmo quando ajudamos os que estão cansados de carregar seus fardos pesados, por que continuaríamos a fazê-lo sem propósito? E as formigas, sendo criaturas irracionais, não ficariam muito envaidecidas e cheias de si por terem suas obras comparadas às dos homens? Enquanto os homens, por outro lado, que pela razão são capazes de ouvir como sua filantropia para com os outros é desprezada, seriam prejudicados, na medida em que Celso e seus argumentos pudessem fazê-lo. Pois ele não percebe que, ao querer afastar do cristianismo aqueles que leem seu tratado, ele também afasta a solidariedade dos que não são cristãos para com os que carregam os fardos mais pesados da vida. Mas se ele fosse um filósofo, capaz de perceber o bem que os homens podem fazer uns aos outros, deveria, além de não suprimir junto com o cristianismo as bênçãos que se encontram entre os homens, ter dado sua ajuda para cooperar, se estivesse em seu poder, com aqueles princípios de excelência que são comuns ao cristianismo e ao restante da humanidade. Além disso, ainda que as formigas separem num lugar à parte os grãos que brotam, para que não desabrochem, mas durem o ano todo como seu alimento, isso não deve ser tomado como prova da existência de razão entre as formigas, mas como obra da mãe universal, a Natureza, que ornou até os animais irracionais, de modo que mesmo o mais insignificante não foi esquecido, mas traz vestígios da razão nele implantada pela natureza. A menos, é claro, que com essas afirmações Celso queira insinuar de modo velado (pois em muitos casos ele gostaria de adotar ideias platônicas) que todas as almas são da mesma espécie, e que não diferença entre a de um homem e as das formigas e abelhas. Isso é próprio de quem faria a alma descer da abóbada do céu e a faria entrar não num corpo humano, mas no de um animal. Os cristãos, no entanto, não darão seu assentimento a tais opiniões, pois foram ensinados de que a alma humana foi criada à imagem de Deus. E veem que é impossível que uma natureza moldada à imagem divina tenha suas feições originais completamente apagadas e assuma outras, formadas segundo não sei que semelhança de animais irracionais.
E que ele afirma que, quando as formigas morrem, as sobreviventes reservam um lugar especial para o sepultamento, e que tal lugar é o sepulcro de seus antepassados, temos que responder o seguinte: quanto mais louvores ele acumula sobre os animais irracionais, tanto mais engrandece, embora contra a sua vontade, a obra daquela razão que ordenou todas as coisas, e tanto mais aponta a habilidade que existe entre os homens, capaz de ornar com sua razão até os dons que a natureza concede à criação irracional. Mas por que digo irracional, se Celso é da opinião de que esses animais, que segundo as ideias comuns de todos os homens são chamados irracionais, não o são de fato? Ele não considera as formigas desprovidas de razão, ele que se propunha a falar da natureza universal e que se gabava de sua veracidade na inscrição de seu livro. Pois, falando das formigas conversando umas com as outras, ele usa a seguinte linguagem: e quando se encontram, entram em conversa, razão pela qual nunca erram o caminho. Por consequência, elas possuem uma plena dotação de razão, algumas ideias comuns sobre certos assuntos gerais e uma voz com a qual se expressam a respeito de coisas acidentais. Ora, a conversa entre um homem e outro se por meio de uma voz que expressão ao sentido pretendido, e que também emite enunciados sobre o que se chama de coisas acidentais. Mas dizer que isso acontecia com as formigas seria uma afirmação completamente ridícula.
Ele ainda não se envergonha de dizer, além dessas afirmações (para que o caráter indecoroso de suas opiniões fique manifesto aos que viverem depois dele): vejamos, se alguém olhasse do céu para a terra, em que aspecto nossas ações pareceriam diferir das formigas e das abelhas? Ora, aquele que, segundo a sua própria suposição, olha do céu para o que fazem os homens e as formigas, olha apenas para seus corpos, e não antes para a razão controladora que é posta em ação pela reflexão? Ao passo que, por outro lado, o princípio diretor das formigas é irracional, posto em movimento de modo irracional pelo impulso e pela imaginação, em conjunto com certo aparato natural. Mas é absurdo supor que aquele que olha do céu para as coisas terrenas quisesse, de tão longe, olhar para os corpos dos homens e das formigas, e não antes considerar a natureza dos princípios diretores e a fonte dos impulsos, se ela é racional ou irracional. E se ele uma vez olhasse para a fonte de todos os impulsos, é evidente que veria também a diferença que existe e a superioridade do homem, não sobre as formigas, mas até sobre os elefantes. Pois quem olha do céu verá entre as criaturas irracionais, por maiores que sejam seus corpos, nenhum outro princípio senão, por assim dizer, a irracionalidade. entre os seres racionais ele descobrirá a razão, posse comum dos homens, dos seres divinos e celestiais, e talvez do próprio Deus Supremo. É por causa dela que se diz que o homem foi criado à imagem de Deus, pois a imagem do Deus Supremo é a sua razão.
Logo em seguida, como que se esforçando ao máximo para rebaixar ainda mais a raça humana e nivelá-la aos animais irracionais, e desejando não omitir nenhuma circunstância relatada destes que manifeste a sua grandeza, ele declara que em certos indivíduos da criação irracional existe o poder da feitiçaria. Assim, nem mesmo nesse ponto os homens podem se orgulhar de modo especial nem reivindicar superioridade sobre as criaturas irracionais. E estas são suas palavras: se, no entanto, os homens nutrem ideias elevadas por possuírem o poder da feitiçaria, ainda assim, mesmo nesse aspecto, as serpentes e as águias os superam em sabedoria, pois conhecem muitos antídotos contra pessoas e doenças, e também as virtudes de certas pedras que ajudam a preservar seus filhotes. Os homens, no entanto, se topam com essas pedras, julgam ter conseguido uma posse maravilhosa. Ora, em primeiro lugar, não sei por que ele chamaria de feitiçaria o conhecimento de antídotos naturais que os animais demonstram, seja esse conhecimento fruto da experiência, seja de algum poder natural de apreensão, pois o termo feitiçaria foi atribuído pelo uso a outra coisa. Talvez, na verdade, ele queira, discretamente, como um epicurista, censurar todo o uso de tais artes, como se elas se baseassem apenas nas alegações dos feiticeiros. Mas concedamos a ele que os homens de fato muito se orgulham do conhecimento de tais artes, sejam eles feiticeiros ou não. Como podem as serpentes ser, nesse aspecto, mais sábias que os homens, quando usam o conhecido funcho para aguçar a visão e ganhar rapidez de movimento, tendo obtido esse poder natural não pelo exercício da reflexão, mas pela constituição de seu corpo? Enquanto os homens, ao contrário das serpentes, não chegam a tal conhecimento apenas pela natureza, mas em parte pela experimentação, em parte pela razão, e às vezes pela reflexão e pelo saber. Assim, se as águias também, para preservar seus filhotes no ninho, levam para a pedra-da-águia quando a descobrem, como se conclui daí que elas são sábias e mais inteligentes que os homens, que descobrem pelo exercício de suas faculdades reflexivas e de seu entendimento aquilo que foi concedido às águias pela natureza como um dom?
Concedamos, no entanto, que existam outros antídotos contra venenos conhecidos dos animais. O que isso prova quanto a não ser a natureza, mas a razão, que leva à descoberta de tais coisas entre eles? Pois, se a razão fosse a descobridora, esta única coisa (ou, se quiser, uma ou duas coisas a mais) não seria, com exclusão de todas as outras, a única descoberta feita pelas serpentes, e outra coisa a única descoberta da águia, e assim por diante com os demais animais. Pelo contrário, teriam sido feitas entre eles tantas descobertas quanto entre os homens. Mas agora fica manifesto, pela inclinação determinada da natureza de cada animal para certos tipos de ajuda, que eles não possuem nem sabedoria nem razão, mas uma tendência natural de sua constituição, implantada pelo Logos em direção a tais coisas, a fim de garantir a preservação do animal. E, de fato, se eu quisesse debater com Celso nessas matérias, poderia citar as palavras de Salomão no livro de Provérbios, que dizem assim: quatro coisas que são pequenas sobre a terra, mas que são mais sábias que os sábios. As formigas são um povo sem força, mas preparam no verão o seu alimento. Os coelhos do mato são um povo débil, mas fazem as suas casas nas rochas. Os gafanhotos não têm rei, mas todos saem ordenadamente a uma ordem. E a lagartixa, embora se apoie nas mãos e seja facilmente capturada, habita nos palácios dos reis. Não cito essas palavras, no entanto, tomando-as em seu sentido literal, mas, de acordo com o título do livro (pois ele se chama Provérbios), eu as investigo como contendo um sentido oculto. Pois é costume desses escritores das Escrituras distribuir em muitas classes aqueles textos que exprimem um sentido quando tomados literalmente, mas que transmitem um significado diferente como seu sentido oculto. E um desses tipos de escrita é o Provérbio. Por essa razão, também em nossos Evangelhos, o nosso Salvador é descrito dizendo: estas coisas vos falei por provérbios, mas chega a hora em que não mais vos falarei por provérbios. Não são, então, as formigas visíveis que são mais sábias até que os sábios, mas aqueles que são indicados como tais sob o estilo proverbial de expressão. E essa deve ser nossa conclusão a respeito do restante da criação animal, ainda que Celso considere os livros dos judeus e dos cristãos extremamente simples e banais, e imagine que os que lhes dão uma interpretação alegórica violentam o sentido dos autores. Pelo que dissemos, então, fique evidente que Celso nos calunia em vão, e que suas afirmações de que as serpentes e as águias são mais sábias que os homens também recebem sua refutação.
E querendo mostrar mais detalhadamente que até as ideias que a raça humana tem de Deus não são superiores às de todas as outras criaturas mortais, mas que certos animais irracionais são capazes de pensar a respeito daquele sobre quem existiram opiniões tão discordantes entre os mais perspicazes dos homens, gregos e bárbaros, ele prossegue: se, por ter sido capaz de captar a ideia de Deus, o homem é tido por superior aos outros animais, que aqueles que sustentam essa opinião saibam que muitos dos outros animais reivindicarão essa capacidade. E com razão, pois o que alguém afirmaria ser mais divino do que o poder de prever e predizer eventos futuros? Os homens, de fato, adquirem essa arte dos outros animais, e especialmente das aves. E os que dão atenção às indicações fornecidas por elas passam a possuir o dom da profecia. Se, então, as aves e os outros animais proféticos, que são capacitados pelo dom de Deus a prever eventos, nos instruem por meio de sinais, tanto mais próximos parecem estar da convivência com Deus, mais dotados de sabedoria e mais amados por Ele. Os homens mais inteligentes, além disso, dizem que os animais realizam reuniões mais sagradas que as nossas assembleias, e que sabem o que se diz nessas reuniões, e mostram que de fato possuem esse conhecimento quando, tendo antes declarado que as aves manifestaram a intenção de partir para um lugar específico e de fazer isto ou aquilo, a verdade de suas afirmações se confirma pela partida das aves para o lugar em questão e pela realização do que foi predito. E nenhuma espécie de animal parece mais observante de juramentos que os elefantes, nem mostrar maior devoção às coisas divinas. E isso, presumo, unicamente porque eles têm algum conhecimento de Deus. Veja agora como ele logo se apega e apresenta como fatos reconhecidos questões que são objeto de disputa entre os filósofos, não entre os gregos, mas também entre os bárbaros, que ou descobriram ou aprenderam de certos demônios algumas coisas sobre as aves de agouro e outros animais, pelas quais se diz que certas indicações proféticas são feitas aos homens. Pois, em primeiro lugar, discutiu-se se existe ou não uma arte de agouro e, em geral, um método de adivinhação pelos animais. E, em segundo lugar, os que admitem haver uma arte de adivinhação pelas aves não concordam quanto ao modo dessa adivinhação. Alguns sustentam que é de certos demônios ou deuses da adivinhação que os animais recebem seus impulsos para a ação, as aves para voos e sons de tipos diferentes, e os outros animais para movimentos de uma espécie ou de outra. Outros, por sua vez, creem que as almas deles são mais divinas em sua natureza e adequadas a operações desse tipo, o que é uma suposição inteiramente inacreditável.
Celso, no entanto, querendo provar pelas afirmações acima que os animais irracionais são mais divinos e inteligentes que os seres humanos, deveria ter estabelecido com mais detalhe a real existência de tal arte de adivinhação. Em seguida, deveria ter empreendido com energia a sua defesa, refutado de modo eficaz os argumentos dos que aboliriam tais artes de adivinhação, e derrubado de maneira convincente também os argumentos dos que dizem que é de demônios ou de deuses que os animais recebem os movimentos que os levam à adivinhação. E, em seguida, deveria ter provado que a alma dos animais irracionais é mais divina que a do homem. Pois, se tivesse feito isso e manifestado um espírito filosófico ao tratar de tais coisas, teríamos, na medida de nossas forças, respondido às suas afirmações confiantes, refutando em primeiro lugar a alegação de que os animais irracionais são mais sábios que os homens, e mostrando a falsidade da afirmação de que eles têm ideias de Deus mais sagradas que as nossas, e de que realizam entre si certas assembleias sagradas. Mas agora, ao contrário, aquele que nos acusa por crermos no Deus Supremo nos exige crer que as almas das aves nutrem ideias de Deus mais divinas e distintas que as dos homens. No entanto, se isso é verdade, as aves têm ideias mais claras de Deus que o próprio Celso. E não é de admirar que seja assim com ele, que tanto deprecia os seres humanos. Pelo contrário, no que depende de Celso, as aves possuem ideias mais grandiosas e mais divinas do que, não digo nós cristãos, nem os judeus, que usam as mesmas Escrituras que nós, mas até do que possuem os teólogos entre os gregos, pois estes eram apenas seres humanos. Segundo Celso, com efeito, a tribo das aves que praticam a adivinhação entende a natureza do Ser Divino melhor que Ferécides, Pitágoras, Sócrates e Platão! Deveríamos, então, ir às aves como nossas mestras, para que, assim como, na visão de Celso, elas nos instruem pelo seu poder de adivinhação no conhecimento dos eventos futuros, também nos libertem das dúvidas a respeito do Ser Divino, transmitindo-nos as ideias claras que obtiveram sobre Ele! Segue-se, portanto, que Celso, que considera as aves superiores aos homens, deveria empregá-las como seus instrutores, e não a um dos filósofos gregos.
Mas temos algumas observações a fazer, de um número maior, em resposta a essas afirmações de Celso, para mostrar a ingratidão para com o seu Criador que está implícita em ele sustentar essas opiniões falsas. Pois Celso, embora seja homem e esteja em posição de honra, não tem entendimento, e por isso não se comparou às aves e aos outros animais irracionais, que ele tem por capazes de adivinhar. Pelo contrário, cedendo-lhes o primeiro lugar, ele se rebaixou, e tanto quanto pôde rebaixou consigo toda a raça humana (como tendo de Deus ideias mais baixas e inferiores que os animais irracionais), abaixo dos egípcios, que adoram animais irracionais como divindades. Mas que o ponto principal da investigação seja este: se existe ou não, de fato, uma arte de adivinhação por meio de aves e outros seres vivos que se creem ter tal poder. Pois os argumentos que tendem a estabelecer cada uma das visões não devem ser desprezados. De um lado, insiste-se para que não admitamos tal arte, a fim de que o ser racional não abandone os oráculos divinos e se entregue às aves. De outro lado, o testemunho enérgico de muitos de que numerosos indivíduos foram salvos dos maiores perigos por terem confiado na adivinhação pelas aves. Por ora, no entanto, concedamos que existe uma arte de adivinhação, para que eu mostre assim aos que têm preconceito sobre o assunto que, se isso for admitido, a superioridade do homem sobre os animais irracionais, mesmo sobre os dotados de poder de adivinhação, é grande e está além de toda comparação com eles. Temos, então, que dizer o seguinte: se houvesse neles alguma natureza divina capaz de prever eventos futuros, e tão rica nesse conhecimento a ponto de, por sua superabundância, torná-los conhecidos a qualquer homem que quisesse conhecê-los, é evidente que eles saberiam o que lhes diz respeito muito antes do que diz respeito aos outros. E se possuíssem esse conhecimento, ficariam de guarda contra voar para qualquer lugar onde os homens tivessem armado laços e redes para apanhá-los, ou onde os arqueiros mirassem e atirassem neles em pleno voo. E sobretudo, se as águias soubessem de antemão dos planos tramados contra seus filhotes, seja por serpentes que rastejam até seus ninhos e os destroem, seja por homens que os apanham para diversão ou para qualquer outro fim ou serviço útil, elas não teriam colocado seus filhotes num lugar onde estavam sujeitos a ataque. E, em geral, nenhum desses animais teria sido capturado pelos homens, por serem eles mais divinos e inteligentes do que estes.
Mas, além disso, se as aves de agouro conversam umas com as outras, como Celso afirma, tendo as aves proféticas uma natureza divina, e os outros animais racionais também ideias da divindade e da previsão de eventos futuros, e se elas tivessem comunicado esse conhecimento às outras, o pardal mencionado em Homero não teria feito seu ninho no lugar onde uma serpente iria devorar a ele e a seus filhotes, nem a serpente nos escritos do mesmo poeta teria deixado de se precaver contra ser capturada pela águia. Pois esse poeta maravilhoso diz, em seu poema sobre o primeiro caso: um dragão imenso surgiu, de terrível agouro; do próprio Júpiter foi enviado o sinal pavoroso. Reto para a árvore enrolou seus anéis sangrentos, e se curvou em muitas voltas serpenteantes. O galho mais alto abrigava uma ave-mãe; oito filhotes implumes enchiam o ninho de musgo, e ela própria era a nona. A serpente, suspensa, esticou suas negras mandíbulas e triturou os filhotes agonizantes. Enquanto isso, pairando perto, com gemido lastimável, a mãe abatida lamentava seus filhos perdidos. A mãe, por fim, ao voar em torno do ninho, foi agarrada pela asa que batia, e o monstro a matou. E não sobreviveu por muito: convertido em mármore, ali permanece, um prodígio duradouro nas areias de Áulis. Tal foi a vontade de Júpiter, e por isso ousamos confiar em seu presságio e apoiar a guerra. E quanto ao segundo caso, o da ave, o poeta diz: a ave de Júpiter batia os céus com asas sonoras. Uma serpente ensanguentada, de enorme tamanho, prendeu-se em suas garras. Viva e enrodilhando-se, picou a ave, cuja garganta recebeu a ferida. Enlouquecida pela dor, ela larga a presa fatal, voa em círculos pelo ar em seu caminho doloroso, flutua nos ventos e rasga o céu com gritos. Em meio à hoste, jaz a serpente caída. Pálidos de terror, eles observam seus anéis desenrolados, e contemplam o portento de Júpiter com o coração disparado. A águia, então, possuía o poder de adivinhação, e a serpente (já que esse animal também é usado pelos áugures) não? Mas, assim como essa distinção pode ser facilmente refutada, não pode também ser refutada a afirmação de que ambos eram capazes de adivinhar? Pois, se a serpente tivesse esse conhecimento, não teria ela ficado de guarda contra sofrer o que sofreu da águia? E inúmeros outros casos de caráter semelhante podem ser encontrados para mostrar que os animais não possuem uma alma profética, mas que, segundo o poeta e a maioria dos homens, foi o próprio Olímpico que o enviou à luz. E é com sentido simbólico que Apolo emprega o gavião como seu mensageiro, pois o gavião é chamado o rápido mensageiro de Apolo.