Contra Celso - Livro IV 7
A providência divina e a descida de Deus aos homens
Mas, como nas palavras que citei de Celso, que são uma paráfrase do Timeu, ocorrem certas expressões, tais como Deus nada fez de mortal, mas apenas coisas imortais, ao passo que as coisas mortais são obras de outros, e a alma é obra de Deus, mas a natureza do corpo é diferente, e não há diferença entre o corpo de um homem e o de um morcego, ou de um verme, ou de uma rã, pois a matéria é a mesma, e sua parte corruptível é igual, vamos discutir esses pontos por um instante. E vamos mostrar que Celso ou não revela suas opiniões epicuristas, ou, como alguém poderia dizer, trocou-as por outras melhores, ou, como outro poderia dizer, nada tem em comum, a não ser o nome, com Celso, o epicurista. Pois ele deveria, ao dar expressão a tais opiniões, e ao se propor a contradizer não só a nós, mas a seita de filósofos nada obscura que são os seguidores de Zenão de Cítio, ter provado que os corpos dos animais não são obra de Deus, e que a grande habilidade demonstrada em sua construção não procedeu da inteligência mais elevada. E ele deveria também, a respeito das incontáveis diversidades de plantas, que são reguladas por uma natureza inerente e incompreensível, e que foram criadas para o uso nada desprezível do homem em geral, e dos animais que servem ao homem, sejam quais forem as outras razões que se aleguem para a sua existência, não só ter declarado sua opinião, mas também ter nos mostrado que não foi nenhuma inteligência perfeita que imprimiu essas qualidades à matéria das plantas. E uma vez que ele representou várias divindades como criadoras de todos os corpos, sendo só a alma obra de Deus, por que não, ele que separou esses grandes atos de criação, e os repartiu entre uma pluralidade de criadores, demonstrou em seguida, por alguma razão convincente, a existência dessas diversidades entre as divindades, algumas das quais constroem os corpos dos homens, e outras os dos animais de carga, e outras os dos animais selvagens? E aquele que viu que algumas divindades eram as criadoras de dragões, de áspides e de basiliscos, e outras de cada planta e erva segundo a sua espécie, deveria ter explicado as causas dessas diversidades. Pois, provavelmente, se ele tivesse se dedicado com cuidado à investigação de cada ponto específico, ou teria observado que era um só Deus o criador de tudo, e que fez cada coisa com um certo objetivo e por uma certa razão, ou, se tivesse deixado de observar isso, teria descoberto a resposta que deveria dar àqueles que afirmam que a corruptibilidade é uma coisa indiferente em sua natureza, e que não havia absurdo em um mundo que consiste de materiais diversos ser formado por um único arquiteto, que construiu os diferentes tipos de coisas de modo a garantir o bem do todo. Ou, por fim, ele não deveria ter expressado opinião alguma sobre uma doutrina tão importante, já que não pretendia provar o que se propunha a demonstrar. A menos, de fato, que ele, que censura os outros por professarem uma fé simples, queira que acreditemos em suas meras afirmações, embora tenha anunciado que não apenas afirmaria, mas provaria suas afirmações.
Mas eu sustento que, se ele tivesse a paciência (para usar a sua própria expressão) de ouvir os escritos de Moisés e dos profetas, sua atenção teria sido detida pela circunstância de que a expressão Deus fez é aplicada ao céu e à terra, e ao que se chama firmamento, e também aos luzeiros e às estrelas; e depois destes, aos grandes peixes, e a todo ser vivente entre os animais rastejantes que as águas produziram segundo as suas espécies, e a toda ave do céu segundo a sua espécie; e depois destes, aos animais selvagens da terra segundo a sua espécie, e ao gado segundo a sua espécie, e a todo réptil sobre a terra segundo a sua espécie; e por último de tudo, ao homem. A expressão fez, no entanto, não é aplicada a outras coisas, mas se considera suficiente dizer, a respeito da luz: E houve luz; e a respeito do ajuntamento de todas as águas que estão debaixo de todo o céu: E assim foi. E de modo semelhante também, a respeito do que cresceu sobre a terra, onde se diz: A terra produziu relva, e erva que dá semente segundo a sua espécie e segundo a sua semelhança, e a árvore frutífera que dá fruto, cuja semente está nela mesma, segundo a sua espécie, sobre a terra. Ele teria indagado, ainda, se as ordens registradas de Deus a respeito da vinda à existência de cada parte do mundo eram dirigidas a uma só coisa ou a várias. E não teria, de modo leviano, acusado de serem ininteligíveis, e de não terem nenhum sentido secreto, os relatos contidos nesses livros, fosse por Moisés, ou, como nós diríamos, pelo Espírito Divino falando em Moisés, de quem ele também derivou o poder de profetizar, já que conhecia tanto o presente quanto o futuro e o passado, em grau mais elevado do que aqueles sacerdotes que, segundo os poetas, alegadamente possuíam um conhecimento dessas coisas.
Além disso, já que Celso afirma que a alma é obra de Deus, mas que a natureza do corpo é diferente, e que nesse aspecto não há diferença entre o corpo de um morcego, ou de um verme, ou de uma rã, e o de um homem, pois a matéria é a mesma, e sua parte corruptível é igual, temos a dizer, em resposta a esse argumento dele, que se, pelo fato de a mesma matéria estar na base do corpo de um morcego, ou de um verme, ou de uma rã, ou de um homem, esses corpos em nada diferirem uns dos outros, então é evidente que esses corpos também em nada diferirão do sol, ou da lua, ou das estrelas, ou do céu, ou de qualquer outra coisa que é chamada pelos gregos de deus, perceptível pelos sentidos. Pois a mesma matéria, estando na base de todos os corpos, é, propriamente falando, sem qualidades e sem forma, e deriva suas qualidades de alguma outra fonte, não sei de onde, já que Celso quer que nada corruptível possa ser obra de Deus. Ora, a parte corruptível de tudo o que seja, sendo produzida a partir da mesma matéria de base, deve necessariamente ser a mesma, pela própria demonstração de Celso. A menos, de fato, que, vendo-se aqui em apuros, ele abandone Platão, que faz a alma surgir de uma certa taça, e se refugie em Aristóteles e nos peripatéticos, que sustentam que o éter é imaterial, e consiste de uma quinta natureza, separada dos outros quatro elementos, posição contra a qual tanto os platônicos quanto os estoicos protestaram nobremente. E nós também, que somos desprezados por Celso, a contestaremos, visto que somos obrigados a explicar e sustentar a seguinte afirmação do profeta: Os céus perecerão, mas tu permaneces; e todos eles envelhecerão como uma veste; e como um manto tu os enrolarás, e serão mudados; mas tu és o mesmo. Estas observações, no entanto, são suficientes em resposta a Celso, quando ele afirma que a alma é obra de Deus, mas que a natureza do corpo é diferente. Pois, de seu argumento, segue-se que não há diferença entre o corpo de um morcego, ou de um verme, ou de uma rã, e o de um ser celestial.
Veja, então, se devemos ceder a alguém que, sustentando tais opiniões, calunia os cristãos, e assim abandonar uma doutrina que explica a diferença existente entre os corpos como devida às diferentes qualidades, internas e externas, que neles são implantadas. Pois nós também sabemos que há corpos celestiais e corpos terrestres, e que a glória dos celestiais é uma, e a glória dos terrestres é outra, e que até a glória dos corpos celestiais não é igual, pois uma é a glória do sol, e outra a glória das estrelas, e, entre as próprias estrelas, uma estrela difere de outra estrela em glória. E por isso, como aqueles que esperam a ressurreição dos mortos, afirmamos que as qualidades que estão nos corpos passam por mudança, já que alguns corpos, que são semeados em corrupção, são ressuscitados em incorrupção; e outros, semeados em desonra, são ressuscitados em glória; e outros, ainda, semeados em fraqueza, são ressuscitados em poder; e os que são semeados corpos naturais são ressuscitados como espirituais. Que a matéria que está na base dos corpos é capaz de receber aquelas qualidades que o Criador houver por bem conceder é um ponto que todos nós que aceitamos a doutrina da providência sustentamos com firmeza, de modo que, se Deus assim quisesse, uma qualidade é no presente momento implantada nesta porção de matéria, e depois outra de tipo diferente e melhor. Mas, já que há, desde o princípio do mundo, leis estabelecidas com o propósito de regular as mudanças dos corpos, e que continuarão enquanto durar o mundo, não sei se, quando uma ordem nova e diferente de coisas tiver sucedido após a destruição do mundo, e ao que as nossas Escrituras chamam de fim dos tempos, não é admirável que no presente momento uma serpente se forme a partir de um homem morto, brotando, como afirma a multidão, da medula do dorso, e que uma abelha brote de um boi, e uma vespa de um cavalo, e um besouro de um asno, e, de modo geral, vermes da maioria dos corpos. Celso, de fato, acha que se pode mostrar que isso é a consequência de nenhum desses corpos ser obra de Deus, e que as qualidades (não sei de onde foi assim disposto que uma brotasse de outra) não são obra de uma inteligência divina, que produz as mudanças que ocorrem nas qualidades da matéria.
Mas temos algo mais a dizer a Celso, quando ele declara que a alma é obra de Deus, e que a natureza do corpo é diferente, e apresenta tal opinião não só sem prova, mas até sem definir claramente o que quer dizer. Pois ele não deixou evidente se queria dizer que toda alma é obra de Deus, ou só a alma racional. Eis, então, o que temos a dizer: Se toda alma é obra de Deus, é manifesto que as dos mais ínfimos animais irracionais são obra de Deus, de modo que a natureza de todos os corpos é diferente da da alma. Ele parece, no entanto, no que se segue, onde diz que os animais irracionais são mais amados por Deus do que nós, e têm um conhecimento mais puro da divindade, sustentar que não só a alma do homem, mas, em grau muito maior, a dos animais irracionais é obra de Deus. Pois isso decorre de serem ditos mais amados por Deus do que nós. Ora, se só a alma racional for obra de Deus, então, em primeiro lugar, ele não indicou claramente que essa era a sua opinião; e, em segundo lugar, esta dedução decorre de sua linguagem indefinida a respeito da alma (ou seja, se não toda, mas só a racional, é obra de Deus): que tampouco a natureza de todos os corpos é diferente da alma. Mas, se a natureza de todos os corpos não for diferente, embora o corpo de cada animal corresponda à sua alma, é evidente que o corpo daquele animal cuja alma foi obra de Deus diferiria do corpo daquele animal no qual habita uma alma que não foi obra de Deus. E assim será falsa a afirmação de que não há diferença entre o corpo de um morcego, ou de um verme, ou de uma rã, e o de um homem.
Pois seria, de fato, absurdo que certas pedras e edifícios fossem considerados mais sagrados ou mais profanos que outros, conforme tivessem sido construídos para a honra de Deus, ou para receber pessoas desonradas e malditas, ao passo que os corpos não diferissem dos corpos, conforme fossem habitados por seres racionais ou irracionais, e conforme esses seres racionais fossem os mais virtuosos ou os mais reles da humanidade. Tal princípio de distinção, de fato, levou alguns a deificar os corpos de homens ilustres, por terem recebido uma alma virtuosa, e a rejeitar e tratar com desonra os de indivíduos muito perversos. Não sustento que tal princípio tenha sido sempre exercido com acerto, mas que teve sua origem numa ideia correta. Será que um homem sábio, de fato, depois da morte de Anito e de Sócrates, pensaria em sepultar os corpos de ambos com honras iguais? E levantaria o mesmo monte ou túmulo à memória de ambos? Aduzimos esses exemplos por causa da linguagem de Celso de que nenhum desses é obra de Deus (onde as palavras desses se referem ao corpo de um homem ou às serpentes que saem do corpo, e ao de um boi, ou às abelhas que vêm do corpo de um boi, e ao de um cavalo ou de um asno, e às vespas que vêm de um cavalo, e aos besouros que procedem de um asno). Por essa razão, fomos obrigados a voltar à consideração de sua afirmação de que a alma é obra de Deus, mas que a natureza do corpo é diferente.
Ele prossegue dizendo que uma natureza comum permeia todos os corpos antes mencionados, e uma que vai e retorna a mesma em meio a mudanças recorrentes. Em resposta a isso, fica evidente, pelo que já foi dito, que não só uma natureza comum permeia aqueles corpos que foram antes enumerados, mas os corpos celestes também. E, se é assim, fica claro também que, segundo Celso (embora eu não saiba se é segundo a verdade), é uma só natureza que vai e retorna a mesma através de todos os corpos em meio a mudanças recorrentes. Fica evidente também que isso ocorre na opinião daqueles que sustentam que o mundo há de perecer; ao passo que aqueles que sustentam a opinião contrária se esforçarão por mostrar, sem a suposição de uma quinta substância, que, no juízo deles também, é uma só natureza que vai e retorna a mesma através de todos os corpos em meio a mudanças recorrentes. E assim, mesmo aquilo que é perecível permanece para passar por uma mudança, pois a matéria que está na base de todas as coisas, embora suas propriedades pereçam, ainda subsiste, segundo a opinião daqueles que a sustentam ser incriada. Se, no entanto, puder ser mostrado por algum argumento que ela não é incriada, mas foi criada para certos fins, fica claro que ela não terá a mesma natureza de permanência que possuiria na hipótese de ser incriada. Mas não é nosso objetivo no momento, ao responder às acusações de Celso, discutir essas questões de filosofia natural.
Ele afirma, além disso, que nenhum produto da matéria é imortal. Em resposta a isso, pode-se dizer o seguinte: se nenhum produto da matéria é imortal, então ou o mundo inteiro é imortal, e portanto não é produto da matéria, ou ele não é imortal. Se, então, o mundo é imortal (o que está de acordo com a visão dos que dizem que só a alma é obra de Deus, produzida a partir de certa taça), que Celso mostre que o mundo não foi produzido a partir de uma matéria sem qualidades, lembrando sua própria afirmação de que nenhum produto da matéria é imortal. Mas se o mundo não é imortal (já que é produto da matéria), e sim mortal, ele também perece, ou não? Pois se perecer, perecerá como obra de Deus. E então, no caso de o mundo perecer, o que será da alma, que também é obra de Deus? Que Celso responda a isso! Mas se, distorcendo a noção de imortalidade, ele afirmar que, embora perecível, ela é imortal, porque na verdade não perece; que ela é capaz de morrer, mas de fato não morre, fica evidente que, segundo ele, existirá algo que é ao mesmo tempo mortal e imortal, por ser capaz das duas condições. E aquilo que não morre será mortal, e aquilo que não é imortal por natureza será chamado, num sentido peculiar, de imortal, porque não morre! Com base em que distinção, então, no significado das palavras, ele sustentará que nenhum produto da matéria é imortal? E assim você vê que as ideias contidas em seus escritos, quando examinadas e testadas de perto, se mostram não serem sólidas nem incontestáveis. E depois de fazer essas afirmações, ele acrescenta: Sobre esse ponto, essas observações são suficientes; e quem for capaz de ouvir e examinar mais a fundo chegará a conhecer (a verdade). Que nós, então, que na opinião dele somos indivíduos sem inteligência, vejamos o que resultará de podermos escutá-lo por um instante, e assim prossigamos nossa investigação.
Depois dessas questões, ele acha que pode nos instruir em poucas palavras sobre os problemas relativos à natureza do mal, que foram discutidos de modos variados em muitos tratados importantes e que receberam explicações bem opostas. Suas palavras são: Não havia antes, nem há agora, nem haverá de novo, mais ou menos males no mundo (do que sempre houve). Pois a natureza de todas as coisas é uma só e a mesma, e a geração dos males é sempre a mesma. Ele parece ter parafraseado essas palavras a partir das discussões do Teeteto, onde Platão faz Sócrates dizer: Não é possível que os males desapareçam de entre os homens, nem que se estabeleçam entre os deuses, e assim por diante. Mas me parece que ele não entendeu Platão corretamente, embora afirme incluir toda a verdade neste único tratado e dê ao seu próprio livro contra nós o título de Um Discurso Verdadeiro. Pois a linguagem do Timeu, onde se diz, Quando os deuses purificam a terra com água, mostra que a terra, quando purificada com água, contém menos mal do que continha antes de sua purificação. E essa afirmação, de que em certo momento houve menos males no mundo, é uma que nós fazemos, em harmonia com a opinião de Platão, por causa da linguagem do Teeteto, onde ele diz que os males não podem desaparecer de entre os homens.
Não entendo como Celso, ao admitir a existência da Providência, ao menos no que aparece da linguagem deste livro, pode dizer que nunca existiram (em momento algum) nem mais nem menos males, mas, por assim dizer, um número fixo, aniquilando assim a bela doutrina sobre a natureza indefinida do mal e afirmando que o mal, mesmo em sua própria natureza, é infinito. Ora, parece seguir-se da posição de que nunca houve, nem há agora, nem haverá, mais ou menos males no mundo, o seguinte: assim como, segundo a visão dos que sustentam a indestrutibilidade do mundo, o equilíbrio dos elementos é mantido por uma Providência (que não permite que um prevaleça sobre os outros, a fim de evitar a destruição do mundo), do mesmo modo uma espécie de Providência preside, por assim dizer, sobre os males (cujo número é fixo), para impedir que sejam aumentados ou diminuídos! De outras maneiras, também, os argumentos de Celso sobre o mal são refutados pelos filósofos que investigaram os temas do bem e do mal, e que provaram também pela história que, em tempos antigos, era fora da cidade, e com os rostos escondidos por máscaras, que as mulheres devassas se ofereciam a quem as quisesse; que depois, tornando-se mais descaradas, deixaram de lado as máscaras, embora não fossem autorizadas pelas leis a entrar nas cidades, e (ainda assim) permaneciam fora delas, até que, à medida que a dissolução dos costumes crescia a cada dia, ousaram até entrar nas cidades. Tais relatos são dados por Crisipo na introdução de sua obra sobre o Bem e o Mal. Disso também se pode ver que os males tanto crescem quanto diminuem, ou seja: que aqueles indivíduos que eram chamados Ambíguos costumavam antigamente apresentar-se abertamente à vista, sofrendo e cometendo toda sorte de coisas vergonhosas, enquanto serviam às paixões dos que frequentavam sua companhia; mas recentemente foram expulsos pelas autoridades. E de incontáveis males que, devido à propagação da maldade, surgiram na vida humana, podemos dizer que antes não existiam. Pois as histórias mais antigas, que lançam inúmeras outras acusações contra homens pecaminosos, nada sabem dos autores de crimes abomináveis.