Contra Celso - Livro IV 6
A providência divina e a descida de Deus aos homens
E enquanto Celso deveria ter reconhecido o amor à verdade demonstrado pelos autores da Sagrada Escritura, que não esconderam nem mesmo o que lhes é desabonador, e assim ter sido levado a aceitar como verdadeiros os outros relatos mais extraordinários, ele fez o contrário, e qualificou a história de Ló e suas filhas (sem examinar nem o seu sentido literal nem o figurado) como pior que os crimes de Tiestes. Não é necessário, no momento, explicar o significado figurado dessa passagem da história, nem o que se quer dizer com Sodoma, e com as palavras dos anjos àquele que dali fugia, quando disseram: Não olhes para trás, nem pares em toda a redondeza; foge para o monte, para que não sejas consumido. Nem o que se pretende com Ló e sua mulher, que se tornou uma estátua de sal porque olhou para trás. Nem com suas filhas, que embriagaram o pai para se tornarem mães por meio dele. Mas vamos, em poucas palavras, suavizar os traços repulsivos da história. A natureza das ações, boas, más e indiferentes, foi investigada pelos gregos. E os mais bem-sucedidos desses investigadores estabelecem o princípio de que só a intenção dá às ações o caráter de boas ou más, e que todas as coisas feitas sem um propósito são, estritamente falando, indiferentes. Quando a intenção se dirige a um fim conveniente, é louvável; quando ao contrário, é censurável. Disseram, portanto, na seção que trata das coisas indiferentes, que, estritamente falando, um homem ter relação sexual com suas filhas é uma coisa indiferente, embora tal coisa não deva ocorrer em comunidades estabelecidas. E em favor de uma hipótese, para mostrar que tal ato pertence à classe das coisas indiferentes, eles supuseram o caso de um homem sábio que ficou com uma única filha, tendo perecido todo o restante da raça humana. E levantam a questão de se o pai pode adequadamente ter relação com a filha, para, de acordo com a suposição, impedir a extinção da humanidade. Será que isso deve ser tido como raciocínio sólido entre os gregos, e elogiado pela influente seita dos estoicos? Mas, quando jovens donzelas, que tinham ouvido falar da queima do mundo, embora sem compreender o seu pleno sentido, viram o fogo devastando sua cidade e seu país, e supuseram que o único meio restante de reacender a chama da vida humana estava no pai e nelas mesmas, e, com base em tal suposição, conceberam o desejo de que o mundo continuasse, será que a conduta delas deve ser considerada pior que a do homem sábio que, segundo a hipótese dos estoicos, age convenientemente ao ter relação com a filha, no caso já suposto de todos os homens terem sido destruídos? Não ignoro, no entanto, que alguns se escandalizaram com o desejo das filhas de Ló, e consideraram a conduta delas muito perversa, e disseram que duas nações malditas, Moabe e Amom, surgiram dessa relação profana. E, no entanto, a Sagrada Escritura em parte alguma é encontrada aprovando claramente a conduta delas como boa, nem tampouco sentenciando-a como reprovável. Mesmo assim, seja qual for a real situação do caso, ela admite não só um sentido figurado, mas também ser defendida por seus próprios méritos.
Celso, além disso, zomba do ódio de Esaú (ao qual, suponho, ele se refere) contra Jacó, embora Esaú fosse um homem que, segundo as Escrituras, é reconhecido como tendo sido perverso. E sem expor com clareza a história de Simeão e Levi, que atacaram os siquemitas por causa da afronta feita à sua irmã, que havia sido violada pelo filho do rei siquemita, ele invectiva contra a conduta deles. E prosseguindo, fala de irmãos vendendo uns aos outros, aludindo aos filhos de Jacó. E de um irmão vendido, ou seja, José. E de um pai enganado, isto é, Jacó, porque não nutriu nenhuma suspeita dos filhos quando lhe mostraram a túnica de muitas cores de José, mas acreditou no que disseram, e pranteou o filho, que era escravo no Egito, como se estivesse morto. E repare em que espírito de ódio e falsidade Celso reúne as afirmações da história sagrada, de modo que, onde quer que lhe pareça conter um motivo de acusação, ele produz a passagem, mas onde quer que haja alguma demonstração de virtude digna de menção (como quando José não quis satisfazer a luxúria de sua senhora, recusando tanto seus engodos quanto suas ameaças), ele nem ao menos menciona a circunstância! Ele deveria ver, de fato, que a conduta de José foi muito superior à que se relata sobre Belerofonte, já que o primeiro preferiu ser preso a fazer violência à sua virtude. Pois, embora pudesse ter oferecido uma justa defesa contra sua acusadora, ele permaneceu magnanimamente em silêncio, confiando a sua causa a Deus.
Celso, em seguida, por formalidade, e com grande falta de precisão, fala dos sonhos do copeiro-mor e do padeiro-mor, e de Faraó, e da interpretação deles, em consequência da qual José foi tirado da prisão para receber de Faraó o segundo lugar no Egito. Que absurdo, então, continha a história, mesmo considerada em si mesma, para que fosse apresentada como matéria de acusação por esse Celso, que deu o título de O Discurso Verdadeiro a um tratado que não contém doutrinas, mas está cheio de acusações contra judeus e cristãos? Ele acrescenta: Aquele que tinha sido vendido tratou com bondade os seus irmãos (que o haviam vendido), quando eles passavam fome, e tinham sido enviados com seus asnos para comprar mantimentos, embora ele não tenha relatado esses acontecimentos em seu tratado. Mas ele de fato menciona a circunstância de José se dar a conhecer aos irmãos, ainda que eu não saiba com que intenção, nem que absurdo ele possa apontar em tal acontecimento, já que é impossível, poderíamos dizer, até para o próprio Momo encontrar qualquer falha razoável em eventos que, à parte seu sentido figurado, apresentam tanta coisa atraente. Ele relata, ainda, que José, que tinha sido vendido como escravo, foi restituído à liberdade, e subiu com uma procissão solene ao funeral do pai, e acha que a narrativa fornece matéria de acusação contra nós, ao fazer a seguinte observação: Por meio dele (ou seja, José), a ilustre e divina nação dos judeus, depois de crescer no Egito até se tornar uma multidão de gente, recebeu ordem de habitar em algum lugar além dos limites do reino, e de apascentar seus rebanhos em distritos sem reputação. Ora, as palavras de que eles receberam ordem de apascentar seus rebanhos em distritos sem reputação são um acréscimo, que procede de seus próprios sentimentos de ódio, pois ele não mostrou que Gósen, o distrito do Egito, é um lugar sem reputação. O êxodo do povo do Egito ele chama de fuga, sem se lembrar de modo algum do que está escrito no livro de Êxodo a respeito da saída dos hebreus da terra do Egito. Enumeramos esses casos para mostrar que aquilo que, considerado literalmente, poderia parecer fornecer motivo de acusação, Celso não conseguiu provar ser censurável ou tolo, tendo fracassado por completo em estabelecer o mau caráter que, no entender dele, têm as nossas Escrituras.
Em seguida, como se tivesse se dedicado exclusivamente a manifestar seu ódio e aversão à doutrina judaica e cristã, ele diz: Os mais comedidos entre os escritores judeus e cristãos dão a todas essas coisas um sentido alegórico. E: Por terem vergonha dessas coisas, refugiam-se na alegoria. Ora, poder-se-ia dizer a ele que, se temos de admitir que fábulas e ficções, escritas com um sentido oculto ou com qualquer outro objetivo, sejam narrativas vergonhosas quando tomadas em sua acepção literal, de que histórias isso pode ser dito com mais verdade do que das gregas? Nessas histórias, deuses que são filhos castram os deuses que são seus pais, e deuses que são pais devoram os próprios filhos, e uma deusa-mãe dá ao pai dos deuses e dos homens uma pedra para engolir em lugar de seu próprio filho, e um pai tem relação com sua filha, e uma esposa amarra o próprio marido, tendo como aliados na obra o irmão do deus acorrentado e a sua própria filha! Mas por que eu deveria enumerar essas histórias absurdas dos gregos a respeito de seus deuses, que são vergonhosíssimas em si mesmas, ainda que revestidas de um sentido alegórico? Tome o caso em que Crisipo de Solos, que é considerado um ornamento da seita estoica por causa de seus numerosos e eruditos tratados, explica um quadro em Samos, no qual Juno era representada cometendo abominações indizíveis com Júpiter. Esse venerável filósofo diz em seus tratados que a matéria recebe as palavras seminais do deus, e as retém dentro de si, a fim de ornamentar o universo. Pois no quadro em Samos Juno representa a matéria, e Júpiter o deus. Ora, é por causa dessas, e de incontáveis outras fábulas semelhantes, que nós não chamaríamos, nem mesmo em palavra, o Deus de todas as coisas de Júpiter, nem o sol de Apolo, nem a lua de Diana. Mas oferecemos ao Criador uma adoração que é pura, e falamos com respeito religioso de suas nobres obras da criação, sem contaminar nem em palavra as coisas de Deus, aprovando a linguagem de Platão no Filebo, que não admitia que o prazer fosse uma deusa: Tão grande é minha reverência, Protarco, diz ele, pelos próprios nomes dos deuses. Nós, de fato, nutrimos tamanha reverência pelo nome de Deus, e por suas nobres obras da criação, que não admitiríamos, nem mesmo sob pretexto de um sentido alegórico, qualquer fábula que pudesse causar dano aos jovens.
Se Celso tivesse lido as Escrituras com espírito imparcial, não teria dito que os nossos escritos são incapazes de admitir um sentido alegórico. Pois, a partir das Escrituras proféticas, nas quais eventos históricos são registrados (não a partir das históricas), é possível convencer-se de que as porções históricas também foram escritas com um propósito alegórico, e foram habilíssimamente adaptadas não só à multidão dos crentes mais simples, mas também aos poucos que são capazes ou dispostos a investigar as coisas com espírito inteligente. Se, de fato, aqueles escritores dos dias atuais que Celso considera os mais comedidos entre os judeus e cristãos fossem os primeiros intérpretes alegóricos das nossas Escrituras, ele teria, talvez, a aparência de fazer uma alegação plausível. Mas, já que os próprios pais e autores das doutrinas lhes conferem um significado alegórico, que outra conclusão se pode tirar senão que foram compostas de modo a serem entendidas alegoricamente em seu significado principal? E apresentaremos alguns casos dentre muitíssimos para mostrar que Celso faz uma acusação vazia contra as Escrituras quando diz que elas são incapazes de admitir um sentido alegórico. Paulo, o apóstolo de Jesus, diz: Está escrito na lei: Não atarás a boca do boi que debulha o grão. Porventura Deus tem cuidado dos bois? Ou não o diz inteiramente por nós? Por nós, sem dúvida, isso está escrito, pois quem ara deve arar com esperança, e quem debulha deve debulhar na esperança de participar. E em outra passagem o mesmo Paulo diz: Pois está escrito: Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne. Grande é este mistério, mas eu falo a respeito de Cristo e da Igreja. E ainda, em outro lugar: Sabemos que todos os nossos pais estiveram debaixo da nuvem, e todos passaram pelo mar, e todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar. Então, explicando a história relativa ao maná, e a que se refere ao milagroso brotar da água da rocha, ele continua assim: E todos comeram do mesmo alimento espiritual, e todos beberam da mesma bebida espiritual. Pois bebiam daquela Rocha espiritual que os seguia, e a Rocha era Cristo. Asafe, ainda, que, ao mostrar que as histórias em Êxodo e Números estão cheias de dificuldades e parábolas, começa do seguinte modo, conforme registrado no livro dos Salmos, onde está prestes a mencionar essas coisas: Dá ouvidos, ó meu povo, à minha lei; inclina os ouvidos às palavras da minha boca. Abrirei a minha boca em parábolas; proferirei enigmas da antiguidade, que ouvimos e conhecemos, e os nossos pais nos contaram.
Além disso, se a lei de Moisés não contivesse nada que devesse ser entendido como tendo um sentido secreto, o profeta não teria dito em sua oração a Deus: Abre os meus olhos, e contemplarei as maravilhas da tua lei. Pois ele sabia que havia um véu de ignorância sobre o coração daqueles que leem mas não entendem o sentido figurado, véu que é removido pelo dom de Deus, quando Ele ouve aquele que fez tudo o que podia, e que, por força do hábito, tem os sentidos exercitados para distinguir entre o bem e o mal, e que continuamente profere a oração: Abre os meus olhos, e contemplarei as maravilhas da tua lei. E quem há que, ao ler sobre o dragão que vive no rio egípcio, e sobre os peixes que se escondem em suas escamas, ou sobre o excremento de Faraó que enche os montes do Egito, não seja levado imediatamente a indagar quem é aquele que enche os montes egípcios com seu excremento fétido, e o que são os montes egípcios; e o que são os rios no Egito, dos quais o referido Faraó diz com jactância: Os rios são meus, e eu os fiz; e quem é o dragão, e os peixes em suas escamas (e isso de modo a harmonizar com a interpretação a ser dada dos rios)? Mas por que estabelecer mais longamente o que não precisa de demonstração? Pois a essas coisas se aplica o dito: Quem é sábio, e entenderá estas coisas? Ou quem é prudente, e as conhecerá? Ora, entrei com certa extensão no assunto, porque queria mostrar a falta de fundamento da afirmação de Celso de que os mais comedidos entre os judeus e cristãos tentam de algum modo dar a essas histórias um significado alegórico, ainda que algumas delas não o admitam, mas, ao contrário, sejam invenções extremamente tolas. Muito mais são as histórias dos gregos não só tolíssimas, mas invenções muito ímpias. Pois as nossas narrativas mantêm expressamente em vista a multidão dos crentes mais simples, o que não foi feito por aqueles que inventaram as fábulas gregas. E por isso, não sem propriedade, Platão expulsa do seu Estado todas as fábulas e poemas de tal natureza como aqueles de que estivemos falando.
Celso me parece ter ouvido que existem tratados que contêm explicações alegóricas da lei de Moisés. Estes, no entanto, ele não pode ter lido, pois, se tivesse lido, não teria dito: As explicações alegóricas, no entanto, que foram concebidas são muito mais vergonhosas e absurdas que as próprias fábulas, na medida em que se esforçam por unir, com extraordinária e completamente insensata tolice, coisas que de modo algum podem ser harmonizadas. Ele parece se referir, nessas palavras, às obras de Fílon, ou às de escritores ainda mais antigos, como Aristóbulo. Mas conjecturo que Celso não leu os livros deles, já que me parece que, em muitas passagens, eles acertaram tão bem o sentido dos escritores sagrados, que até os filósofos gregos teriam ficado cativados por suas explicações. Pois em seus escritos encontramos não só um estilo polido, mas pensamentos e doutrinas refinados, e um uso racional do que Celso imagina serem fábulas nos escritos sagrados. Sei, ainda, que Numênio, o pitagórico, um expositor extraordinariamente excelente de Platão, e que ocupava lugar de destaque como mestre das doutrinas de Pitágoras, em muitas de suas obras cita os escritos de Moisés e dos profetas, e aplica às passagens em questão um sentido alegórico nada improvável, como em sua obra chamada Épops, e naquelas que tratam dos Números e do Lugar. E no terceiro livro de sua dissertação sobre O Bem, ele cita também uma narrativa a respeito de Jesus (sem, no entanto, mencionar o seu nome), e lhe dá um significado alegórico, com sucesso ou não posso afirmar em outra ocasião. Ele relata também o relato a respeito de Moisés, e de Janes, e de Jambres. Mas não nos exaltamos por causa desse exemplo, embora expressemos nossa aprovação a Numênio, mais do que a Celso e a outros gregos, porque ele esteve disposto a investigar as nossas histórias por um desejo de adquirir conhecimento, e ficou devidamente impressionado por elas como narrativas que deviam ser entendidas alegoricamente, e que não pertenciam à categoria das composições tolas.
Depois disso, selecionando, dentre todos os tratados que contêm explicações e interpretações alegóricas, expressas numa linguagem e num estilo nada desprezíveis, o menos importante, tal como poderia, de fato, contribuir para fortalecer a fé da multidão dos crentes simples, mas não era apropriado para impressionar os de mente mais inteligente, ele continua: De tal natureza sei ser a obra intitulada Controvérsia entre um certo Papisco e Jasão, que é apropriada para provocar pena e ódio, em vez de riso. Não é meu propósito, no entanto, refutar as afirmações contidas em tais obras, pois sua falsidade é manifesta a todos, especialmente se alguém tiver a paciência de ler os próprios livros. Antes, desejo mostrar que a Natureza ensina isto: que Deus nada fez que seja mortal, mas que suas obras, sejam quais forem, são imortais, e as deles, mortais. E a alma é obra de Deus, ao passo que a natureza do corpo é diferente. E nesse aspecto não há diferença entre o corpo de um morcego, ou de um verme, ou de uma rã, e o de um homem, pois a matéria é a mesma, e sua parte corruptível é igual. Mesmo assim, eu desejaria que todo aquele que ouviu Celso declamando e afirmando que o tratado intitulado Controvérsia entre Jasão e Papisco a respeito de Cristo era apropriado para provocar não riso, mas ódio, pudesse pegar a obra em suas mãos, e ouvir pacientemente o seu conteúdo, para que, não encontrando nela nada que provoque ódio, condenasse Celso a partir do próprio livro. Pois, se for lido com imparcialidade, verificar-se-á que não há nada que provoque nem mesmo riso numa obra na qual um cristão é descrito conversando com um judeu sobre o tema das Escrituras judaicas, e provando que as predições a respeito de Cristo se aplicam adequadamente a Jesus. Embora o outro interlocutor sustente a discussão num estilo nada inferior, e de um modo nada impróprio do caráter de um judeu.
Não sei, de fato, como ele poderia conjugar coisas que não admitem união, e que não podem existir juntas ao mesmo tempo na natureza humana, ao dizer, como disse, que o tratado acima merecia ser tratado tanto com pena quanto com ódio. Pois todos admitirão que aquele que é objeto de pena não é, no mesmo momento, objeto de ódio, e que aquele que é objeto de ódio não é, ao mesmo tempo, sujeito de pena. Celso, ainda, diz que não era seu propósito refutar tais afirmações, porque acha que o absurdo delas é evidente a todos, e que, mesmo antes de oferecer qualquer refutação lógica, elas parecerão ruins, e merecedoras tanto de pena quanto de ódio. Mas convidamos aquele que ler esta nossa resposta às acusações de Celso a ter paciência, e a ouvir os próprios escritos sagrados, e, na medida do possível, a formar uma opinião, a partir do seu conteúdo, sobre o propósito dos autores, e sobre suas consciências e disposição de espírito. Pois ele descobrirá que são homens que lutam com afinco pelo que defendem, e que alguns deles mostram que a história que narram é uma que eles tanto viram quanto vivenciaram, que foi milagrosa, e digna de ser registrada para proveito de seus futuros ouvintes. Será que alguém ousará dizer que não é a origem e a fonte de toda bênção crer no Deus de todas as coisas, e realizar todas as nossas ações com vistas a agradá-Lo em tudo o que seja, e não nutrir nem mesmo um pensamento que Lhe desagrade, visto que não só as nossas palavras e ações, mas até os nossos próprios pensamentos serão objeto de julgamento futuro? E que outros argumentos levariam a natureza humana, com mais eficácia, a adotar uma vida virtuosa do que a crença ou a opinião de que o Deus supremo contempla todas as coisas, não só o que é dito e feito, mas até o que é pensado por nós? E que qualquer um que queira compare qualquer outro sistema que ao mesmo tempo converta e melhore não apenas um ou dois indivíduos, mas, na medida do que está em seu poder, números incontáveis, para que, pela comparação de ambos os métodos, possa formar uma ideia correta dos argumentos que dispõem a uma vida virtuosa.