Contra Celso - Livro IV 6
A providência divina e a descida de Deus aos homens
Em seguida, como se tivesse se dedicado exclusivamente a manifestar seu ódio e aversão à doutrina judaica e cristã, ele diz: Os mais comedidos entre os escritores judeus e cristãos dão a todas essas coisas um sentido alegórico. E: Por terem vergonha dessas coisas, refugiam-se na alegoria. Ora, poder-se-ia dizer a ele que, se temos de admitir que fábulas e ficções, escritas com um sentido oculto ou com qualquer outro objetivo, sejam narrativas vergonhosas quando tomadas em sua acepção literal, de que histórias isso pode ser dito com mais verdade do que das gregas? Nessas histórias, deuses que são filhos castram os deuses que são seus pais, e deuses que são pais devoram os próprios filhos, e uma deusa-mãe dá ao pai dos deuses e dos homens uma pedra para engolir em lugar de seu próprio filho, e um pai tem relação com sua filha, e uma esposa amarra o próprio marido, tendo como aliados na obra o irmão do deus acorrentado e a sua própria filha! Mas por que eu deveria enumerar essas histórias absurdas dos gregos a respeito de seus deuses, que são vergonhosíssimas em si mesmas, ainda que revestidas de um sentido alegórico? Tome o caso em que Crisipo de Solos, que é considerado um ornamento da seita estoica por causa de seus numerosos e eruditos tratados, explica um quadro em Samos, no qual Juno era representada cometendo abominações indizíveis com Júpiter. Esse venerável filósofo diz em seus tratados que a matéria recebe as palavras seminais do deus, e as retém dentro de si, a fim de ornamentar o universo. Pois no quadro em Samos Juno representa a matéria, e Júpiter o deus. Ora, é por causa dessas, e de incontáveis outras fábulas semelhantes, que nós não chamaríamos, nem mesmo em palavra, o Deus de todas as coisas de Júpiter, nem o sol de Apolo, nem a lua de Diana. Mas oferecemos ao Criador uma adoração que é pura, e falamos com respeito religioso de suas nobres obras da criação, sem contaminar nem em palavra as coisas de Deus, aprovando a linguagem de Platão no Filebo, que não admitia que o prazer fosse uma deusa: Tão grande é minha reverência, Protarco, diz ele, pelos próprios nomes dos deuses. Nós, de fato, nutrimos tamanha reverência pelo nome de Deus, e por suas nobres obras da criação, que não admitiríamos, nem mesmo sob pretexto de um sentido alegórico, qualquer fábula que pudesse causar dano aos jovens.