Contra Celso - Livro IV 5
A providência divina e a descida de Deus aos homens
Mas, como Celso faz também troça da serpente, por contrariar as ordens dadas por Deus ao homem, tomando a narrativa como uma fábula de comadre, e tendo de propósito nem mencionado o paraíso de Deus, nem afirmado que se diz que Deus o plantou no Éden, para o lado do oriente, e que ali depois brotou da terra toda árvore agradável à vista e boa para alimento, e a árvore da vida no meio do paraíso, e a árvore do conhecimento do bem e do mal, e as outras afirmações que se seguem, que poderiam, por si mesmas, levar um leitor sincero a ver que todas essas coisas tinham, não inapropriadamente, um sentido alegórico, contrastemos com isto as palavras de Sócrates a respeito de Eros no Banquete de Platão, e que são postas na boca de Sócrates como mais apropriadas do que o que foi dito sobre ele por todos os outros no Banquete. As palavras de Platão são as seguintes: Quando Afrodite nasceu, os deuses fizeram um banquete, e estava presente, junto com os outros, Poro, o filho de Métis. E depois que jantaram, Penia veio mendigar algo (visto que havia um festim), e ficou de pé junto ao portão. Poro, entrementes, tendo-se embriagado com o néctar (pois não havia vinho então), entrou no jardim de Zeus e, pesado de bebida, deitou-se para dormir. Penia, então, formou um plano secreto, com vistas a libertar-se de sua condição de pobreza, para ter um filho com Poro, e por isso deitou-se ao lado dele, e ficou grávida de Eros. E por essa razão Eros se tornou o seguidor e servo de Afrodite, tendo sido gerado no banquete de seu aniversário, e sendo ao mesmo tempo, por natureza, um amante do belo, porque Afrodite também é bela. Vendo, então, que Eros é o filho de Poro e Penia, esta é a sua condição. Em primeiro lugar, é sempre pobre, e longe de ser delicado e belo, como a maioria das pessoas imagina; mas é mirrado, e queimado de sol, e descalço, e sem lar, dormindo sempre sobre o chão, e sem cobertura; deitado ao ar livre junto aos portões e nas estradas públicas; possuindo a natureza de sua mãe, e habitando continuamente com a indigência. Mas, por outro lado, conforme o caráter de seu pai, é dado a conspirar contra o belo e o bom, sendo corajoso, e impetuoso, e veemente; um caçador astuto, perpetuamente engendrando artifícios; muito dado à premeditação, e também fértil em recursos; agindo como um filósofo durante toda a sua vida; um terrível feiticeiro, e traficante de drogas, e também um sofista; nem imortal por natureza, nem ainda mortal, mas, no mesmo dia, ora floresce e vive quando tem fartura, e de novo, noutra hora, morre, e mais uma vez é chamado de volta à vida, por possuir a natureza de seu pai. Mas os suprimentos que lhe são fornecidos estão sempre desaparecendo aos poucos, de modo que ele nunca, em momento algum, está em necessidade, nem ainda é rico; e, por outro lado, ocupa uma posição intermediária entre a sabedoria e a ignorância. Ora, se aqueles que lêem essas palavras imitassem a malignidade de Celso (longe esteja isso dos cristãos!), eles ridicularizariam o mito, e transformariam este grande Platão em objeto de chacota; mas, se, investigando com espírito filosófico o que se transmite sob a roupagem de um mito, conseguissem descobrir o sentido de Platão, (admirariam) o modo como ele foi capaz de ocultar, por causa da multidão, sob a forma deste mito, as grandes ideias que se lhe apresentavam, e de falar de maneira condizente àqueles que sabem averiguar, a partir dos mitos, o verdadeiro sentido daquele que os teceu. Ora, trouxe à tona este mito que ocorre nos escritos de Platão por causa da menção, nele, do jardim de Zeus, que parece guardar alguma semelhança com o paraíso de Deus, e da comparação entre Penia e a serpente, e do plano de Penia contra Poro, que pode ser comparado ao plano da serpente contra o homem. Não está muito claro, de fato, se Platão deu com essas histórias por acaso, ou se, como alguns pensam, encontrando durante sua visita ao Egito certos indivíduos que filosofavam sobre os mistérios judaicos, e aprendendo algumas coisas com eles, ele pode ter preservado umas poucas de suas ideias, e descartado outras, sendo cuidadoso para não ofender os gregos por uma adoção completa de todos os pontos da filosofia dos judeus, que estavam em má reputação junto à multidão por causa do caráter estrangeiro de suas leis e de sua organização política peculiar. O presente, contudo, não é o momento próprio para explicar nem o mito de Platão, nem a história da serpente e do paraíso de Deus, e tudo o que se relata ter ali ocorrido, pois, em nossa exposição do livro de Gênesis, nos ocupamos especialmente, da melhor maneira que pudemos, dessas matérias.