Contra Celso - Livro IV 2
A providência divina e a descida de Deus aos homens
Se, então, há ciclos de tempo, e dilúvios, ou conflagrações que ocorrem periodicamente ou não, e se a Escritura tem ciência disso, não só em muitas passagens, mas especialmente onde Salomão diz: Que é o que foi? Justamente o que há de ser. E que é o que se fez? Justamente o que se há de fazer, etc., etc., não cabe à presente ocasião discutir. Pois basta apenas observar que Moisés e alguns dos profetas, sendo homens de grandíssima antiguidade, não receberam de outros as afirmações relativas à (futura) conflagração do mundo; mas, ao contrário (se devemos atentar para a questão do tempo), foram outros que, antes, os compreenderam mal, e, não investigando com exatidão as suas afirmações, inventaram a ficção dos mesmos eventos recorrendo a certos intervalos, e não diferindo nem em suas qualidades essenciais nem acidentais. Mas nós não atribuímos nem o dilúvio nem a conflagração a ciclos e períodos planetários; declaramos antes que a causa deles é a ampla prevalência da maldade, e a (consequente) remoção dela por um dilúvio ou uma conflagração. E se as vozes dos profetas dizem que Deus desce, ele que disse: Por acaso não encho eu o céu e a terra? diz o Senhor, o termo é usado em sentido figurado. Pois Deus desce da sua própria altura e grandeza quando ordena os assuntos dos homens, e especialmente os dos maus. E assim como o costume leva os homens a dizer que os mestres se inclinam às crianças, e os sábios aos jovens que recém se entregaram à filosofia, não por descerem de modo corporal; assim também, se em algum lugar das Escrituras Sagradas se diz que Deus desce, isso se entende como dito em conformidade com o uso que assim emprega a palavra, e, do mesmo modo também, com a expressão subir.
Mas, já que é em zombaria que Celso diz que falamos de Deus descendo como um carrasco que traz fogo, e assim nos obriga a investigar fora de hora palavras de sentido mais profundo, faremos algumas observações, suficientes para permitir aos nossos ouvintes formar uma ideia da defesa que dissolve o escárnio de Celso contra nós, e depois passaremos ao que se segue. A palavra divina diz que o nosso Deus é um fogo consumidor, e que ele arrasta rios de fogo diante de si; mais ainda, que ele até entra como o fogo do fundidor, e como a erva do lavandeiro, para purificar o seu próprio povo. Mas, quando se diz que ele é um fogo consumidor, indagamos quais são as coisas que convém serem consumidas por Deus. E afirmamos que são a maldade, e as obras que dela resultam, e que, sendo figuradamente chamadas madeira, feno, palha, Deus consome como um fogo. O homem mau, por conseguinte, é descrito como construindo sobre o fundamento da razão, previamente lançado, madeira, e feno, e palha. Se, então, alguém puder mostrar que essas palavras foram entendidas de outro modo pelo escritor, e puder provar que o homem mau constrói literalmente madeira, ou feno, ou palha, fica evidente que o fogo deve ser entendido como material, e objeto dos sentidos. Mas se, pelo contrário, as obras do homem mau são ditas figuradamente sob os nomes de madeira, ou feno, ou palha, por que não ocorre de imediato (indagar) em que sentido a palavra fogo deve ser tomada, de modo que uma madeira dessa espécie seja consumida? Pois (a Escritura) diz: O fogo provará a obra de cada um, qual seja. Se permanecer a obra de alguém que sobre ele edificou, esse receberá recompensa. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá perda. Mas que obra pode ser dita nestas palavras como sendo queimada, senão tudo o que resulta da maldade? Portanto, o nosso Deus é um fogo consumidor no sentido em que tomamos a palavra; e assim ele entra como o fogo do fundidor, para refinar a natureza racional, que foi cheia do chumbo da maldade, e para libertá-la dos demais materiais impuros, que adulteram o ouro ou a prata natural, por assim dizer, da alma. E, do mesmo modo, diz-se que há rios de fogo diante de Deus, que limpará completamente o mal que está entremeado por toda a alma. Mas essas observações bastam como resposta à afirmação de que assim foram levados a expressar a opinião errônea de que Deus descerá trazendo fogo como um carrasco.
Mas olhemos o que Celso anuncia em seguida, com grande ostentação, da seguinte maneira: E de novo, diz ele, retomemos o assunto desde o começo, com um conjunto maior de provas. E não faço nenhuma afirmação nova, mas digo o que há muito está estabelecido. Deus é bom, e belo, e bem-aventurado, e isso no mais alto e mais belo grau. Mas, se ele descer entre os homens, terá de sofrer uma mudança, e uma mudança do bem para o mal, da virtude para o vício, da felicidade para a desgraça, e do melhor para o pior. Quem, então, escolheria tal mudança? É próprio de um mortal, de fato, sofrer mudança e remodelação, mas de um imortal permanecer o mesmo e inalterado. Deus, então, não poderia admitir tal mudança. Ora, parece-me que a resposta cabível já foi dada a essas objeções, quando relatei o que se chama na Escritura a condescendência de Deus para com os assuntos humanos; para o que ele não precisou sofrer uma transformação, como Celso pensa que afirmamos, nem uma mudança do bem para o mal, nem da virtude para o vício, nem da felicidade para a desgraça, nem do melhor para o pior. Pois, permanecendo imutável em sua essência, ele condescende aos assuntos humanos pela economia da sua providência. Mostramos, em conformidade, que as Escrituras Sagradas representam Deus como imutável, tanto por palavras como Tu és o mesmo, e Eu não mudo; ao passo que os deuses de Epicuro, sendo compostos de átomos e, no que toca à sua estrutura, capazes de dissolução, esforçam-se por lançar fora os átomos que contêm os elementos da destruição. Mais ainda, até mesmo o deus dos estoicos, por ser corpóreo, ora tem toda a sua essência composta do princípio diretor, quando ocorre a conflagração (do mundo); ora, quando se dá um reordenamento das coisas, torna-se de novo parcialmente material. Pois mesmo os estoicos foram incapazes de compreender distintamente a ideia natural de Deus, como sendo um ser inteiramente incorruptível e simples, e não composto e indivisível.
E, com respeito a ele ter descido entre os homens, ele estava antes na forma de Deus; e, por benevolência, despojou-se (da sua glória), para que pudesse ser recebido pelos homens. Mas ele não sofreu, suponho, nenhuma mudança do bem para o mal, pois não cometeu pecado; nem da virtude para o vício, pois não conheceu pecado. Nem passou da felicidade para a desgraça, mas humilhou-se a si mesmo, e ainda assim era bem-aventurado, mesmo quando a sua humilhação foi sofrida para beneficiar a nossa raça. Nem houve nele qualquer mudança do melhor para o pior, pois como podem a bondade e a benevolência ser do pior? É cabível dizer do médico, que olha para visões terríveis e manuseia objetos repugnantes a fim de curar os que sofrem, que ele passa do bem para o mal, ou da virtude para o vício, ou da felicidade para a desgraça? E, no entanto, o médico, ao olhar para visões terríveis e manusear objetos repugnantes, não escapa de todo à possibilidade de ficar envolvido na mesma sorte. Mas aquele que cura as feridas das nossas almas, por meio da palavra de Deus que está nele, é ele próprio incapaz de admitir qualquer maldade. Mas, se o Deus imortal, o Verbo, ao assumir um corpo mortal e uma alma humana, parece a Celso sofrer uma mudança e transformação, que ele aprenda que o Verbo, permanecendo ainda essencialmente o Verbo, não sofre nenhuma daquelas coisas que são sofridas pelo corpo ou pela alma; mas, condescendendo ocasionalmente à (fraqueza) daquele que é incapaz de fixar o olhar nos esplendores e no brilho da Divindade, ele se torna como que carne, falando com voz literal, até que aquele que o recebeu sob tal forma seja capaz, por ter sido elevado em algum grau leve pelo ensino do Verbo, de contemplar o que é, por assim dizer, a sua aparência real e preeminente.
Pois há diferentes aparências, por assim dizer, do Verbo, conforme ele se mostra a cada um daqueles que vêm à sua doutrina; e isso de uma maneira correspondente à condição daquele que está apenas começando a ser discípulo, ou daquele que fez um pequeno progresso, ou daquele que avançou mais, ou daquele que já quase alcançou a virtude, ou que mesmo já a alcançou. E por isso não é o caso, como Celso e os que são como ele quereriam, que o nosso Deus foi transformado, e, subindo o alto monte, mostrou que a sua aparência real era algo diferente, e muito mais excelente do que aquilo que viram os que permaneceram embaixo e foram incapazes de segui-lo nas alturas. Pois os que estavam embaixo não possuíam olhos capazes de ver a transformação do Verbo em sua condição gloriosa e mais divina. Mas com dificuldade eram capazes de recebê-lo como ele era; de modo que se poderia dizer dele, por aqueles que eram incapazes de contemplar a sua natureza mais excelente: Nós o vimos, e ele não tinha forma nem formosura; mas a sua aparência era humilde, e inferior à dos filhos dos homens. E que essas observações sejam uma resposta às suposições de Celso, que não compreende as mudanças ou transformações de Jesus, conforme relatadas nas histórias, nem a sua natureza mortal e imortal.
Mas não parecerão essas narrativas, especialmente quando entendidas em seu sentido próprio, muito mais dignas de respeito do que a história de que Dioniso foi enganado pelos Titãs, e expulso do trono de Júpiter, e despedaçado por eles, e, depois de seus restos serem novamente reunidos, voltou como que mais uma vez à vida, e subiu ao céu? Ou estão os gregos livres para referir tais histórias à doutrina da alma, e para interpretá-las figuradamente, enquanto a porta de uma explicação coerente, e em tudo concorde e em harmonia com os escritos do Espírito Divino, que tinha a sua morada em almas puras, está fechada para nós? Celso, então, ignora completamente o propósito dos nossos escritos, e é por isso sobre a sua própria interpretação deles que ele lança o descrédito, e não sobre o seu sentido real; ao passo que, se tivesse refletido sobre o que convém a uma alma que há de desfrutar uma vida eterna, e sobre a opinião que devemos formar da sua essência e dos seus princípios, ele não teria ridicularizado assim a entrada do imortal num corpo mortal, que se deu não segundo a metempsicose de Platão, mas de acordo com uma outra e mais alta visão das coisas. E ele teria observado uma descida, distinguida por sua grande benevolência, empreendida para converter (como a Escritura misticamente as chama) as ovelhas perdidas da casa de Israel, que se haviam desgarrado, descendo dos montes, e às quais o Pastor, em certas parábolas, é dito ter descido, deixando nos montes aquelas que não se haviam desgarrado.
Mas Celso, demorando-se em assuntos que não compreende, leva-nos a sermos culpados de repetição, já que não queremos deixar, nem mesmo na aparência, qualquer uma das suas objeções sem exame. Ele prossegue, em conformidade, assim: Deus ou realmente muda a si mesmo, como esses afirmam, num corpo mortal, e a impossibilidade disso já foi declarada; ou então não sofre mudança, mas apenas faz com que os que olham imaginem que sim, e assim os engana, e é culpado de falsidade. Ora, o engano e a falsidade nada mais são que males, e só seriam empregados como remédio, ou no caso de amigos doentes e lunáticos, com vista à sua cura, ou no de inimigos, quando alguém toma medidas para escapar de um perigo. Mas nenhum homem doente ou lunático é amigo de Deus, nem teme Deus a ninguém a tal ponto de evitar o perigo conduzindo-o ao erro. Ora, a resposta a essas afirmações poderia ter respeito em parte à natureza do Verbo Divino, que é Deus, e em parte à alma de Jesus. Quanto à natureza do Verbo, do mesmo modo como a qualidade do alimento se transforma na ama em leite com referência à natureza da criança, ou é disposta pelo médico com vista ao bem da saúde no caso de um homem doente, ou (é especialmente) preparada para um homem mais forte, porque ele possui maior vigor, assim Deus muda apropriadamente, no caso de cada indivíduo, o poder do Verbo, ao qual pertence a propriedade natural de nutrir a alma humana. E a um é dado, como a Escritura o chama, o leite sincero da palavra; e a outro, que é mais fraco, por assim dizer, ervas; e a outro que é adulto, alimento sólido. E o Verbo não se mostra falso, suponho, à sua própria natureza, ao contribuir com nutrição para cada um, conforme cada um é capaz de recebê-lo. Nem engana nem se mostra falso. Mas, se alguém tomasse a mudança como referente à alma de Jesus depois de ela ter entrado no corpo, indagaríamos em que sentido o termo mudança é usado. Pois, se se pretende aplicá-lo à sua essência, tal suposição é inadmissível, não só em relação à alma de Jesus, mas também à alma racional de qualquer outro ser. E se se alega que ela sofre algo do corpo ao se unir a ele, ou do lugar ao qual veio, então que inconveniente pode acontecer ao Verbo que, em grande benevolência, trouxe um Salvador para a raça humana? visto que nenhum daqueles que antes se propuseram a efetuar uma cura conseguiu realizar tanto quanto aquela alma mostrou que podia fazer, por aquilo que realizou, descendo até voluntariamente ao nível dos destinos humanos em benefício da nossa raça. E o Verbo Divino, sabendo bem disso, fala nesse sentido em muitas passagens da Escritura, embora seja suficiente, no momento, citar um testemunho de Paulo, no seguinte sentido: Haja em vós este sentimento que houve também em Cristo Jesus; que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, e foi feito à semelhança dos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, e foi obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que está acima de todo nome.
Outros, então, podem conceder a Celso que Deus não sofre mudança, mas leva os espectadores a imaginar que sim; ao passo que nós, que estamos persuadidos de que a vinda de Jesus entre os homens não foi mera aparência, mas uma real manifestação, não somos atingidos por essa acusação de Celso. Ainda assim, tentaremos uma réplica, porque você afirma, Celso, não afirma?, que às vezes é permitido empregar engano e falsidade a modo, por assim dizer, de remédio. Onde fica, então, o absurdo, se um resultado salvador desses fosse alcançado, em que alguns eventos como esses tivessem ocorrido? Pois certas palavras, quando têm sabor de falsidade, produzem sobre tais caráteres um efeito corretivo (como as declarações semelhantes dos médicos aos seus pacientes), mais do que quando ditas no espírito da verdade. Isto, contudo, há de ser a nossa defesa contra outros adversários. Pois não há absurdo em que aquele que curava amigos doentes cure a querida raça humana por meio de tais remédios, que ele não empregaria por preferência, mas apenas conforme as circunstâncias. A raça humana, além disso, quando num estado de alienação mental, tinha de ser curada por métodos que o Verbo via que ajudariam a trazer de volta a um estado de mente sã os que estavam assim afligidos. Mas Celso diz também que alguém age assim para com os inimigos, quando toma medidas para escapar de um perigo. Mas Deus não teme a ninguém, de modo a escapar do perigo conduzindo ao erro os que conspiram contra ele. Ora, é totalmente desnecessário e absurdo responder a uma acusação que não é feita por ninguém contra o nosso Salvador. E já respondemos, ao responder a outras acusações, à afirmação de que ninguém que esteja num estado de doença ou de alienação mental é amigo de Deus. Pois a resposta é que tais providências foram feitas, não em prol daqueles que, sendo já amigos, depois adoeceram ou ficaram afligidos por doença mental, mas para que aqueles que ainda eram inimigos por doença da alma, e alienação da razão natural, se tornassem amigos de Deus. Pois está distintamente afirmado que Jesus suportou todas as coisas em prol dos pecadores, para libertá-los do pecado e convertê-los à justiça.
Em seguida, como ele representa os judeus explicando, de um modo peculiar a eles próprios, a sua crença de que a vinda de Cristo entre eles ainda é futura, e os cristãos como sustentando, ao seu modo, que a vinda do Filho de Deus para a vida dos homens já aconteceu, consideremos, na medida do que pudermos, brevemente esses pontos. Segundo Celso, os judeus dizem que a vida (humana), estando cheia de toda maldade, precisava de um enviado de Deus, para que os maus fossem punidos, e todas as coisas purificadas de modo análogo ao primeiro dilúvio que aconteceu. E como se diz que os cristãos fazem afirmações adicionais a esta, fica evidente que ele alega que eles admitem essas coisas. Ora, onde fica o absurdo na vinda daquele que, por causa da prevalecente enxurrada de maldade, há de purificar o mundo, e tratar cada um conforme o que merece? Pois não condiz com o caráter de Deus que a difusão da maldade não cesse, e que todas as coisas sejam renovadas. Os gregos, além disso, sabem da terra ser purificada em certos tempos por um dilúvio ou um fogo, como Platão também diz em algum lugar nesse sentido: E quando os deuses inundam a terra, purificando-a com água, alguns deles nos montes, etc., etc. Deve-se dizer, então, que, se os gregos fazem tais afirmações, eles hão de ser julgados dignos de respeito e consideração, mas que, se nós também sustentamos algumas dessas concepções, que são citadas com aprovação pelos gregos, elas deixam de ser honrosas? E, no entanto, aqueles que se importam em atentar para a conexão e a verdade de todos os nossos registros se empenharão em estabelecer não só a antiguidade dos escritores, mas o caráter venerável dos seus escritos, e a coerência das suas várias partes.
Mas não entendo como ele pode imaginar que a queda da torre (de Babel) tenha acontecido com um objetivo semelhante ao do dilúvio, que realizou uma purificação da terra, segundo os relatos tanto dos judeus quanto dos cristãos. Pois, para que a narrativa contida em Gênesis a respeito da torre seja tomada como não carregando nenhum sentido oculto, mas, como supõe Celso, possa ser entendida ao pé da letra, o evento, sob tal ótica, não parece ter ocorrido com o propósito de purificar a terra; a menos, é claro, que ele imagine que a chamada confusão das línguas seja esse processo purificador. Mas sobre esse ponto, quem tiver a oportunidade tratará de modo mais adequado quando seu objetivo for mostrar não só qual é o sentido da narrativa em sua conexão histórica, mas também que sentido metafórico se pode deduzir dela. Como, no entanto, ele imagina que Moisés, que escreveu o relato da torre e da confusão das línguas, distorceu a história dos filhos de Aloeu e a transferiu para a torre, devemos observar que não creio que alguém anterior ao tempo de Homero tenha mencionado os filhos de Aloeu, ao passo que estou convencido de que o que se relata sobre a torre foi registrado por Moisés como sendo muito mais antigo não só do que Homero, mas até do que a invenção das letras entre os gregos. Quem, então, são os que distorcem as narrativas uns dos outros? Serão os que contam a história dos Aloadas que distorcem a história do tempo, ou aquele que escreveu o relato da torre e da confusão das línguas que distorce a história dos Aloadas? Ora, para ouvintes imparciais Moisés parece ser mais antigo do que Homero. Além disso, a destruição pelo fogo de Sodoma e Gomorra por causa de seus pecados, relatada por Moisés em Gênesis, é comparada por Celso à história de Faetonte, e todas essas afirmações dele resultam de um único erro, a saber, o de não atentar para a (maior) antiguidade de Moisés. Pois os que contam a história de Faetonte parecem ser ainda mais novos do que Homero, que, por sua vez, é muito mais novo do que Moisés. Não negamos, então, que o fogo purificador e a destruição do mundo ocorreram para que o mal fosse varrido e todas as coisas fossem renovadas; pois afirmamos que aprendemos essas coisas dos livros sagrados dos profetas. Mas, visto que, como dissemos nas páginas anteriores, os profetas, ao proferir muitas predições sobre eventos futuros, mostram que falaram a verdade a respeito de muitas coisas que já passaram, e assim dão prova da habitação do Espírito Divino, é evidente que, quanto às coisas ainda futuras, devemos depositar fé neles, ou melhor, no Espírito Divino que está neles.